Gabriel Braga Nunes/O Amador - Theatro Treze de Maio/Santa Maria, 16 de Setembro de 2018

Foto: Ariel Farias
Por Márcio Grings Fotos Ariel FariasPablito Martins (Há Cena Cultural)

William Shakespeare é considerado o poeta nacional da Inglaterra. Escreveu um vasto material que possui indiscutível influência na dramaturgia feita pelos quatro cantos do Planeta. Nada mais justo, há proficiência em toda a gama de emoções e conflitos humanos descritos em sua obra, comuns a qualquer urbe ou nacionalidade. É impressionante imaginar que há mais de 400 anos grande parte de suas peças continua sendo encenada em inúmeras aldeias, cidades e metrópoles, ainda se utilizando do teatro como principal plataforma de contínua recriação desse legado artístico. Dentro de um espectro de centenas de anos, mais recentemente no Século XX, através de incontáveis adaptações o cinema também se rendeu ao poeta, compactuando com a perpetuação desses escritos e visões. Porém, em pleno limiar no Século XXI, quem imaginaria que o rock também faria parte da seara shakespeariana?

Foto: Pablito Martins
De todos as peças, monólogos, dramas, comédias, tragédias e breves apanhados filosóficos do seu pensamento escrito, nada o expôs tanto quanto o conjunto de 154 poemas publicados em 1609. Numa referência ao Prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan, é como se os Sonetos de Shakespeare fossem o seu "Blood on the tracks", pois assim como em Dylan, é nesse recorte que reside a tela mais confessional de Shakespeare. É quando fica exposto um EU autêntico do bardo inglês, principalmente em referência ao amor, a beleza, política e mortalidade. E depois de Passo Fundo, no sábado (15), Santa Maria recebeu neste domingo (16) Gabriel Braga Nunes, artista responsável por verter sonetos de William Shakespeare para o vernáculo do rock'n'roll.

Leia Review da apresentação em Passo Fundo

Foto: Pablito Martins
Depois de aquecer as turbinas em Passo Fundo, o show d'O Amador em Santa Maria voa alto, revelando uma banda mais segura, solta no palco. Gabriel é o centro desse crescimento, a versão mais sisuda e concentrada do evento anterior, dá lugar a um semblante iluminado do protagonista. E não falo apenas da bela luz desenhada por Luiz Vieira, Gabriel brilha como homem do rock. E por que não sorrir em grande parte das músicas? Ele chegou a ter um breve acesso de risos enquanto cantava "Soneto 15", revelando o quão a vontade estava. Os sonetos são cantados em inglês, mas em três momentos, através de preâmbulos com traduções, o som do nosso idioma retumba pelo Treze. Os Sonetos "23" e "27" com tradução livre do próprio Gabriel, e o "Soneto 76", com versão de Geraldo Carneiro. Esse também é um recorte em que a eficiência dramatúrgica d'O Amador bate o ponto. Não, não é um monólogo de um ator. Ele declama o texto, quase que cantando, entrecortando as falas com a batida seca da paletada ou ao dedilhar das cordas de sua Gibson SG.

Foto: Pablito Martins
A quadratura de um grupo musical ganha lastro na cozinha de Lucas Hoffman (baixo e voz de apoio) e Fernando Oliveira (bateria). Leo Mayer (guitarra), que além de menino prodígio no instrumento que simboliza o rock, é também produtor musical do projeto, funciona como eixo central na estrutura do grupo. No entanto, não pense que apenas Mayer brilha na guitarra, ele e Braga Nunes também alternam posições. Afora o papel de mentor intelectual e criador dos riffs d'O Amador, quanto aos solos de guitarra, três músicas tem a digital de Gabriel. Entre os destaques da noite, uma dos notáveis instantâneos do projeto pode ser compactado no alto astral do "Soneto 15", além do fantástico tingimento blues em "Soneto 51", num acabamento admirável entre adaptação letra/melodia. E diferente de Passo Fundo, no bis, outra canção ganha première em Santa Maria - "Soneto 73", dueto intimista entre Gabriel e Mayer (que toca baixo). Em uma hora de espetáculo, o projeto sai do Treze aclamado como um dos grandes eventos musicais do ano que passaram pela cidade. 

Foto: Ariel Farias
Após esses dois shows no RS, certamente podemos afirmar que O Amador tem todos os pré-requisitos para circular com sucesso pelo Brasil, e por que não, até mesmo num tour fora daqui. Além da curva convencional do gênero, Gabriel Braga Nunes e banda deixam conosco a certeza de que o rock ainda pode produzir bom conteúdo e originalidade. Numa época em que quase ninguém ousa, Gabriel salta fora da dramaturgia, onde já está consagrado, para abrir alas no cenário musical, espaço que ainda precisará desbravar e receber reconhecimento. E essa láurea certamente virá. Em primeiro lugar, basta descolar sua imagem de ator com o homem da música que assistimo aqui no Estado. Sorte nossa que acompanhou a tudo isso de tão perto. Agora, tudo certo, graças a Gabriel, a palavra quente de Shakespeare está novamente circulando na pauta! Que o restante do país desfrute daquilo que já conhecemos tão bem.

Reprodução
O Amador em Santa Maria foi um oferecimento de Radiadores Schiavini, Vitor Hugo Automóveis e Rodoauto Pneus. Apoio Plataforma 85, Pastelão, Restaurante Arroz & Feijão, Dermapelle e Blog de Todas. Equipe captação / Filmagem: Aléx Cáceres e Roberto Borges; Fotos: Mauro Castanho, Pablito Martins, Ariel Farias e Ricardo Gomes;  Roadie: Rodrigo Cezimbra. Técnico de som: Leo Mayer com Pylla Kroth; Equipe Theatro: Beto Bastos (técnica de palco), Luiz Vieira (Luz) e Guingo Freire (operação de áudio); Divulgação e estratégias: Pablito Martins (Há Cena Cultural); Camarim e assistência de produção: Camila Gonçalves (Grings Tours); Direção geral e produção executiva: Márcio Grings (Grings - Tours, Produções e Eventos). 

Foto: Ariel Farias



Foto: Pablito Martins
Foto: Pablito Martins
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego 
Foto: Pablito Martins
Foto: Pablito Martins
Foto: Pablito Martins
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