Neil Young "Homegrown" – Ainda perturbador, 45 anos depois.


Divulgação Reprise Records
Já falamos por aqui de "Homegrown", um dos álbuns perdidos de Neil Young nos anos 1970 — leia review. Por intermédio da amiga Cláudia Kunst, um outro camarada, o jornalista Luciano Teles (RJ), envia ao Memorabilia suas reflexões sobre o trabalho lançado no último mês de junho. Segue abaixo as impressões de Telles sobre a obra

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E Neil Young lançou, finalmente, Homegrown. Gravado há 45 anos, entre 1974 e 1975. Belíssimo, apesar de claramente não finalizado, na forma usual. Também não é exatamente unificado. Tocam com ele diversos colaboradores de longa data, alguns novos convidados; com gravações ocorridas em, no mínimo quatro lugares. Todos distantes entre si. Entretanto, uma coisa une as músicas e faz de Homegrown uma massa sonora poderosa: o arrancamento da dor de dentro do coração, pela confusão mental, pelos dias confusos, e a exposição de tudo isso em praça pública, estendido em um grande varal.

Se você tiver memórias afetivas mal resolvidas ou com finais indesejados, Homegrown não será um disco fácil de se escutar. Mas, quem de nós nunca ligou um trauma ou uma perda a uma música? A questão é que, no nosso caso, podemos, literalmente, mudar o disco. Para Neil, música é sua vida. E ele tem de administrar isso. Com cobranças de si mesmo, dos fãs e do mercado em si.

Não é incomum artistas darem novos significados a suas obras, se estiverem ligadas a memórias com as quais seja difícil de se lidar. John Fogerty fez isso com “Have You Ever Seen The Rain”, inspirada na saída de seu irmão, Tom, do Creedence Clearwater Revival, que o tinha convidado a entrar na banda. 

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Homegrown é uma confissão. Nele, Young joga toda sua péssima situação de então. Vivia um divórcio, da atriz Carrie Snodgress, mãe de seu filho Zeke. E acabara de sair da “The Doom Tour” (o nome diz tudo), com o CSN&Y, em 1974. Tocaram em 30 datas, no verão daquele ano – mais o show de Setembro, em Wembley, lançado em 2014. No meio da tour, Cass Elliot (Mama Cass, dos Mamas and Papas) morre, em Londres. Ela fora importante para o grupo, tendo apresentado Stills a Nash, por exemplo. Nos EUA, enquanto a trupe viajava de avião, Neil se deslocava de carro.

Na gaveta, pronto, Tonight´s The Night. Disco candidato a substituto do sucesso de Harvest, de 1972. Mas a gravadora temia lançar um álbum para lá de depressivo, no qual eram refletidas as perdas de dois grandes amigos: Danny Whitten, guitarrista do Crazy Horse, e Bruce Berry, rodie. Time Fades Away, de 1973, reunia material gravado ao vivo. Foi lançado, então, On The Beach, naquele mesmo verão de 1974. Como diz o título da primeira faixa, Walk On...

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Bem ao seu estilo, Neil Young reuniu alguns amigos, Ben Keith (steel guitar, lap slide guitar, dobro, piano strings e vocais), Tim Drummond (baixo), Kart T. Himmel (bateria), Sandy Mazeo e Emmylou Harris (backing vocals), Stan Szelest (Wurlitzer), Robbie Robertson e Levon Helm (ambos da The Band – que abriu para o CSN&Y, em Wembley). E chamou Elliot Mazer para o auxiliar na produção. As gravações tomaram lugar em diversos locais, em datas esparsas, distribuídas entre Junho, Setembro e Dezembro, de 1974, e Janeiro de 1975.

Depois de gravado, convidou os músicos e outros amigos para a audição dos dois discos: Tonight´s e Homegrown. O local, o Chateau Marmont, hotel de Los Angeles. O choque com o tom altamente pessoal de Homegrown fez Neil Young abandonar o projeto e optar por Tonight´s The Night.

Não. Homegrown não é um disco com o qual você possa tentar iniciar alguém na música de Neil Young. É por demais pessoal, deveras incompleto, como produto... mas longe de ser uma colcha de retalhos. Porque as letras trazem unidade temática, mesmo em meio a estilos bem diferentes das músicas, entre si. Mostra o artista reflexivo sobre o mundo de seus dias e perdas pessoais. 

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Perdas permeiam Homegrown. Quase todas as letras mostram a dor do citado divórcio. Tem Florida – faixa narrada, com ele e Ben Keith. Outras nem fim têm, como We Don´t Smoke It No More e White Line. Logo na primeira frase do disco, a bela e lindamente arrastada Separate Ways, ele diz que não vai se desculpar, com o restante da letra dizendo que foi bom, mas que é cada um para seu canto, com ambos cuidando do filho – Zeke. Mais pessoal, impossível. 

Em Try, uma última tentativa de dizer que ainda há tempo para buscar algo em algum lugar, de algum jeito. Mas o tom de “sim, é possível, só que não” prevalece. Triste. Mexico traz uma daquelas simples, porém improváveis sequências de acordes, ao piano, tão do jeito que só Neil Young sabe fazer. Mas a letra entrega que o fim chegou para ficar: “Oh, the feeling´s gone”. Definitivo. Love Is A Rose (“You lose your love / When you say the word mine”) vai pelo mesmo caminho. Ressentimento. 

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Em Kansas, diz que era bom ter alguém acordando ao seu lado, ainda que não se lembrasse do nome. Foi uma noite. E só. We Don´t Smoke It No More e Homegrown falam de uso, ou abandono, de “substâncias”, de acordo com o site Songfacts e o biógrafo de Neil, Johnny Rogan. Vacancy traz o clima elétrico de volta. Particularmente, me lembra Buffalo Springfield. Pergunta quem é a outra pessoa, sem máscaras. Sintomático. Star of Bethlehem finaliza o disco. Pesada. Pergunta das boas lembranças, que ficaram no passado. Que há ainda uma luz, mas é a lâmpada do final do corredor. Emblematicamente, termina com a frase “Maybe the star of Bethlehem wasn't a star at all”. 

E vem White Line. Incluída no magnífico Ragged Glory, cuja versão sempre me chamou a atenção por duas coisas: Uma, a forma como termina. Meio que do nada. Algo, na minha visão, próximo da sensação de não se ter mais nada a dizer, como se não houvesse mais argumentos: “Ok, acabou, basta. Cansei e está foda falar”.  Foi quando prestei atenção na letra. E estes versos (como a letra toda) se tornaram a segunda coisa que mais me despertou a atenção na música: “I came to you / When I needed a rest / You took my love / And put it to the test...” Precisa dizer mais?

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Ainda sobre White Line, gostaria que alguém me explicasse como que Neil consegue pegar uma música lenta, com peso de letra e lamento, quase que puxada por um trator, e consegue fazer dela uma canção quase que feliz, 15 anos depois? É o que me veio à cabeça, comparando suas duas versões, de Homegrown e Ragged Glory. Neste último, sem a letra, a melodia passa a impressão de se cantar sobre algo bem feliz, satisfeito da vida. Mais um dos contrastes da genialidade de Percival.

Há dados a serem destacados: cinco das 12 músicas de Homegrown vieram à tona em outros discos. Love Is A Rose saiu, primeiro, com Linda Ronstadt, em seu álbum Prisioner in Disguise, de 1975. Na discografia de Percival, é encontrada também nos discos Decade (1977) e Songs for Judy (2018). Homegrown, a música, saiu no American Stars ´N Bars, de 1977, junto com Star of Bethlehem – esta, também no Decade. White Line está em Ragged Glory (1990) e Songs for Judy. Além de em Homegrown, Little Wing também foi lançada em Hawks & Doves. 

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De curiosidade, verifiquei quantas vezes cada música foi (se foi) tocada ao vivo, no completíssimo site Sugar Mountain (sugarmtn.org). Algumas surpresas surgiram, sugerindo que o tempo atuou bem, na forma que dele se espera. A tão dolorosa Separate Ways foi tocada nada menos do que 41 vezes! A primeira, entretanto, se deu somente em 1993, 19 anos após sua gravação. Foi executada pela última vez em 2014. Try foi ouvida ao vivo por 20 vezes, mas somente entre 2007 e 2008. No mesmo período, Mexico subiu ao palco, mas em apenas quatro shows.

Entre 1974 e 2018, Love Is A Rose (já na turnê com o CSN&Y), foi ouvida ao vivo por 87 vezes. De 1975 a 2020, Homegrown foi executada 91 vezes. Neil Young tocou Kansas em oito shows, tendo sido a primeira somente 1999 e, a última, em 2008. Surpreendentemente, ou não, White Line só viu o público ao vivo em nove concertos, desde 1975 até 2019. Por sete vezes Little Wing foi tocada, entre 1977 e 2020 (considerando-se esta última já dentro do período de pandemia, ou seja, com Neil Young e Daryl Hannah em casa, via Fire Side Sessions – Porch Edition). Finalmente, Star of Bethlehem não foi tocada em shows solos por Neil Young. Por três vezes, dentro da Doom Tour, CSN&Y a tocaram. Ou seja, somente no ano de 1974. 

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Me fiz algumas perguntas, depois de ouvir (talvez pela última e dolorosa vez) Homegrown. Por que, dentre tantos outros arquivos, já conhecidos entre colecionadores de bootlegs, liberar um tão doloroso? Bem, reconheço que suas gravações e histórias são lendárias; e era meio que uma dívida para com seu público. Dentro de seu processo de lançar o máximo possível de suas gravações, seria lógico a liberação desses takes. E, novamente, sim: Posso estar tomando essas músicas de forma muito pessoal, por perdas e traumas recentes, enquanto Neil já se vê curado pelo tempo e outros fatores. 

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Luciano Teles é Jornalista, cirurgião-dentista e músico sub-amador. Toca razoavelmente mal. Dois acordes. No terceiro, já é abandonado pelo cachorro.

Teles agradece à Cláudia Kunst pelo convite para escrever sobre Homegrown. E a Márcio Grings (Memorabilia) pela concessão do nobre espaço para publicação  — "A amizade com eles, ainda que virtual, vem desde tempos orkutianos e são das boas pessoas com quem tive a sorte de manter contato, desde então", nos diz o colaborador.  

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