Blues Etilicos — Porto Alegre, 30 de Julho de 2022

Fotos: Pablito Diego

Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego

Se tem uma banda que não brinca em serviço, principalmente quando toca ao vivo, esse grupo é o Blues Etilicos. Já os assisti seis vezes, todos os shows foram diferentes um do outro. A apresentação da vez se deu no último sábado (30), em Porto Alegre, no Blues Jazz Brasil Festival. O grupo acaba de colocar na praça o CD que celebra seus 35 anos de estrada (leia review aqui), um disco que não apenas revisita sua obra, mas dá — principalmente — um F5 na linha do tempo e nos relembra aquilo que o quinteto carioca tem de melhor: originalidade num gênero que a priori não se renova. A bastante tempo a jogada do BE é utilizar o blues como mote principal, mas sem manter as estruturas originais dentro de uma redoma, uma característica que sempre os levou para um lugar onde o blues pode ser o que ele quiser. E, quando os vemos de perto, é aí que o bicho pega.

Greg Wilson. Foto: Pablito Diego

No palco Greg Wilson (voz e guitarra), Flávio Guimarães (voz e harmônica), Otávio Rocha (guitarra), Cláudio Bedran (baixo) e Beto Werther (bateria e voz de apoio). Fim de tarde de céu azul e tempo agradável no inverno gaúcho, com o Parque da Redenção tomado de pessoas. Em torno das 17h o show começa com "Mona's Blues". O olhar malévolo de Greg Wilson demonstra seriedade e concentração. Protegido do frio por um longo sobretudo, Greg canta melhor do que nunca, firme como uma rocha, que mesmo desgastada pela ação do tempo é a pedra polida que empresta um dos quilates de legitimidade ao grupo. 

Otávio Rocha. Foto: Pablito Diego

A marca de genuinidade segue brilhando em "Seems Like a Whole World Was Crying" (Charlie Musselwhite), onde a engrenagem continua azeitada e sobrepujando problemas técnicos (corrigidos ao longo da apresentação). Otávio Rocha abre a caixa de ferramentas e carimba seu status de mestre no slide, assim como Flávio Guimarães assombra na harmônica, dobrando os acordes com as guitarras numa sonoridade que nos lembra o Allman Brothers, sensação reforçada pela cozinha de Cláudio Bedran e Beto Werther.  

Vídeo: "Waterfalls" (crédito: Douglas Torraca). 
   
"Waterfalls", uma das inéditas do último álbum, pode facilmente ser imaginada na voz de Susan Tedeski ou de Charlie Starr do Blackberry Smoke, mas não se engane — trata-se de uma das castas mais preciosas da última safra  de composições do Blues Etilicos. Greg a canta tão bem quanto no álbum. 

Flávio Guimarães. Foto: Pablito Diego

"Terceiro Whisky" é um dos emblemas da capacidade bilíngue do grupo em soar coerente ao seu propósito, pois não interessa se o idioma original do blues seja vertido para a língua de Vinícius de Moraes — e cantado pelo mais carioca dos norte-americanos —, porque tudo se amarra numa letra que mistura uísque com cachaça. O que certamente não sentimos ao ouvi-la ao vivo é algum tipo de ressaca, mesmo que eu mesmo tenha misturado burbom com cerveja. Greg faz o solo e deixa Otávio na base, um dropes da versatilidade dos guitarristas. Outra virtude do grupo está em algumas letras com breves reflexões filosóficas, como no caso de "3000", faixa título do EP homônimo lançado em 2019.  

— "Daqui a mais ou menos mil é três mil/ Espero a raça humana muito menos vil/  Para certos calendários/ Já é Era de Aquarius/ E o mundo continua menos medieval/ Honestos são otários/ Conceitos ao contrário/ E a estupidez é intercontinental".    

Cláudio Bedran. Foto: Pablito Diego

Em tempos de tanta imbecilidade e galhofaria patrocinada pelo Estado, nada como um blues metafísico. E nada mais transcendental do que uma guitarra soando como berimbau, o que acontece em "Dente de Ouro", ao vivo mais pesada e mais rápida do que a gravação de 1996. Essa poção mágica misturada no liquidificador cria algo novo, um blend — ao mesmo tempo — regional e universal, principal digital do Blues Etilicos como criador de algo genuíno. Se "3000" bate na cara da massa, "Safra de 63" é politizada até a medula:

— “No meu primeiro aniversário não teve festa nem presente (...) Teve golpe militar, general para presidente”. 

Beto Werther. Foto: Pablito Diego

Gravada originalmente em 1986,  mas oportunamente remodelada para o álbum "Blues Etílicos 35 Anos" —, na voz de Flávio Guimarães, “Safra de 63” se torna ainda necessária em 2022, ano de eleição presidencial. E assim acaba a primeira parte do show, quando Taryn Szpilman é anunciada como convidada especial para o show em Porto Alegre. 

Se no sentido de originalidade um certo anticlímax se instaura, é inegável falarmos aqui das qualidades da artista carioca em sua estreia na capital gaúcha. A cantora, que gravou CDs ligados ao blues e ao jazz e fez espetáculos onde revisitou Marylin Monroe e Billie Holiday, mantém uma carreira com mais de duas décadas de atividade. Como dubladora, entre diversos trabalhos, Taryn ficou conhecida por materializar a voz da rainha Elsa em "Frozen" (2013), um dos grandes sucessos da Disney nos últimos anos. De origem russa/alemã/polonesa, ela advém da família do pianista Wladyslaw Szpilman (biografado por Roman Polanski em O Pianista, de 2002), é filha de Marcos Szpilman, um dos fundadores da tradicional da Rio Jazz Orchestra. 

Taryn Szpilman. Foto: Pablito Diego

A artista convidada — caracterizada à caráter num vestido preto com uma generosa fenda na coxa direita —, resgata clássicos do blues e do soul, gosta de conversar com o público e conta histórias relacionadas a cada canção, o que demonstra um envolvimento emocional de Taryn com o repertório escolhido. Assim, ancorada por uma 'banda de luxo', a cantora destila talento em músicas como "I Put Spell on You" (de Screamin' Jay Hawkins, ligada ao espólio artístico de Nina Simone), "I've Got News for You" (Ray Charles), "Can't Hold Out Much Longer" (Little Walter) e "Seventh Son" (Willie Dixon). Taryn utiliza todos os espaços do palco, interage com os músicos e dá show de sensualidade e energia. Não, não estamos na Broadway ou no Blue Note, não é Nova Iorque, esse é o Parque da Redenção e a sofisticação está à barlavento em um palco gratuito no início da noite de sábado. No bis, "Evil Gal Blues" (Leonard Feather), traz à lembrança de Aretha Franklin e apresenta com pompa e circunstância a parceria forjada entre Taryn e o Blues Etilicos.  

Agradecimentos a Tiago Rodrigues (Planalto Transportes).      

Setlist

1 Mona's Blues

2 Seems Like the Whole World Was Crying 

3 Waterfall

4 Terceiro Whisky

5 3000

6 Dente de Ouro

7 Safra de 63

........................

c/ Taryn

8 I Put Spell on You

9 I've Got News for You

10 Can't Hold Out Much Longer

11 Seventh Son 

Bis

12 Evil Gal Blues 

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

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