Oly Jr - Santa Maria, 5 de outubro de 2019

Fotos: Pablito Diego
Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Depois de Wee Willie Walker (USA), Witney Shay (USA), Tom Worrell (USA), Luciano Leães & The Big Chiefs (BRA), Anthony 'Big A' Sherrod (USA), Luana Pacheco (BRA), Gonzalo Araya + Just Blues, o Memorabilia Blues no Plataforma 85 recebe o músico gaúcho Oly Jr.

Um violão e um ponto de vista. Quantas vezes essa prova de fogo derrubou jóqueis do cavalo. E como uma concorrente a Miss desfilando sozinha em câmera lenta numa passarela, é inevitável - a verdade sempre aparece. Desse modo, podemos separar os homens dos meninos, apartamos os tigres dos gatos pintados. Ás 22h45, é assim que o desfile de Oly Jr começa, só ele e seu violão... Ops, seu cigar box. E eis que a autenticidade novamente se fez presente no palco do Plataforma 85. 

Foto: Pablita Diego
Oly começa o show com "Sabe aqueles dias", uma de suas primeiras músicas, de 2003, do seu álbum de estreia, "Tô na mira". Ao estilo #onemanband (banda de um homem só), além do exótico instrumento de cordas, o músico porto-alegrense se apresenta com um panderola ajustada a sua botina esquerda, gaita de boca com suporte, afora uma incomum mala/bumbo constantemente fustigada pela marcação do pé direito.
Foto: Pablito Diego
Cigar box (caixa de charutos) é como ficaram conhecidos antigos instrumentos de cordas ressonantes, feitos artesanalmente com caixas de charutos ou semelhantes a elas. As de Oly são de Freijó. Ao longo da noite serão dois cigar box, um de 10 cordas, com um captador de guitarra Humbucker e captador de contato interno, além de braço Tonante acoplado. A de 11 cordas (em sistemática elétrica semelhante), ganhou enxerto de um braço Tagima. 

Foto: Pablito Diego
Ao curso da apresentação, já com a presença do baixista Jaques Jardim, fica fácil perceber que além da 'matriz' blues, a forma como o artista se espressa musicalmente absorve muito dos nossos regionalismos. E essa é uma das grandes sacadas de assistir a um show de Oly Jr - poucas vezes você verá algo parecido. Todo esse mix de influências, referências, escolhas, instrumentos geram um artista curioso, - essenciamente inventivo e original. No repertório, pérolas do blues norte-americano miscinegadas a gemas da nossa música. Assim, "One Bourbon, One Scotch, One Beer" (John Lee Hooker) se liga a "Homens de Preto" (Paulo Ruschel), um dos clássicos do catecismo regional gaúcho - "Os homens de preto trazendo a boiada / Vêm rindo, cantando, dando gargalhada / Deus, Deus, Deus, Deus, Deus, você fez". Fantástico! 

Foto: Pablito Diego
Entre os temas de seus 13 álbuns independentes, destaque no set para a divertida "Tentando me acabar", além de temas do meu disco preferido do milongueiro do blues, "Dedo de Vidro" (2014), base de onde saíram temas como "É mais um blues em português" e "Eu canto blues". 


Em "Uma avença", a melhor de todas, Oly revisita uma das temáticas mais folclóricos do gênero: o pacto com o diabo. E por mais que essa parola pareça esgotada, de uma forma muito própria, a letra encontra coeerência e consegue misturar-se ao nosso universo particular, pois marca o encontro entre o regionalista Blau Nunes e o bluesman Robert Johnson. Entre várias músicas, antes de cantá-las, o músico conta as histórias que originaram parte dos temas, e esse recorte storyteller também consegue captar a atenção do público.

Foto: Pablito Diego

No quesito releituras, números blueseiros como "I Just Want Make Love to You" (Willie Dixon) e "You Got the Move" (Mississippi Fred McDowell), nos conectam a parte de onde o cosmo olyniano busca sua principal imersão. Destaque para a versão esperta de "Knocking On Heaven's Door" (Bob Dylan), outro território em que ele parece se sentir muito a vontade. Detalhe: nunca espere ouvir as canções interpretadas ao vivo por Oly Jr exatamente da forma como você as conhecemos dos discos. E esse é um dos grandes trunfos de sua atuação, como acontece em "Faxineira" (Nei Lisboa), reiventada com êxito pelo artista.         

Foto: Pablito Diego
Em setembro de 2014, na época em que fui cronista do site do jornalista Claudemir Pereira. escrevi uma crônica chamada "Eu não sou suave" (leia AQUI). E eis que há cerca de um ano, sem aviso, recebo um áudio de Oly com parte do texto adaptado/musicado por ele. Uma surpresa e tanto, que obviamente me emocionou. Então, cinco anos depois, a música finalmente recebe sua estreia, um première que acontece exatamente no palco do Memorabilia Blues, ocasião em que ainda pude acompanhá-lo na gaita de boca. Sem palavras, Oly...


Na parte final, o músico santa-mariense Ninu Ilha esquenta ainda mais o clima com sua bateria, colaborando em temas como "I Can't Hold Out" (Elmore James) e "Stand By Me" (Ben E. King), essa última pedida pelo público. 

O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte. Técnica de som: Diego Fiorenza. Apoio de logística: Ninu Ilha. Desenho de luz e operação: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit. Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos. 

Próxima atração - Lil' Jimmy Reed (USA), músico que se apresenta no dia 30 de novembro. Os ingressos já estão à venda.
 
Foto: Pablito Diego


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