Toquinho, uma aula de MPB no Palco Bell'Anima

Foto: acervo pessoal

| Por Márcio Grings |

Prestes a completar 76 anos, o paulistano Antônio Pecci Filho, conhecido mundialmente pelo nome artístico de Toquinho, é um personagem indissociável à música popular brasileira feita nos últimos 50 anos. Com mais de 80 álbuns no currículo, célebre por forjar parcerias com Vinicius de Moraes, Jorge Ben e Chico Buarque, é detentor de uma longeva e produtiva carreira solo. Apresentando-se muitas vezes acompanhado apenas pelo seu violão, outras com colaborações, como dessa vez — ao lado da cantora goiana Camilla Faustino —,  o músico encerrou no último sábado (2) o mini tour pelo Rio Grande do Sul do show “A Arte de Viver”, no Recanto Maestro. Criticado por suas recentes declarações políticas, posicionamento que não se alinha a uma trajetória de andanças e transgressões — pois assim como outros tantos, ele também teve problemas com a censura nos anos 1970 —  o compositor minimizou suas afirmações dizendo não ser a favor nem de Bolsonaro nem de Lula e afirmou que odeia política — saiba mais 

Contudo, esqueça tudo isso — por uma noite apenas — e aprecie o show. Foi o que fiz. E que show...

Camilla Faustino e Toquinho. Fonte: Estadão

O espetáculo no Palco Bell’Anima, anfiteatro localizado entre Restinga Sêca e São João do Polêsine, a 40 quilômetros de Santa Maria, teve início com “Corcovado”, um dos clássicos da bossa nova, extrato perfeito do que viria a seguir: um clássico depois do outro. Numa espécie de resgate de suas influências, parcerias e composições, Toquinho interpretou canções como “Que Maravilha” , fruto de cooperação com Jorge Ben, além de "Samba de Orly" e "Tarde em Itapuã", símbolos de sua atuação com Vinicius de Moraes, irmandade artística que rendeu 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos. .

Na apresentação, o artista não propõe uma simples execução das canções, pois um dos interessantes desdobramentos desse show é justamente o que acontece entre uma música e outra, quando o cantor nos conta várias detalhes das composições e diversas histórias de sua carreira. Assim sabemos como Pixinguinha salvou-se de um assaltante e ainda ganhou um amigo; descobrimos de que maneira Toquinho ajudou Chico Buarque durante o exílio do músico na Itália; assim como ouvimos os relatos de como nasceram muitas canções da parceria com Vinicius. 

Camilla e Toquinho no Palco Bell'Anima; Foto:  Nathália Schneider/ DSM

Toquinho também é admirado pela técnica como instrumentista, uma habilidade visível no pot-pourri "Abismo de Rosas", "Valsinha" e  “Gente Humilde”.  No início dos anos 1980, temas como  “A Casa” e “O Caderno” embalaram uma geração de crianças nos discos “A Arca de Noé” e, ao serem executadas no Bell’Anima, temos a certeza de que certas músicas passaram no teste do tempo, pois após tocá-las, o compositor é ovacionado pela plateia. A versão instrumental de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, novamente reacende a chama de um violonista capaz de impressionar tanto pela refinamento quanto pela inventividade dos arranjos.  

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Quando apenas a voz da cantora goiana Camilla Faustino surge pelos alto falantes cantando “As Rosas Não Falam”, de Cartola, só na segunda estrofe a vemos caminhando até o centro do palco. Considerada (com justiça) uma das promessa da nova geração da MPB, a artista ganhou reconhecimento internacional pelo seu álbum de estreia, “Bossa, sempre Bossa” (2019), homenagem aos 60 anos do gênero que virou moda no mundo todo, e trabalho indicado ao Grammy Latino — “Temos um entrosamento e afinidade que deixa tudo fluir natural, como deve ser. É divertido e enriquecedor trabalhar e estar com Toquinho”, disse a cantora em entrevista ao site da Abramus, declaração que endossa o que vemos no show — um deleite mútuo na atuação do duo. 

Foto: Nathália Schneider/ DSM

A dupla segue o desfile de clássicos — ”Andança”, “Samba em Prelúdio”, “Chega de Saudade”, “Carinhoso”, “Regra Três” e um medley em homenagem a Baden Powell, um dos grandes violonistas da música brasileira, e influência permanente na obra de Toquinho. Ao final, com participação da Orquestra Jovem do Recanto Maestro, “Eu Sei Que vou te Amar” emociona. Mas nada se compara a catarse de “Aquarela”, uma canção indivisível e símbolo do talento de um artista capaz de ainda comover gerações. No bis, com a divertida “A Tonga da Mironga do Kabulete”, Toquinho e Camilla arrancam sorrisos do público e se despedem do Palco Bell’Anima após professorarem uma impressionante aula de MPB. Se Toquinho resolveu não mais falar sobre politica, na Polis onde reside a verdadeira arte — o artista sempre escolhe um lado —, ele nunca paga de isento ou fica em cima do muro. Toquinho, pelo menos nessa noite, levantou a sua bandeira e falou da política do amor, encantando-nos com a melhor parte dele — a do músico, cantor, compositor e contador de histórias. Ah, e anotem esse nome: Camilla Faustino, pois trata-se de uma grande cantora.      

Agradecimentos aos 'violonistas' Rafael Ritzel e Gérson Werlang, companheiros de show e amigos que me auxiliaram na busca do setlist, além de outros detalhes desta resenha. Com suporte e credenciamento de Jéssica Barcellos, a realização da turnê “A Arte de Viver” no Rio Grande de Sul é assinada pela Branco Produções

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SETLIST TOQUINHO c/ CAMILLA FAUSTINO, BELL’ANIMA

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Corcovado (Antônio Carlos Jobim)

Que Maravilha (Toquinho/ Jorge Ben)

Samba de Orly (Toquinho/ Vinicius/ Chico Buarque)

Tarde em Itapuã (Toquinho/ Vinicius)

Abismo de Rosas (Dilermando Reis)/ Valsinha (Chico Buarque) / Gente Humilde (Garoto)

A Casa (Toquinho)

O Caderno (Toquinho)

Asa Branca (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira)

As Rosas Não Falam (Cartola)

Andança (Beth Carvalho)

Samba em Prelúdio (Vinicius de Moraes/ Baden Powell)

Chega de Saudade (Vinicius de Moraes/ Antônio Carlos Jobim)

Carinhoso (Pixinguinha)

Regra Três (Toquinho/ Vinicius de Moraes)

Canto de Osanha/ Berimbau (Vinicius de Moraes/ Baden Powell)

Eu Sei Que Vou te Amar (Antônio Carlos Jobim/ Vinicius de Moraes)

Aquarela (Toquinho)

 Bis

A Tonga da Mironga do Kabulete  (Toquinho/ Vinicius de Moraes) 

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