Review: "Blues Etílicos – 35 anos"

BE. Foto: Guarin de Lorena 

Por Márcio Grings

O Blues Etílicos nos ensinou a misturar tudo, a transformar o blues em outra coisa, mas também nos ajudou a descobrir o blues e a entendê-lo como ele é. Deste modo, uma das grandes sacadas do grupo é o raio-x tridimensional proporcionado por uma obra que não apenas visiona paridades com o blues 'de lá', pois as canções do grupo ainda propõem uma permanente ligação com o som 'daqui'. É justamente nesse diálogo que encontramos a singularidade e o blend da mais legítima e brasileira das bandas de blues.

E para celebrar três décadas e meia de atividade, Greg Wilson (voz e guitarra), Flávio Guimarães (voz e harmônica), Otávio Rocha (guitarra), Cláudio Bedran (baixo) e Beto Werther (bateria e voz de apoio), resolveram celebrar sua trajetória, revisitá-la e trazer à luz algo novo. “Blues Etílicos — 35 anos” contém doze faixas, duas inéditas. Dos álbuns de estúdio, oito deles estão representados no CD. Dois discos ficaram de fora — “Viva Muddy Waters”, apenas com releituras, mas com uma inédita, “Seems Like the Whole World Was Crying” (coescrita com Charles Mussellwhite), e “Salamandra”, um álbum hegemônico, coeso, quase conceitual, pedra fundamental da maturidade alcançada pela banda, tanto que não há nada dele, neste pacote.  

Essa intenção de não apenas celebrar, mas de reorganizar e selecionar um extrato da obra autoral gravada, revelou que alguns temas soavam datados, não artisticamente, mas pela forma em que foram registrados, colocando-as numa desnecessária bolha dos anos 1980. De todo o modo, a maturidade adquirida na estrada e nos estúdios trouxe clareza e assertividade na atual sessão. Os slides molhados, a coesão dos arranjos, o diálogo preciso entre as guitarras, o poderoso groove da cozinha, a harmônica às vezes soando como se fosse um Hammond, um naipe de sopros ou como gaita de boca mesmo, tornando o que ouvimos compatível a qualquer material de alto nível registrado de ambos os lados do Atlântico. Captado no estúdio Marini, no Rio de Janeiro, em outubro de 2021, “Blues Etílicos – 35 anos” foi gravado, mixado e masterizado por Pedro Garcia, que o coproduziu ao lado de Kassin (Erasmo Carlos, Jorge Mautner). 

Na maior parte das vezes, o exercício de comparação entre as versões revela um brilho duradouro, pois essa ambição em reformular, de rever o passado e representá-lo não apenas como um quadro restaurado, traz à mostra algo genuíno. E o Blues Etílicos chegou lá. De volta a 1986, “Safra de 63” fundamenta essa intenção, pois é a pedra fundamental do grupo. E agora, tudo soa mais claro, até a letra, remodelada: “No meu primeiro aniversário não teve festa nem presente (...) Teve golpe militar, general para presidente”. “Safra de 63” se torna necessária e revigorada em 2022, ano de eleição presidencial. É um dos grandes momentos do álbum. Já na primeira faixa, em "Mona's Blues", de “Água Mineral”, percebemos o quanto a concepção sonora de Kassin e Pedro Garcia enriqueceram o resultado desse trabalho. De “San-Ho-Zay”, “Walking the Streets” e “What’s on your Mind” representam o blues como ele deve ser. Ainda nessa via, “How Many More Times”, de “Blues Etílicos IV”, puxada, pelo slide de Otávio Rocha, abre espaços vazios que são rapidamente preenchidos por um baixo doido de vontade para voar baixo. 

As canções de “Dente de Ouro” são um caso à parte. Sotaqueado por uma babel de elementos, técnica e artisticamente o álbum já é memorável, como a faixa título, que agora se aproxima daquilo que o Blues Etílicos faz ao vivo, na regravação com participação de Pedro Garcia na percussão, quando a guitarra-berimbau e a gaita de boca abrem brechas e cruzamentos com a energia do rock and roll. O mesmo ocorre em “Cerveja”, coautoria da banda com Fausto Fawcet, pois é difícil pensar em uma coletânea comemorativa sem incluí-la nessa tracklist“Misty Mountain” tomou uma proporção reflexiva, etérea, apesar do sombreamento acústico ter desaparecido, ampliou-se a ambiência elétrica com o southern rock, principalmente quando a banda ruma para o refrão. Preciso, Flávio Guimarães alterna força e suavidade, assim como Greg dá ênfase em cada frase da letra cantada por ele. “Beco Escuro”, de “A Cor do Universo”, tem outro andamento, uma música em que o Blues Etílicos nos permite olhar para pérolas esquecidas de sua discografia.

Puro Malte”, que batiza o álbum homônimo, pode ser considerada um dos cartões de visita de como o blues em português pode ser vitorioso, sem papo furado ou firulas. Já a instrumental (e inédita) “Mandala Boogie”, parece uma jam session despretensiosa, mas não é — pois a participação da guitarra-cítara de Kassim flerta com e orientalismo. “Waterfalls”, prima-irmã de “Misty Mountain”, pode facilmente ser imaginada na voz de Susan Tedeski ou de Charlie Starr do Blackberry Smoke, mas não se engane — trata-se de uma das joias mais preciosas, revelada especialmente para este “Blues Etílicos — 35 anos”. Não se esqueça: todas as 12 peças do CD pertencem ao espólio intelectual do grupo, o que forja uma retrospectiva com carimbo de autenticidade e talento.


Partindo do blues como principal mote, a obra do grupo é proficiente em não manter as estruturas do gênero dentro de uma redoma. Até porque estamos falando de um conjunto musical sul-americano, tão brasileiro quanto o próprio Greg Wilson, o mais carioca dos estadunidenses. Com todas essas canções, “Blues Etílicos — 35 anos” nos leva para um lugar onde o blues pode ser o que ele quiser. Assim, o legado do grupo se propaga como a poderosa mandinga de um Preto-Velho, esse bluesman andarilho que habita o corpo físico de muitos, graças ao mojo espalhado pela Rosa-dos-ventos do quinteto.

“Blues Etílicos — 35 anos” começa a ser entregue no início de 2022. Garanta o seu AQUIVeja a live do Blues Etílicos no canal Pitadas do Sal

Ouça um trecho de "Waterfalls" e confira mais detalhes do box. 

Comentários

  1. #5 anos que acompanho e é uma das bandas que mais acompanho nesta safra Blues sou admirador tive o privilegio de subir ao palco com estes e torna-los sempre um bom som para apresentar o Blues com identidade , vida propria em boas safras cultivadas em cada trabalho registrado ou em canções, cada um que ouça vai colher bons frutos e com certeza pede biz. Que venha a safra 35!

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