Memorabilia: 10 Melhores álbuns de 2017

O micro sulco de um vinil. Reprodução 
#
Por Márcio Grings

Todo ano, quando penso em retrospecto nos álbuns que acabaram chegando até meus ouvidos, nem sempre há plena justiça em encapsular os 10 preferidos de cada temporada. Digo do ponto de vista de grande parte dos sites especializados em música. Provavelmente muitos dos discos rlacionados abaixo, não figurem em listas da Rolling Stone, Spin, etc. Na verdade, é como se fosse uma seleção natural: se não chegou até mim, é porque em meio a tanta informação, impossível ouvir tudo; se não bateu bem? Nada de forçar a barra... Por isso, acima de qualquer crivo, essa listagem representa principalmente o que me emocionou e fez palpitar o coração de quem escreve essas linhas (relembre os Melhores Álbuns de 2016). Em suma, emaranhado na avenida principal da catástrofe musical dos dias atuais, protagonizada e culpabilizada principalmente pelos meios de comunicação que insistem em nos empurrar o pior do nosso tempo, vale a dica: - se você se esforçar um pouco e procurar alternativas vicinais, basta utilizar ferramentas básicas de garimpo musical e podemos perceber que ainda há  boa música tremeluzindo na atualidade. Entre os destaques dos selecionados, dois tesouros desencavados dos anos 1960/70, álbuns que só ganharam a luz nos últimos meses, por isso figuram com justiça na listagem.

No final da postagem confira uma seleção dos 10 álbuns selecionados.

***** 2017 *****

Divulgação
#
1 - Gregg Allman "Southern Blood"

A despedida de Gregg Allman foi a lá David Bowie e Leonard Coehn: repleta de classe" "Southern Blood", álbum póstumo do eterno líder do Allman Brothers, parece encapsular o ideário musical desse artista que nos deixou no último mês de maio. Allman tinha perdido sua vitalidade desde um transplante de fígado que fez em 2010. No momento em que começou a colocar a mão na massa para registrar novas músicas, seu câncer de fígado retornou, embora poucos soubessem disso. Percebendo que a areia escorria rapidamente pela ampulheta, começou a acelerar todo o processo de gravação com o produtor Don Was. E o músico cumpriu com louvores sua última missão. E entre os temas escolhidas a dedo, canções de Percy Sledge, Grateful Dead, Dr. John, Tim Buckey, Willie Dixon, Jackson Browne (que participa do álbum), entre outros. Destaques para a versão de "Willin'" (Little Feat) e "Going Going Gone" (Bob Dylan) onde a letra diz: "Cheguei num lugar onde o carvalho não se dobra / Não há mais muito a se dizer / É o topo do fim / Estou indo, estou indo, já fui! Estou fechando o livro / Páginas e textos / E não importa mesmo o que vai acontecer / E só estou indo, estou indo, indo". Você está nos seus últimos momentos no planeta, e essa é a maneira que escolhe pra se despedir, com canções. De longe um dos discos mais bonitos que ouvi nos últimos meses. Leia a resenha ampliada AQUI Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
2 - Roger Waters "Is This Life We Really Want?

Roger Waters é um dos principais cronistas do nosso tempo. Suas letras atestam uma sociedade viciada em repetir os velhos erros, reavivando o homem político por trás de um artista que nunca se furtou da função de ser um dos grandes militantes do rock. O compositor dispara contra Donald Trump, fala da crise dos refugiados, versa sobre a opressão, milita a favor do direito a privacidade, condena o individualismo e refuta o consumismo desenfreado. O tom provocativo começa pelo título da (Esta é a vida que você realmente quer?) e segue com um punhado de boas canções que não apenas remontam ao melhor da fase de ouro do Pink Floyd, mas também revelam originalidade e o ressurgimento de um gênero que teve seu auge nos anos 1970: o rock progressivo. Além da faixa título, entre os vários destaques de "Is This Life We Realy Want?", reluzem números como "The Last Refugee", "Broken Bones",  "Smell the roses", entre outras. "Dejá Vù" é a música que atua como eixo central da obra, tema que se desdobra em outras três faixas - "Oceans Part", "Part of Died" e "Wait for her", a melhor delas. Poucos pianos podem soar mais floydianos do que aquilo que ouvimos em "Wait for her", assim como a letra a versar desenhos e requintes poético/apocalípticos. Leia a resenha ampliada AQUI Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
3 - Laura Marling "Sempre Femina"

Laura Marling é das cantoras mais interessantes surgidas na Inglaterra nos últimos anos. Emplacando um disco melhor que outro, depois do sensacional "Once Was An Eagle" (2013), eis que "Semper Femina" supera o anterior e expande ainda mais sua visão artística. O título do trabalho espelha a obra do poeta romano Virgílio, varium et mutabile semper femina – em português, “a mulher é sempre uma coisa inconstante e mutável”. Em essência acústica, suas músicas me soam como um híbrido de Tim Buckey e Judy Collins. "The Valley" é um épico melancólico de arrepiar os ossos; "Wild Fire" evoca a trovadora que há em Laura, com resquícios de soul music e um relato sincero sobre como o uso abusivo das drogas pode provocar o naufrágio de um relacionamento. "Semper Femina" tem o leme de Blake Mills (John Legend), produtor que também divide composições com Laura e coloca sua voz ininterruptamente na linha de frente dos arranjos. É o caso de "Don't Pass Me By", quando uma guitarra encardida evoca o som de Duane Eddy, além de encontrar na interpretação da cantora um improvável enlace. Se "Shooting" pode arrancar sorrisos dos fãs do Portisheah, as orquestrações melancólicas de "Wild Once" e o quase blues "Nothing, Not Early" encontram em Laura uma discípula preparada para receber o cetro de Musa folk direto das mãos de Joni Mitchell. Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
4 - Shelby Lynne & Allison Moorer "Not Dark Yet"

As irmãs Shelby Lynne e Allison Moorer escolheram a dedo o repertório a ser gravado em "Not Dark Yet". Versando na linhagem tradicional do country, elas releem temas de nomes como Jessi Colter, Townes Van Zandt, Merle Haggard, Jason Isbell e Amanda Shires. No entanto, também se arriscam fora do abecedário do gênero. É o caso de "Into My Arms" (Nick Cave) e "Lithium" (Nirvana), os dois momentos menos inspirados do disco, talvez pelo excesso de reverência. Já “My List” (The Killers), ao contrário, triunfa ao soar como uma perfeita canção do evangelho country, quase tocando o santo solo do gospel. "Every Time You Leave", um tema composto pelos Louvin Brothers no final dos anos 1950, funciona perfeitamente para o vocal em duo das irmãs. A faixa-título, uma releitura de Bob Dylan advinda do celebrado “Time Out Of Mind” (1997), além de ser umas das minhas canções prediletas do bardo, mantém o tom etéreo da versão original, algo entre o desânimo e a esperança. "I'm Looking for Blue Eyes" respira na áurea do country ressacado dos anos 1970. “Lungs”, música que conheci na trilha sonora da série “True Dectetive”, ressurge tão perigosa e apocalíptica como o tema original. Canções como “The Color of a Cloudy Day" e “Silver Wings” ecoam uníssonas ao DNA country das cantoras, perfeitamente envoltas numa íntima familiaridade. Leia a resenha ampliada AQUI Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
5 - Robert Plant "Carry Fire"

Rainha de Maio, nome inspirado em personagem de um poema do ocultista inglês Aleister Crowley, a mesma "The May Queen" encontrada na letra de "Stairway to Heaven" do Led Zeppelin renasce em 2017 no primeiro single de "Carry Fire". A música não é apenas uma descarada referência ao som da banda que tornou Robert Plant famoso  mundialmente, mas também indica que o veterano gosta de equilibrar distanciamento e proximidade com seus anos dourados. "The May Queen" é puro Led III em sua face acústica. Assim como "New World" tem a marca dos riffs de Jimmy Page. Mas não se engane, Plant continua olhando para a frente. Novamente com a escuderia do Sensational Space Shifters, mesmo grupo que o acompanha na estrada há mais de meia década, "Carry Fire" também é repleto de percussões, ritmos ancestrais e efeitos eletrônicos. Um síntese dessa sonoridade está em "Keep It Heed", blues turbinado com essas incursões. E se a garganta do antigo Deus do Trovão não chega mais aos patamares dos velhos tempos, aos 69 anos Robert Plant encontra uma nova voz/interpretação em temas reflexivos e grandiosos como "A Way With Words" e  "Heaven Sent". Ah, 'tá afim de sacolejar ao som de um bom rock'n'roll? "Bones of the Saints" vai dar um belo pontapé na sua bunda. Um disco tão bom, que quase ia esquecendo de citar a participação de Crissie Hynde (Pretenders) em "Bluebirds Over The Mountain".  Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
6 - Hiss Golden Messenger "Hallelujah Anyhow"

Fica  muito claro que Van Morrison é um Deus onipresente no panteão de influências de MC Taylor, líder do Hiss Golden Messenger, banda que fez barulho há poucas semanas com "Hallelujah Anyhow" 9º álbum da banda de country & soul surgida há exatos 10 anos na Carolina do Norte (EUA). Se Taylor não tem metade da potência de Morrison, o cantor e compositor compensa parte desse déficit com um álbum recheado de canções com pinta de Greatest Hits. Os mais atentos vão perceber várias alusões ao escuro nas letras: "Eu nunca tive medo da escuridão", diz em "Jenny of the Roses". Claro que tem! Homem véio com medo de apagar a luz, igual criança de cinco anos. "Gulfort You've Been On My Mind" é uma daqueles sons que isoladamente já nos convencem de comprar o álbum (ouça apenas ela). Perceba as nuanças do country blues "Domino (Time You Tell)", respire fundo antes do piano ecumênico que precede o banjo de "Caledonia, My Love" (impossível não lembrar da The Band) e deixe uma vela acesa para não ser engolido pelo escuro antes de "When The Wall Comes Down".  Um álbum que nos faz viajar de volta aos brejos do Sul dos Estados Unidos, oscilando entre a euforia e a melancolia. E como justificativa do caminho escolhido, Taylor exclama a mulher amada em "Join The Gun": "Neste mundo profundamente ermo, querida, cá eu estou cantando, cantando a minha música". Ouça o álbum completo AQUI    

Divulgação
#
7 - Neil Young "Hitchhker"

Em 1976, Neil Young, então com 30 anos e no auge de sua força criativa, gravou em apenas uma sessão, um álbum acústico intitulado "Hitchhiker". Esse conjunto de canções acabou por nunca ser lançado no formato em que foi concebido: voz, violão e harmônica. Há também uma piano song, "The Old Country Waltz". Com produção de David Briggs, as dez faixas acabaram arquivadas ou reposicionadas em projetos posteriores do canadense. Autossabotagem? Tentando entender os 'por quês' do projeto ter sido abortado, acredito que parte dessa decisão passe pela própria profusão artística do compositor. Apesar do minimalismo da produção, as canções de Young apontam para várias direções, há pouca unidade entre elas. No entanto, mais de 40 anos depois, essa é a lúcida comprovação de que estamos ouvindo um compositor rumo ao topo, prestes a finalizar a década de 1970 como um dos mais respeitados músicos de seu tempo. Na verdade, apenas como registro histórico, o disco já é fantástico. É Neil na ponta dos cascos (sem altos e baixos), prolífico e sintonizado com um recorte específico do final do século XX, mas que ainda soa atual e não apenas relevante, bem mais do que isso: genial! Genialidade que parece ter desbotado nos seus últimos discos, mais precisamente (e praticamente) em todos os álbuns que lançou na virada do ano 2.000. Já em "Hitchhiker", Neil Young triunfa como um dos mais talentosos artistas do nosso tempo. Leia a resenha ampliada AQUI Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#

8 - Willie Nelson "God's Problem Child

"God's Problem Child" teve produção de Buddy Cannon, parceiro em 7 das 13 canções do álbum. A faixa título é de arrepiar, pois a composição escrita por Jamie Johnson e Tony Joe White (que ainda emprestam suas vozes catarrentas ao registro), conta também com a derradeira participação de Leon Russel em uma gravação. Ele morreu em novembro de 2016. Pra quem não sabe, desde 1969 Willie toca com o mesmo violão (batizado de Trigger), e Leon Russel foi o primeiro músico a deixar sua assinatura no corpo de madeira do instrumento, que hoje possui dezenas de rabiscos de estrelas da música internacional. O tema é uma ode desafiadora e pantanosa, um relato de como é viver fora dos padrões da sociedade, algo que ambos os cantores falam com autoridade (inclua Tony Joe White nesse clube). E a voz de Willie soa frágil, ancestral e ao mesmo tempo carimba seu atestado de sobrevivência, como autêntico detentor do legado de seus amigos que estão partindo. É de arrepiar. E avançando na audição ainda encontramos faixas como "True Love" e "It Gets Easier", canções que mostram a capacidade do protagonista em apresentar novas gemas que instantaneamente soam como clássicos, e consequentemente poderiam figurar em qualquer um de seus melhores discos..Leia a resenha ampliada AQUI Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
9 - P.P. Arnold "The Turning Tide"

Imagine a alegria de desencavar um tesouro guardado por meio século? Essa é a sensação que temos ao ouvir o ‘álbum perdido’ da cantora de soul norte-americana (e ex-Ikette, vocalista de apoio da banda de Ike Turner) P.P. Arnold, que hoje, aos 71 anos ainda está na ativa. Assim, “Turning Tide” foi lançado em outubro passado, 50 anos após as sessões produzidas por Eric Clapton e Barry Gibb (BeeGees). Ao finalizar as gravações, Robert Stigwood, empresário dos Bee Gees e do Cream (morto em 2016), não gostou do resultado das captações e arquivou o projeto (como assim!?). Gravado em Londres, com parte da banda base que logo seria conhecida como Derek and The Dominos, a impressão é que estamos ouvindo um clássico após o outro, ao estilo das produções similares de Phil Spector.  Ao longo dos anos, Arnold também colaborou com Small Faces, Humble Pie, Nick Drake, excursionou com os Stones, Eric Clapton, Roger Waters, atuando como coadjuvante de luxo. Quanto ao projeto batizado de “Turning Tide”, depois de anos de disputas legais, a atual manager de P.P. Arnold, Sally Cradock, e o veterano da indústria, Bill Levenson, ajudaram a liberar os direitos de publicação. Charles Rees (Paul Weller), mixou as canções.  Das treze faixas, arrebatamento ao ouvir temas como “Medicated Goo” , “Born”, “High and Windy Mountain”, “You’ve Made Me So Very Happy”, só pra citar algumas, além do perfeito clímax  com "You Can't Always Get What You Want", hit dos Rolling Stones.  Ouça o álbum completo AQUI 

Divulgação
#
10 - Greta Van Fleet “From The Fires”

Greta Van Fleet é uma nova banda norte-americana formada em Michigan pelos irmãos Josh Kiszka (vocal), Jake Kiszka (guitarra) e Sam Kiszka (baixo / teclados), com adição do baterista Danny Wagner. Basta ouvir a primeira faixa, “Safari Song” para entendermos qual é o norte dessa rapaziada: é como se o Led Zeppelin ressurgisse em 2017 com rostos rejuvenescidos. Do potente vocal do baixinho Josh, passando pelas criativas guitarras de Jake, somada a cozinha setentista de Sam e Danny, tudo soa como a lendária banda inglesa. Mas não é só isso... O quarteto lançou seu EP de estréia "Black Smoke Rising" em abril deste ano, e apenas um mês depois o emplacou entre os mais vendidos da  Billboard. E agora em novembro colocam nas prateleiras “From The Fires”, álbum que consiste nas faixas do EP, além de quatro músicas novas. Há duas releituras, “A Change Is Gonna Come”, clássico de Sam Cooke que virou hino durante o movimento dos Direitos Civis da década de 1960, e que infelizmente continua apropriada como triste recado para os dias atuais, e "Meet On The Ledge". tema do grupo de folk britânico Fairport Convention. Entre os destaques, “Flower Power”, faixa que remonta o Led acústico (no início da faixa) e também alude a ambiência do segundo álbum da banda de Plant/Page/Jones/Bonzo (ouça o teclado que finaliza a canção, uma clara referência a “Thank You”); além de “Talk on the Street”, canção que aponta que o Greta Van Fleet está rumo ao topo do rock americano. Ouça o álbum completo AQUI 

E para quem gostou da listagem ou ficou curioso, segue abaixo uma seleção com 30 músicas escolhidas a dedo dos 10 álbuns selecionados.

Comentários