Review: Ken Parker — “Até onde vai o amanhecer”


Arte de Ivo Milazzo que ilustra a capa de "Até onde vai oa amanhecer" 
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Por Márcio Grings

Após um longo tempo fora, sempre é revigorante voltar para casa. 1908, depois de duas décadas confinado numa prisão, atravessando a passagem do novo século atrás das grades, seria esse o sentimento de Ken Parker ao cavalgar cabisbaixo e pensativo sob o céu de Montana? Assim como nos diz Steve Judd (Joel McCrea) em “Pistoleiro do Entardecer” (1962) —  “Tudo que quero é uma boa razão para voltar para casa”. Mas por qual razão? Certamente, ele ainda lembra do Montana da sua juventude, mas provavelmente não sabe se alguém ainda o espera. Afinal, por onde andaria Teddy, seu filho? Casa! — Que casa? Imagine um homem acostumado a descansar o corpo usando as amplas planícies como estrado e as estrelas como teto? Vinte anos antes, assim vivia Ken. Por outro lado, do mesmo modo que Rooster (John Wayne/Jeff Bridges) em “Bravura Indômita” (1969) ou Will Munny (Clint Eastwood) em “Os Imperdoáveis” (1992), Ken Parker surge sexagenário e aparentemente exausto nas páginas iniciais de “Até onde vai o amanhecer” (CLUQ/2019), derradeira publicação do anti-herói western após 40 anos de circulação pelas bancas e livrarias do país. Compre pelo e-mail cluq@terra.com.br

Arte: Ivo Millazzo

Saiba mais sobre Ken Parker 
Ouça a trilha sonora das aventuras de KP

O que vemos logo no início de “Até onde vai o amanhecer” é que o personagem criado por Giancarlo Beradi (argumento/roteiro) e Ivo Milazzo (desenhos) parece ter perdido a energia dos velhos tempos — olhar abatido, rosto envelhecido, uma queixa de dores crônicas nas costas, e o pior — agora ele aparenta um estado de imobilidade frente às injustiças. Condenado por matar um homem em Boston, uma autoridade policial que disparara sua arma de fogo contra uma multidão de manifestantes repleta de mulheres e crianças (episódio 57, "Greve"), finalmente Ken está liberto, graças a um perdão presidencial. Coincidentemente, encontra alguns de seus ex-companheiros de prisão e se junta a eles, mesmo sabendo que Wendell, Curt, Jason e Ralph mataram um homem e sequestraram sua esposa e filha. E afinal, que Ken Parker é esse? 

“o que é mais violento que as peças de William Shakespeare? E quanto à Ópera?” Arte: Ivo Milazzo 
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Aos 63 anos, doente, o vemos ainda impassível durante contínuos estupros das reféns, e para nossa surpresa se torna cúmplice de um assalto onde várias pessoas são mortas. Consternados, seguimos adiante buscando entendimento nas suas falas, pois segundo ele, tanto tempo atrás das grades pode mudar os homens, e assim há algo que "torna-os frágeis e desumanos ao mesmo tempo". Testemunhar essa resignação fragiliza nossa admiração pelo personagem. Sincrônica a narrativa principal, há flashbacks do tempo em que ele estava na prisão, um reflexivo conto de natal. E eis que  percebemos que apesar da degradação física, pelo menos seu coração continua intacto — the song remains the same, viva! — pois começamos a deduzir que ele apenas se junta aos criminosos no intuito de salvar aquelas pobres mulheres. A tensão sobe, e no andar da carruagem um embate mortal torna-se iminente.  

Arte: Ivo Milazzo
Em conclusão — “o que é mais violento que as peças de William Shakespeare? E quanto à Ópera?”, nos relembra Sam Pechinpah numa entrevista à revista Playboy em 1972. Ao final, num verdadeiro balé de brutalidade, Ken extingue qualquer dúvida sobre sua atual carta de intenções. E assim como Sonny Steele (Robert Redford) nos intantes finais de “O Cavaleiro Elétrico” (1979), vencedor e vencido caminham juntos num só corpo. Não há nada que possa ser comemorado. Apenas a poesia pode nortear nossa consternação — “Traga-me o pôr-do-sol em uma xícara / Conte os frascos da manhã / Diga quanto orvalho os enche / Diga-me até onde vai o amanhecer.” O poema de Emily Dickinson, a grande reclusa da literatura norte-americana da segunda metade do século XIX, não apenas consagra a despedida de Ken Parker do mundo dos quadrinhos, o Salmo de Emily também emerge como uma reconfortante oração a coroar nossa epifania.   

Após a leitura de “Até onde vai o amanhecer” sou tomado por um inevitável desconforto,  um nó na garganta, sentimento semelhante — já sentido — ao assistir certos filmes com final em aberto, estranha sensação que nos consome por dentro. Preciso relembrar que apesar de tantas alegrias e diversão, essa não é a primeira vez que Berardi/Milazzo promovem profundas tristezas no leitor, deflagrando nossa comoção pela indesejada impotência frente às injustiças das circunstâncias. De todo o modo, Ken bravamente nunca se omitiu de lutar contra elas, abrindo nossos olhos para a importância do humanismo e da justiça social.

Em sua vida, Kenneth Parker ganhou muitas batalhas, perdeu algumas — demasiadamente humano e autêntico, como qualquer um de nós deve ser.    

Goodbye, my friend! 

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