Review: Bruno Tessele "Adelante"

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No mundo de hoje, quando parece que praticamente tudo já foi experimentado e alquebrado em cópias baratas, centenas de reprises desbotadas ou decalques sem graça, poucas vezes nos sentimos arrebatados por uma nova peça artística. Falo isso independentemente do processo em que alguém tente invariavelmente esculpir o invisível. Fazer arte ou trabalhar com cultura, é acima de tudo uma escolha de vida, uma forma de decretarmos angústias permanentes, mas também uma maneira de celebrarmos realizações inimagináveis. Esse sentimento de que tudo já foi escrito, musicado, esculpido, desenhado... É uma merda, e de certa forma nos tira a esperança. E daí, de repente, recebemos um CD pelo correio, colocamos ele pra tocar no player, e então... Eis que a mágica acontece. 

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"Adelante" (2018), CD de estreia do músico gaúcho Bruno Tessele, não é apenas mais um álbum a fazer volume nas prateleiras. Na minha estante, por exemplo, o título já figura ao lado dos grandões do gênero. Estou falando de jazz, uma música nascida norte-americana de raiz, miscigenada a genialidade dos afro-americanos, embebida na tradição do blues e multiplicada pelos quatro cantos do mundo. Inclusive no Brasil. Tessele, que há vários anos fixou residência na Capital paulista, surgiu na cena santa-mariense do início da década de 2000. Na época, advindo do Curso de Música da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ao circular pelos bares locais com bandas e projetos, em pouco tempo passou a figurar entre as grandes promessas da Região Central do RS. Um talento que não apenas vingou como baterista, tornando-se um artista que pensa além de um par de baquetas, pois suas visões musicais podem ser percebidas pela diversidade das oito faixas que compôs. 

Arquivo pessoal
"Adelante" foi gravado ao vivo, uma tentativa de recompor o clima de uma banda tocando olho no olho, uma diligência pelo passado e pelo modus operandi em que vários de seus ídolos registraram clássicos. Já na faixa 1, somos içados a relembrar a tradição do jazz feito em décadas anteriores, mais propriamente o período em que Miles Davis triunfava com "Bitches Brew" (1970), gênese do fusion. Isso porque "Johnny is dark", faixa de abertura de "Adelante" (no formato digital ela é a terceira), nos joga no clima nova-iorquino dos filmes policias do início dos anos 1970, climática dos conflitos raciais e da efervescência de um dos períodos mais prolíficos do orgulho negro mundial. Na minha cabeça, esse déjà vu é deflagado pelo flugelhorn, som que percute a lembrança de Angela Davis, o ativismo de Malcolm X, a tensão permanente proporcionada pelos Panteras Negras e de todo o legado dessas personalidades. Resquícios desse tensionamento e hiperatividade black power, também estão em "Huh". Com destaque para Michel Leme (guitarra), e os instantâneos de Tessele no seu instrumento, além do naipe de sopros de Bruno Belasco (trompete) e Lucas Macedo (sax tenor).

Arquivo pessoal
"Joelho de aço (troço #2)" nos leva de volta ao clima low-profile do jazz introspetivo, do minimalismo bluesy de uma guitarra desplugada de excessos e aditivos, trucagens que disfarçam a sua pureza. Outro detalhe é que a alternância e o constante diálogo entre os instrumentos de sopro, proporcionam um pano de fundo que certamente poderia ser a trilha sonora para Jack Kerouac datilografar um novo original. Sim, agora eu retorno aos anos 1950 e toda uma ambiência onde o jazz era produto habitual nas rádios, casas de espetáculo e toca-discos. "Adelante" é um trabalho que nos puxa de volta a uma das épocas de ouro do gênero.  

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"Anja", dedicada a sua esposa, coloca o pé nas raízes da música brasileira, um bocado samba, um pouco gafieira, selo de qualidade de um som made in Brazil. "Adelante" e "Soturno" percorrem as melhores trilhas da casta musical americana, ao modelo do som feito nas décadas de 1950/60, onde rompantes de solos e alternâncias de ritmo nem de longe refletem o desejo egocêntrico de uma atuação performática, apenas no intuito de impressionar o ouvinte. Pelo contrário, o lado melódico sempre é preservado. E dentro dessa concepção, por exemplo, quando o solo de Bruno Migotto (baixo) acena, em instantes desaparece. Tudo na medida certa.

Um sentimento de excesso provavelmente assombre apenas um tema - "Mr. Chinaski" (falando em excesso, alô Charles Bukowski!). Mesmo assim, quando imaginamos que o trem irá descarrilar, encontramos logo adiante um dos melhores momentos de Tessele no álbum. E ao final de tudo, "Milonga do adeus", um título que rememora o espólio platino de onde o protagonista advém (sua terra natal é Alegrete, cidade próxima as fronteiras do Uruguai e Argentina), o arremate se desenrola aos poucos, sem pressa. Assim como a milonga é um ritmo incorporado ao ideário musical do Sul do Brasil, Tessele visiona uma milonga onde o jazz lutuoso nos assombra com sua tristeza lúgubre, árida e bela. Esse conjunto de canções está intrincado num território fértil, um álbum em que o talento do protagonista, mais a somatória de seus sideman, nos revela uma nova geração de músicos que encontrou seu lugar ao sol em "Adelante".

Falando da produção nacional do gênero, um dos melhores discos de jazz que ouvi nos últimos anos (☆☆☆☆☆) Merece URGENTEMENTE ser lançado em VINIL.

Ouça "Adelante" na íntegra.
                   

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