Resenha: Roger Waters - "Is This Life We Realy Want?" (2017)

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Roger Waters levou mais de trinta anos para colocar no mundo seu melhor álbum fora do Pink Floyd. Particularmente, gosto muito de "The Pros and Cons of Hitch Hiking" (1984), sua estreia solo, um disco que fez a cabeça de muita gente na época - e principalmente de Wateristas como eu - dando sequência ao modus operandis do líder de um dos mais cultuados grupos do rock internacional. 

No entanto, se em "The Pros and Cons of Hitch Hiking" (1984), até então seu melhor trabalho fora do Floyd (e não me venham com "Amused to Death"!), Waters soava como um jogador com cartas marcadas, um esportista experiente guiando no piloto automático, ou um velho escultor entediado a cinzelar estuque com um cinzel foleado a ouro, mas apenas dedicando-se ao autoplágio - agora, senhores, finalmente os ventos mudaram de direção... 

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E mais, se há cerca de dois anos David Gilmour contentou as viúvas do Floyd com o ótimo "Rattle That Lock" (2015), em  "Is This Life We Realy Want?" Roger Waters carimba sua certificação de detentor do legado intelectual do Pink Floyd. O disco, que já pode ser ouvido no Spotify, chegou às prateleiras no início de Junho, e se você ler alguma crítica negativa a respeito do quinto álbum solo do músico, interne o autor do review. Além de Roger, responsável pelos vocais, violões e baixo, Nigel Godrich - que também produz o disco - ainda dá conta de alguns teclados, guitarras e a maior parte dos arranjos. Na banda base, nomes como Gus Seyffert (guitarra, teclados, baixo), Jonathon Wilson (guitarra, teclados), Roger Manning (teclados), Lee Padroni (teclados) e Joey Waronker  (batería). Nas vozes de apoio Jessica Wolfe, Holly Proctor e Lucius.  

A priori, as letras de Waters atestam uma sociedade viciada em repetir os velhos erros, reavivando o homem político por trás de um artista que nunca se furtou da função de um dos principais militantes do rock. O compositor dispara contra Donald Trump, fala da crise dos refugiados, versa sobre a opressão, milita a favor do direito a privacidade, condena o individualismo e refuta o consumismo desenfreado. O tom provocativo começa pelo título da (Esta é a vida que você realmente quer?) e segue com um punhado de boas canções que não remontam ao melhor da fase de ouro do Pink Floyd, mas também revelam originalidade e o ressurgimento de um gênero que teve seu auge nos anos 1970: o rock progressivo.

Porém, não estamos falando de um prog/rock 'vianjandão' aos estremos, autocentrado apenas no próprio umbigo ou digno de ganhar o selo de 'disco de músico", repleto de mirabolâncias musicais ou longevos extremos descolados da moldura de uma canção. Nada disso. São as músicas que brilham, Os fãs de Pink Floyd irão facilmente correlacionar vários dos temas a espetros do grupo, pois Waters também ressuscita o signo de álbum conceitual, com faixas interligadas, além de temas e melodias cíclicas.   

Além da faixa título, entre os vários destaques de "Is This Life We Realy Want?", reluzem números como "The Last Refugee", "Broken Bones",  "Smell the roses", entre outras. "Dejá Vù" é a música que atua como eixo central da obra, tema que se desdobra em outras três faixas - "Oceans Part", "Part of Died" e "Wait for her", a melhor delas. Poucos pianos podem soar mais floydianos do que aquilo que ouvimos em "Wait for her", assim como a letra que dialoga com fortes requintes poético/apocalípticos: 

"Como um príncipe nobre e impassível, espere por ela / Com sete travesseiros dispostos na escada / O perfume dela é como um incenso impregnante / Fique calmo e espere por ela / E não afugente os pardais que estão aninhados em suas tranças / Ao longo das barricadas, espere por ela". 

"Is This Life We Realy Want?" será figura fácil nas listas dos melhores de 2017. Na minha ele já é o Top 1. Ouça na íntegra.

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