Bebeto Alves Y la Milonga Nova ao vivo em Viena

Bebeto Alves Y la Milonga Nova. Ricardo Baungarten, Luciano Maia, Bebeto, Paulinho Fagundes e Edinho Espindola

Por Márcio Grings

Cada show é único. Por mais que saibamos que o universo muitas vezes revele sua generosidade com alguns de nós e premie um ou outro afortunado com segundas chances, a maioria das vezes isso não acontece. A vida é um sopro e várias experiências não se repetem. Eu queria ser uma das cerca de 300 pessoas que tiveram a oportunidade de assistir a apresentação única de Bebeto Alves e sua banda em julho de 2000 no WUK, em Viena, capital austríaca. O espetáculo, gravado por Paulo Petzold e recentemente masterizado por Marcos Abreu, é um dos grandes achados do ano. 

Leia resenha do show de Mandando Lenha

Divulgação

Antes de falarmos de "Bebeto Alves Y la Milonga Nova ao Vivo em Viena”, julgo ser necessário um breve retrospecto. Em pleno limiar do novo século, Bebeto tinha acabado de gravar um de seus discos mais significativos, trabalho baseado em signos e ritmos tradicionais do Rio Grande do Sul, mas impregnado de sonoridades eletrônicas e de uma plasticidade fora da curva. Envolvido por esse espírito inovador, o músico gaúcho sempre buscou diálogos entre passado e futuro, não sem antes transgredir os fundamentos da nossa música. E esse é um de seus grandes méritos. Na época, com 46 anos, Bebeto Alves estava longe de ser um iniciante, pois já contava com cerca de três décadas de atividade artística e mais de uma dúzia de álbuns no currículo. 

Leia resenha de "Oh Blackbagual pela Última Vez", de Bebeto Alves

Cartaz do evento em Viena. Reprodução
E nessa linha do tempo, o show em Viena captura um artista confiante, disposto a dar o melhor de si, entusiasmado pela oportunidade de mandar bem num palco europeu. Acompanhado por João Vicenti (acordeon), Paulinho Fagundes (guitarra), Ricardo Baungarten (baixo) e Edinho Espíndola (bateria), a apresentação foi o primeiro concerto após o término das gravações de "Bebeto Alves Y la Milonga Nova”, que chegou às lojas algumas semanas após essa noite. "A banda era uma potência movimentada pelo pulso do baixista Ricardo Baugarten, falecido em 2018 (Bebeto dedica essa audição ao músico). "Ainda tínhamos o toque genial do Paulinho Fagundes, a criatividade do João Vicenti no acordeon e a precisa bateria do Edinho. Uma força impressionante", relembrou. Em meio as cores e nuanças do repertório, há o equilíbro entre o sabor dos temas acústicos, incursões pelo rock, permanentes traços de regionalismo, pitadas apimentadas de jazz, fusion, flertes com o reggae e principalmente um cantor de primeira linhagem. "A atuação do Ricardo e a pressão do baixo são molas propulsoras da banda, ele nos impulsionava. Acho que todos sentiamos isso. Não era uma canção, era o som, os solos do Paulinho e a precisão da banda; a Milonga Nova em si, a ideia dela", clonclui. 

Em pleno verão vienense, numa noite agradável de julho, Bebeto começa os trabalhos apenas com seu violão, numa monumental versão de "Em Cima do Laço", de Mauro Moraes. Mas afinal: onde está a sensacional banda que o acompanha, já que o show começa com um solista? Qualquer imagem minimalista é desfeita com "Num Primeiro Dia", quando a tríade baixo, guitarra e bateria se impôe. Até por ali, pois, na linha de frente é um hiperativo acordeon que dá as cartas, com a guitarra surgindo como um coringa no solo. "12 Milonga" é a milonga mais rock and roll já feita 'para se dançar', numa paráfrase com a letra. "Tum Tum Tum" abre espaço para improvisações, com diversas dinâmicas e alternâncias, espaço onde cada instrumentista joga suas poções no caldeirão de ritmos. O reggae "Que Bom" mistura tudo e deliciosamente se mescla ao regionalismo. Em "ÃO", a ambiência e os scats de Bebeto nos levam ao apertume dos clubes de jazz. A poeira baixa em "Chamamecero" e "Milonga do Meu Assado", retratos de um intérprete transcedental e único. Já a releitura de "Vuelvo er Sur", de Pino Solanas e Astor Piazzolla, é um dos recortes mais sublimes do set, quando o intérprete emerge na sua vitoriosa persona fronteiriça. A parte final, com "Rei e Rainha", "Festa dos Caranguejos" e "O Teu Poder", é pura demonstração de um cantor popular de primeira linha. É improvável ficarmos impassíveis nesse grand finale repleto de swing e vibração.   

"Bebeto Alves Y la Milonga Nova ao Vivo em Viena” é um registro histórico, um retrato iluminado de um dos grande nomes da nossa música, merecidamente brilhando num palco europeu. Duas décadas após o registro, Bebeto não esconde a satisfação de ouví-lo: "Eu fiquei surpreso quando conferi essa gravação,  pois me deu a ideia de onde andávamos naquele momento, do quanto estávamos na frente de tudo, fazendo uma musica sulbrasileira moderna, contemporânea, do quanto era sensacional o trabalho. Acredito que desenvolvemos um trabalho pouco reconhecido, mesmo aqui no nosso meio. Uma música grandiosa, que pode ocupar qualquer lugar. Era um prazer imenso tocar com esses músicos. Ouvir isso agora me deu uma certeza: de saber que nossa música era boa demais, e continua sendo". Após a apresentação em Viena, de volta ao Brasil, por compromissos com o Nenhum de Nós, João Vicenti precisou deixar o bando, sendo substituído por Luciano Maia. Com essa formação (veja foto no cabeçário da postagem), a trupe gaúcha seguiu a turnê, com destaque para o show em Buenos Aires.     

Sinceramente, espero que esse instantâneo se materialize num álbum ou no mínimo migre para o player de sua plataforma de streaming favorita. Não hesite, ouça-o imediatamente, não há nada parecido com "Bebeto Alves Y la Milonga Nova ao Vivo em Viena”. Um deleite de apresentação.   

       

Comentários

  1. Maravilhoso texto! Eu também estava no concerto em Buenos Aires e foi muito intenso, com quase cinco minutos de aplauso ao final. Abrazo
    João vicenti

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas