Zuli - Concha Acústica - Parque Itaimbé (Santa Maria - RS), 24 de Março de 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena

Preciso começar esse texto na primeira pessoa do singular. Isso por quê, posso viver 100 anos, mas certamente quando me perguntarem 'qual foi uma das minhas maiores frustrações na produção artística' - a resposta certamente será: o fracasso pessoal em captar recursos para o projeto da gravação do CD de "Apesar Desse Mundo", de Adriano Zuli. Mediante um cenário em que todas as portas se fecharam, o projeto 046/2018 da Lic Municipal não saiu do papel. Zero recursos contabilizados. A sensação de naufragar nunca é fácil de ser assimilada. Mesmo assim, logo após o comunicado de que não conseguiríamos viabilizar seu CD de estreia, é preciso dizer - Zuli encarou a negativa como extrema maturidade. Não houve nenhuma caça às bruxas. Ele simplesmente foi a luta. Viabilizou o trabalho com recursos próprios e encontrou apoio em algumas empresas e amigos. No entanto, como capitão de um barco que ficou a deriva, no timão da produção executiva do projeto, perdi muitas noites de sono e ainda estou assimilando essa derrocada particular. Assim é a vida, perdas e ganhos. E quando perdemos, também aprendemos algo precioso. 


Foto: Pablito Diego
Já no caso de Adriano Zuli, não houve perda alguma, pelo contrário, ele encontrou a consagração no resultado final de sua visão, na certeza em virar o jogo e realizar um sonho. Levantou a cabeça e seguiu em frente. E sem culpar ninguém! A palavra elegância surge como carimbo desse comportamento. E quando nos deparamos com o resultado final de "Apesar Desse Mundo", estamos falando de um trabalho MAIÚSCULO, um álbum que certamente pode figurar na lista dos melhores discos brasileiros de 2019. Assistir ao lançamento do CD na Concha Acústica do Parque Itaimbé, no mais bonito e agradável dos finais de semana deste pródigo mês de março, encheu de esperança e alegria o coração de todos nós santa-marienses. 'Apesar desse mundo' estar  repleto de decepções, ainda há esperança. A arte sempre nos salva, e salvou nosso domingo, num evento que ocupou um dos locais mais bacanas de Santa Maria, realçando a intenção de Zuli em lançar o disco num espaço público, em show gratuito.  

Foto: Pablito Diego
Há exatos 4 anos, em 24 de março de 2015, Zuli, eu e mais alguns amigos assistíamos juntos ao show de Jack White no Pepsi Stage em Porto Alegre. "Eu vejo o palco como um campo de batalha", disse Zuli ao ver o ex-White Stripes emaranhado em todos os cabos possíveis frente as suas travessuras naquela noite inesquecível. É assim que o músico certamente enxerga sua performance. A palavra 'artista' é adequada para carimbar a persona de Zuli, um autêntico soldado a serviço do espetáculo, com o palco sendo utilizado como seu tabuleiro de xadrez. Na posição de protagonista, Zuli pode lembrar a hiperatividade de Alceu Valença, o senso irônico de Arnaldo Baptista em seus melhores momentos, mas principalmente acaba por ser ele mesmo. Há uma originalidade muito forte e impressionante no reflexo de sua representação artística. No rosto, uma tarja preta pintada nos olhos, recado visual de um 'bom bandido' a evidenciar o quanto o espírito transgressor jamais pode  evanescer.

Foto: Pablito Diego
Ao seu lado, Rodrigo Cassuli (baixo) e Bruno Sesti (bateria), dois músicos que se entregam de corpo e alma ao projeto. A escolha pelo piano/teclado (e vários efeitos) como linha de frente tornam esse conjunto de canções especial, principalmente pelo contrassenso em deletar a guitarra de grande parte dos arranjos. Igual Elton John no Troubador em 1969, no mesmo formato piano-baixo-bateria, promovendo o renascimento do piano man rumo ao protagonista pop. As exceções no show são "Roupa Suja Se Lava em Casa" e "Branco", essa última fora do álbum e um dos grandes momentos do espetáculo. Exceção porque a guitarra de Paulo Noronha colore a trinca sonora habitual. O público delira, Noronha é um músico que está no coração dos santa-marienses.

Foto: Pablito Diego
Ainda fora do tracklist do álbum, "O Poeta" e a faixa título também rascunham recortes iluminados na apresentação, sendo que "Apesar Desse Mundo" - música que batiza o trabalho, inexplicavelmente foi preterida da versão final. Trata-se de uma peça que revela o talento de Zuli como pianista e arranjador, com direito a lembrança do suingue de algumas levadas de Dr. John, mestre das teclas ao estilo New Orleans. Zuli é um caldeirão de influências - seu toque tem a marca da MPB, do blues, é rock'n'roll e muito mais!  

Foto: Pablito Diego 
No entanto, o mais impressionante de assistir ao show de "Apesar Desse Mundo" é justamente o quanto algumas canções crescem absurdamente ao vivo, como no caso de "Simple As A Tree", "O Que Há" e o blues arrasa-quarteirão "Único Blues". E ao meu ver, "Delicadeza" e "Going to Colombia" estão um nível acima de grande parte daquilo que estamos acostumados em ouvir por aí.

Veja o álbum de fotos de Pablito Diego (Há Cena)

Uma tarde para guardar na lembrança. Presenciamos o nascimento de um artista solo ao qual iremos lembrar por muitos anos. Agora falo evocando a terceira pessoa do singular - Ele, Adriano Zuli e seu "Apesar Desse Mundo", ainda vão dar o que falar. Logo ali...        

Ouça o álbum na íntegra.
 

Confira o setlist:

Foto: Márcio Grings

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