“Estou achando ótimo fazer rock, ao invés de atuar como um roqueiro”, diz Gabriel Braga Nunes

Ator estreia projeto musical no RS. Foto: arquivo pessoal GBN 
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Por Márcio Grings

É fato - o rock'n'roll vive um longo e interminável momento de baixa. Quando direcionamos os holofotes para a produção atual do gênero - em esfera mundial, por exemplo - é fácil perceber que existe pouca massa de renovação ou uma linha de montagem inteligente no mundo pop. Culpa de vários fatores... Assim, grande parte da safra mais recente sofre de males comuns ao nosso tempo, o maior deles talvez seja a falta de originalidade. E com pouco material interessante no front, o resultado de uma nova audição acaba por nos causar uma contínua e entediante sensação de déjà vu.

Se Bob Dylan foi recentemente laureado com um Prêmio Nobel de Literatura, antagonicamente o rock parece ter abandonado qualquer requinte ou interlace literário. Nessa perspectiva, eis que encontramos uma surpresa positiva na estreia do projeto musical do ator Gabriel Braga Nunes. O Amador, já disponível para audição em plataformas de streaming, em breve também estreia como show em minitour pelo RS. Ouça AQUI

Arquivo pessoal
E para dar voz as suas visões musicais - Gabriel encontra uma luz no influxo de um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, William Shakespeare. 

Na verdade, tanto o impulso criativo que advém da cena musical da década de 1970, quanto a imersão na literatura, encontram liga em sua personalidade: “Há cerca de uns 2 anos, eu voltava da gravação de 'Liberdade, Liberdade' [novela da Rede Globo veiculada em 2016], e a ficha caiu quando estava ouvindo 'Love it to death', álbum do Alice Cooper: É esse o som que quero fazer, pensei! Tirei várias musicas do Alice feitas nos anos 1970, adaptei para o meu tom de voz e organizei um repertório”, disse Gabriel em entrevista ao Memorabilia. No entanto, ele não pensava apenas em fazer o cover pelo cover, havia um desejo de reler o rock pela sua ótica particular: "E também achei que devia expandir um pouco o espectro do repertório. Peguei o “Dressed to kill”, do Kiss, e também alguns sons do AC/DC na época do Bon Scott”. Assim, essa visão de um repertório hard rock early começou a expandir em seu imaginário. 

Arquivo pessoal
Eis que a literatura entra na jogada: “Aconteceu que nesse meio tempo fiz uma adaptação de 'On the road again', do Willie Nelson,  forjando uma versão mais pesada, equalizada na linhagem daquilo que eu vinha planejando. Então, troquei a letra por trechos de 'On the road' [a Bíblia beat escrita pelo escritor norte-americano Jack Kerouac], fazendo uma conversa dos dois na estrada. Daí me dei conta que poderia ter problemas com direitos autorais, e isso me chateou”. Foi então que o ator/músico chegou até os Sonetos de domínio público de William Shakespeare.  “Costumam dizer que, no fim, tudo acaba em Shakespeare", lembra Gabriel.

No combustível intelectual desses Sonetos, o artista paulista encontrou dramaticidade, universalidade e a cadência perfeita para encaixar seus riffs e melodias. "Nas adaptações os sonetos estão inteiros, sem edições. Na minha visão, a métrica deles quase sempre indica caminhos musicais. No entanto, algumas vezes, essa mesma métrica foi subvertida para encaixar em determinado riff".

Veja um breve trecho de uma das adaptações de GBN.



Gabriel canta no idioma original em que os textos foram escritos: “Depois de ler os sonetos originais, achei melhor não competir em uma possível adaptação para o português (risos)". Ele ainda acredita que “o eu-lírico apaixonado dos sonetos combina com a dramaticidade do rock anos 1970". O resultado desse conjunto de intenções artísticas gerou um show com 15 músicas. Shakespeare escreveu 154 sonetos de amor, tema único nessa modalidade da obra do escritor inglês. Foi quando surgiu a ideia de usar a insígnia d'O Amador’, por combinar inclusive com sua relação dentro do gênero, atuando inicialmente não como um profissional, mas exclusivamente pelo seu amor ao rock e a tradição literária: “Sempre gostei mais de rock falado do que cantado. Ainda mais com boa poesia”, justifica o músico que faz seu debute numa escola onde nomes como Leonard Cohen e Lou Reed fundamentaram um catecismo mais sólido do que própria estrada romana que batizou Stratford, cidade natal de Shakespeare.        

Capa do EP. Divulgação GBN 
Após cerca de dois anos de trabalho, com a ajuda do amigo Lucas Hoffman (baixo e voz de apoio), se somaram ao grupo Fernando Oliveira (bateria), e por último Leo Mayer (guitarra), que também é o produtor musical do projeto, mesmo time que gravou o EP de estreia e finalmente cai na estrada com O Amador. Já estão confirmados shows em Passo Fundo (15/9) e Santa Maria (16/9).  


Mesmo que estejamos preparados para assistir um concerto de rock, em algum momento do espetáculo, durante o show, também está previsto um recorte em que o ator ressurge: “Devo declamar alguns sonetos traduzidos, apenas para dar contexto ao show e ao nome de batismo do projeto”.

Quando pergunto se ele teme a forma ao qual o público irá encará-lo empunhando uma guitarra e cantando em inglês, ou se deseja uma audiência desconectada do ator em favorecimento ao músico, Gabriel não se ilude: “O olhar do outro é algo que nos foge completamente, não há o que fazer sobre isso. Estou achando ótimo fazer rock, ao invés de atuar como um roqueiro”.

O que podemos afirmar é que Gabriel Braga Nunes é um homem corajoso, pois em plena era em que o rock vive impregnado de pastiches insalubres, o ator busca o caminho mais longo para iniciar uma nova carreira como músico. Entre suas escolhas, longe de atalhos enganosos, Gabriel pisa fora dos trilhos da previsibilidade, e com isso, quem ganha somos todos nós, amantes do rock e da literatura. 


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