Tom Fogerty, o Fogerty esquecido e o fim do Creedence


Por Márcio Grings

Volto aos anos 1980, tempos de informações parcas e insuficientes e insuficientes sobre o rock, dias em que eu sempre me  perguntava? Por que raios uma banda como o Creedence Clearwater Revival acabou praticamente no auge, responsável por sucessos como "Have Your Ever Seen the Rain?, "Fortunate Son", "Born on the Bayou", "Long As I Can See the Light", "Bad Moon Rising", entre tantos outros? Por que afinal Tom Fogerty saiu da banda em 1971? Quais foram os reais motivos do estranhamento entre os irmãos? 

Veja a live sobre Tom Fogerty e o fim do CCR no canal de Daniella Zupo

A saída de Tom deixou um enorme buraco na banda, tanto que após "Mardi Grass" (1971),  o trio remanescente resolveu encerrar às atividades, há 50 anos, em julho de 1972. Mas por quê? Hoje, o teste do tempo nos dá a sobriedade de constatar que o timbre vocal dos irmãos é muito parecido, assim como as canções de Tom, ouvidas posteriormente em seus discos solo, não destoam dos temas do Creedence. Como guitarrista, John era mais talentoso do que o irmão mais velho, contudo, Tom fornecia a sólida base para o que ouvimos nos seis álbuns que eles gravaram, um dos selos de qualidade do Creedence. 

A ASCENÇÃO DO CCR

Quatro anos mais velho (9/11/1941) que o caçula (26/6/1945), foi Tom que introduziu o mais jovem dos Fogerty no universo musical. Quando começaram, John, Stu e Doug tinham em torno de 14/15 anos, e Tom 18/19. Isso explica a liderança inicial do irmão mais velho. O quarteto nasceu como  Tommy Fogerty and the Blue Velvets, em 1959, quando os amigos de escola John Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria) se apresentavam com Tom (ou Tommy) como vocalista. Tempos depois se tornaram The Visions, depois The Golliwogs, e só em 1967 eles  seriam conhecidos como Creedence Clearwater Revival. 

Leia também: John Fogerty, um excelente professor

Ao gravarem o primeiro disco em 1968, no álbum autointitulado que apresenta o CCR — John, Stu e Doug tinham em torno de 23/24, e Tom 27/28. Nesse LP, os irmãos compuseram uma única canção juntos, "Walk on the Water", tema que fecha o disco de estreia da banda. Já no ano seguinte, com John  assumindo a liderança  e compondo todas as canções, colocaram no mundo três álbuns — “Bayou Country”, “Green River” e “Willie and the Poor Boys” —  três álbuns em apenas um ano, ainda hoje um feito notável. Assim o CCR se tronou um  fenômeno das massas naqueles últimos dias dos anos 1960.  

A CHEGADA AO TOPO

Com esse início arrasador, enfileirando um álbum atrás do outro, uma enquete entre os leitores da revista Rolling Stone os elegeu — com justiça — como a grande banda norte-americana daquela virada de década, mesmo ano que eles foram um dos destaques no Festival de Woodstock. A chegada ao topo está eternizada em “The Concert”, registro de um show realizado em 31 de janeiro de 1970 no Oakland Coliseum (lançado em CD só em 1980), além do concerto em 13 de maio de 1970, no Madison Square Garden em  Nova Iorque, que se tornou um audiovisual bem conhecido entre os fãs. Ainda nesse ano, “Cosmos Factory”, em julho, e “Pendulum”, em dezembro, só ajudaram a manter o grupo dos irmãos Fogerty como um dos mais populares naquele início de anos 1970.

O INÍCIO DO FIM

Após lançarem cinco álbuns em dois anos, eles fizeram uma pausa de um ano e quatro meses, pois quando “Mardi Grass” saiu em abril de 1972, o Creedence lançaria o que seria seu último álbum, e sem Tom, que deixou a banda um anos antes, em fevereiro de 1971. Foi quando o mundo percebeu que haviam estranhezas e conflitos entre eles.   

Hoje sabe-se que, por questões contratuais, John não concordava com a divisão dos lucros. Brigou com Doug, Tom e Stu, e ainda bateu de frente com Saul Zaentz, chefão da Fantasy, selo que detém o catálogo do CCR até hoje, e que também participava da divisão dos imensos lucros gerados pelas vendagens de singles e LPS. John queria manter o controle total e receber a maior parte dos royalties, merecedor dessa posição (na visão dele), pois produzia, compunha todas as canções, cantava e liderava o Creedence Clearwater Revival.  


A SAÍDA DE TOM FOGERTY

E quais foram os motivos da saída de Tom Fogerty? Penso que foram dois — o primeiro deles — Tom tinha as suas canções, e não encontrava espaço para colocá-las nos álbuns do grupo. Isso o amargurava, pois John não apenas ganhou status de autoproduzir o grupo, como também cravava na tracklist dos álbuns apenas suas composições. Com o sucesso da banda, Doug e Stu também queriam não apenas gravar suas criações, mas ainda cantá-las. Foi o que aconteceu em “Mardi Grass”, o derradeiro LP do Creedence, que após a saída de Tom, trouxe um líder contrariado em aceitar a incursão de canções de seus companheiros. Assim, apenas seis meses após “Mardi Grass”, uma coisa puxou a outra, e o fim estava decretado. Um reencontro quase aconteceu em 1975, mas novamente as divisões de royalties não permitiram essa volta, pois novamente houve desentendimentos, o que também ocorreu numa segunda tentativa, no casamento de Tom, em 1980.

TOM SOLO

Após a saída de Tom Fogerty do Creedence, ele lançou um single curioso, “Goodbye Media Man”, em 45 RPM e a lá "What I'd Say", pois o tema toma conta de ambos os lados do compacto e virou um minidoc de 10 minutos. No Top 100 da Billboard, a música ficou na posição 103º, mas virou um hit em outras partes do mundo, chegando ao Top 20 das paradas argentinas! Mas havia mais, pois em apenas dois anos, quatro LPs revelariam que a tirania de John privou o Creedence de ótimas canções. Basta ouvir as faixas de "Tom Fogerty" (1972), "Excalibur" (1972), "Zephyr National" (1974), "Myopia" (1974), obras comprovativas do quilate de suas composições, mas também de suas limitações como guitarrista. 

O epônimo álbum de estreia ganhou resenhas positivas nas revistas Rolling Stone e Billboard, mas não emplacou nas paradas. 50 anos depois, ao ouvirmos esse mesmo LP com atenção, fica fácil perceber que temos um ótimo disco girando no toca-discos. Canções como "Lady of Fatima", "Wondering", "Train to Nowhere" e principalmente "Cast the First Stone" poderiam tranquilamente ter figurado em um álbum de sua ex-banda. Uma das críticas sofridas por Tom nessa estreia passa por sua ineficiência como instrumentista solo, tanto que estamos falando de um álbum sem virtuosismos de guitarra. Essa dificuldade seria solucionada no disco seguinte, "Excalibur", para muitos seu maior êxito fora do CCR, pois Tom recrutou para a guitarra líder Jerry Garcia, do Grateful Dead. "Faces, Places, People", "Sick and Tired" e "Forty Years" são atestados do quilate alcançado por Tom nessa segunda estocada. O álbum ainda trazia no time Merl Saunders, organista ao qual Tom e Jerry haviam caído na estrada meses antes, reunião que forjou preciosas parcerias entre ambos, entre elas um álbum gravado ao vivo.   

Dois anos depois viria "Zephyr National", seu terceiro LP solo, Aproveitando o fim de sua ex-banda, Tom convida Doug Clifford e Stu Cook para a posição de músicos de apoio. Ele se esforça para resgatar o espírito do CCR na faixa "Joyfull Ressurection", celebrada como um dos grandes momentos de sua carreira solo. E há mais: "Mystic Isle Avalon" traz a participação de John Fogerty, que grava sua parte sem encontrar o irmão e os ex-colegas no estúdio (ele gravou sua parte separada), mas aceitou fazer a foto que está na contracapa do LP, único e último registro artístico do quarteto após a dissolução do Creedence. 

No álbum seguinte, "Myopia", Doug e Stu permanecem como músicos de apoio, mas dessa vez John não participa. "What Did I Know" e "Showdown" estão entre os bons momentos, mas aos 33 anos, Tom Fogerty já era um homem cansado. Em comparação ao sucesso alcançado pelo CCR, seus discos solos não causaram o barulho esperado, principalmente pela visão da Fantasy, sua gravadora. Assim , no final de 1974, Tom Fogerty teria o contrato fonográfico rescindido. 

OS ANOS FINAIS DE TOM.

Após quatro anos gravando pela Fantasy, Tom Fogerty montou uma nova banda, a Ruby. O grupo lançou dois álbuns por um pequeno selo californiano (PBR), mas não decolou. O highlight do quarteto foi uma faixa instrumental chamada "B.A.R.T", que se tornou bastante conhecida na Inglaterra como cortina musical de um prograna da rádio inglesa BBC. Após a dissolução do projeto em 1978, só em 1981 Tom gravaria um novo disco. O mediano "Deal It Out" traz um tema que merece nossa atenção: "Champagne Love", parceria de Tom com Doug Clifford. 

Mas após mais um insucesso comercial, o guitarrista se muda com  a esposa para o Arizona e resolve se dedicar ao ramo imobiliário. Com saudade dos velhos tempos, em 1985, ensaia um retorno do Ruby, isso após a reedição de um álbum com canções do grupo. Gravam um videoclipe mal produzido, e novamente a empreitada não vai longe. Em 1988 protagoniza um álbum fraco em parceria com Randy Oda, integrante do Ruby (lançado só em 1992). Em 6 de Setembro de 1990, Tom Fogerty morre, aos 44 anos, vitima de tuberculose e insuficiência respiratória agravadas pelo vírus da AIDS, contraído através de uma transfusão de sangue. 

Como resgate da obra solo de Tom Fogerty, montei uma playlist que traz diversos momentos iluminados de sua carreira solo, o que revela a qualidade de muitas de suas canções (1972-1981). Nas próximas semanas falarei do outro Fogerty, John, e de sua carreira solo, que apesar das expectativas também não obteve o memo sucesso da banda que o tornou uma lenda. 

Salve, Tom! 

Comentários

Postagens mais visitadas