Review: Luiz Martins "Canto e Lugar" (2020)

Obra "Aconchego" (óleo/tela 80x100), arte do artista plástico santa-mariense Flamarion Trevisan, imagem escolhida para a capa do álbum  
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Review Márcio Grings

Conheci Luiz Martins antes que ele me conhecesse. Um homem e seu violão, músico de bar, quase sempre com a esposa e companheira artística, a cantora Isa Martins. Outra vezes pude vê-lo ao vivo como integrante da Crysallida, com 'Lebrão' soltando a mão no baixo. Morávamos na mesma cidade, eu, apenas um rosto anônimo na plateia, curioso pelos trânsitos jazzísticos, um garoto descobrindo o rock e por hora ainda insensível pela MPB. No entanto, quanto mais o ouvia, mais gostava. 

Com o passar do tempo, acabei conhecendo-o melhor, principalmente na época em que fui gerente de uma loja de discos. Um homem inteligente, divertido, contador de histórias, sempre disposto a aprender ou repassar seus ensinamentos. Anos depois, trabalhei com suas filhas, Cacá, numa rádio, e Pâmela, numa locadora de vídeo. Nos tornamos amigos, ao ponto de eu conhecer muitas das canções de Luiz, várias delas, inclusive, pude ouvir num formato ainda embrionário, com ele tocando de bermudas na cozinha de sua casa, explicando como nasceram os temas e telegrafando acordes, isso enquanto tomávamos café.

Foto: Facebook Luiz Martins
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Nascido em Júlio de Castilhos (RS), Luiz se mudou para Santa Maria (RS) em 1972. Formado em Arquivologia, foi funcionário da UFSM por quase três décadas. Há 10 anos, ele e a esposa, se mudaram para a capital catarinense, sem abandonar a atividade musical, algo indivisível de suas vidas. E, apesar de ter participado de inúmeras gravações, projetos e produções, finalmente, aos 65 anos, Luiz Martins lança seu tão esperado debute solo. "Canto e Lugar" foi gravado por Zé Godoy entre setembro e outubro de 2018 (Carbono Sound), com arranjos e produção de Bruno Tessele, seu genro, que também é o baterista do álbum. A Mixagem ganha a assinatura de Rovilson Pascoal, com masterização de Ricardo Prado no estúdio “Canto da Coruja”, em Piracaia (SP).

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Foto: Facebook Luiz Martins
Esse conjunto de canções apresenta uma colcha de retalhos costurada pelas mãos cuidadosas de Luiz Martins. Um trabalho emotivo, com as cores do saudosismo, a começar pela faixa título, uma espécie de retorno ao espírito da MPB dos anos 1970, talvez pela escolha do Fender Rhodes de Edson Santanna. Já a milonga /jazzy "Manhã de Frio" (uma das mais bonitas do disco), conta com participação de Gustavo Assis Brasil (violão) - "Uma manhã de frio / A casa, um céu nublado / A charla enfumaçada e o verso congelado / E uma voz de mãe chamando pra almoçar". Poucos conseguem soar fidedignos nessa frequência aparentemente distinta - jazz e regional, mas tão próxima e legítima. 

Em "Bolicho" (Beto Salles), a guitarra de Michel Leme parece insinuar um breve flerte com o blues, porém a letra continua a percorrer o território regionalista, com a interpretação de Luiz aludindo uma intenção mais urbana. Contudo, como marca de quem nunca refuta suas raízes, a voz do cantor enfatiza a vogal E na termição das frases - ele canta- vaidadE / saudadE. Inevitável a lembrança dos discos em que Bebeto Alves interpretou a obra de Mauro Moraes.

O flugelhorn de Bruno Belasco em "Sinônimo Perfeito" segue na tonalidade do jazz. Logo no início, Luiz canta sussurrado, cuidadoso na inflexão da voz, tipo Chet Baker, enquanto a bateria de Tessele tique-taqueia baixinho com as vassouras metodicamente varrendo as peles, pétalas de piano preenchendo espaços vazios, numa música onde a ausência também desenha o cenário. Na mesma paleta de cores, "Columbá" nos mantém ligados nas teclas e bateria, quebrando tudo sem bagunçar a ambiência. Em "Boi", o ritmo do bombo leguero novamente nos conduz até a herança ancestral do interior do Brasil, mesmo que por outro viés o baixo old school de Bruno Migotto e a guitarra de Michel Leme propaguem uma novo cruzamento jazzístico. Essas dualidades são marcas permanentes em "Canto e Lugar", para Luiz não existem linhas divisórias entre um gênero e outro, nada se detém apenas ao 'quadrado' original. 

Luiz e Bruno Tessele, baterista e produtor do CD. 
Como se estivéssemos nos aquecendo próximo a um fogão a lenha, ouvindo um programa matinal num rádio de pilha, essa viagem de volta no tempo se amplifica em "Definição dos Dedos""Cerrito" e "Mano", breves vinhetas com participação do acordeonista Engrácio Neto (irmão de Luiz). Essa ludicidade, uma espécie de sonho implícito dentro do álbum, emerge como um antigo cancioneiro entoando o abecedário musical gaúcho.

Emulando uma chanson bairrista, em "Trilhos", outro instante iluminado do álbum, Isa Martins brilha com sua voz translúcida, com destaque para as intervenções do acordeom de Thadeu Romano. Faixas como "Guria", "Paisagem" e "Limão Verde" revelam um compositor maduro, em arranjos a evidenciar afluências com o melhor da MPB dos anos 1970/80, uma das principais escolas do compositor.

Já que o leitor ainda não pode ouvir o álbum, com lançamento agendado para início de 2020, na última faixa do CD, a milonga galopeada "Noite", a poesia de Luiz Martins poderia proclamar sua independência e sobreviver livre em qualquer livro de histórias. Imagine esse trecho como ilustração - "A noite abre o ponche e tapa o céu / Escondendo as Três Marias embaixo do seu chapéu". Jazz, milonga, MPB, poesia... "Canto e Lugar" revela um compositor maduro, um veterano com voz de menino, ciente de seu lugar como artista, justificando uma estreia que nos custou anos de espera, uma delonga que parece ter pressentido o momento exato para ganhar vida. Nada como o tempo, se antes torcia o nariz para toda essa proficuidade musical, hoje percebo a profundidade de suas músicas, perpetrando em "Canto e Lugar" uma obra genuína, fronteiriça em sua intenção, digna do melhor da música brasileira feita em nosso tempo.

Relembro aqui "Nossa História" (2015), minidoc que repassa trechos da história do casal Isa e Luiz Martins. É possível ouvir "Columbá" e "Sinônimo Perfeito" (na voz de Isa), músicas de Luiz que figuram no tracklist de"Canto e Lugar" (na sua voz). 
   

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