Gabriel Braga Nunes/O Amador - Teatro do Sesc/Passo Fundo, 15 de Setembro de 2018

Fotos Márcio Grings Fotos Ariel Farias

Qualquer première é um desafio. Artisticamente, reptos de estreia já possuem um exercício prático de promover arrepios na espinha. Já o desafio de se reinventar, desconectar-se de uma persona artística reconhecida, aceita dentro de um modelo de atuação, e desloca-la do ambiente aonde o senso comum a reconhece e a celebra, aí  o buraco da bala é mais embaixo - trata-se de um ato de coragem!

Ao ver o debute de Gabriel Braga Nunes com o projeto musical O Amador, evento que ocorreu neste sábado (15), no Teatro do Sesc, em Passo Fundo, o tema do veterano iniciante carimba essa impressão inicial. Pois o ator experiente abre espaço para o músico ainda desconhecido entrar em cena. Outra incitação posta à prova neste projeto é a temática d'O Amador - Sonetos de William Shakespeare vertidos para a linguagem do rock'n'roll. Neste domingo, às 20h, é Santa Maria que recebe o espetáculo. Confira o serviço completo AQUI

Foto: Ariel Farias
Em Passo Fundo, ao abrirem-se as cortinas, às 20h20, o reconhecido ator paulista de novelas, seriados, peças e filmes surge primeiramente solitário, um monólogo com a guitarra em punho, declamando em português o "Soneto 27" de Shakespeare: "Exausto com o trabalho corro ao leito / Repouso de meus membros tão cansados / Mas corre a mente agora o curso feito / Estando o labor do corpo terminado".  Versos e riffs criam uma tensão inicial que incita a curiosidade. Logo em seguida, Leo Mayer (guitarra), Lucas Hofmann (baixo e voz de apoio) e Fernando Oliveira (bateria), apresentam armas como uma autêntica banda de rock'n'roll a atuar como suporte do protagonista. 

O vocal de Gabriel inicialmente pode nos lembrar do ritmo falado de algumas canções de Lou Reed, mas certamente a ambiência de Alice Cooper em seus anos iniciais faz ligação direta com sua principal fonte de inspiração. Logo uma voz própria e original se desvela. Ouça com atenção "Soneto 15", um hard aceso com a carga sonora do melhor do rock encardido feito nos anos 1970. Num dos melhores momentos melódicos do projeto, incrível pensar que Gabriel Braga Nunes não mexeu uma vírgula para transformar textos ancestrais da literatura em canções. No solo, brilha o talento de Leo Mayer, um jovem músico gaúcho que aos 22 anos soa como um guitar hero na ponta dos cascos. 

Foto: Ariel Farias
Os movimentos corporais de um bom rock se desenrolam em pleno deleite nos "Soneto 72" e "Soneto 17", primeiras músicas fora do EP a surgirem no setlist. Os riffs dobrados de Nunes e Mayer dão o tom inicial do "Soneto 71", amostragem que as guitarras não apenas se completam, mas também formam um exército de sobreposição de camadas. Outro ponto alto é a voz de apoio de Lucas Hoffman, que produz arranjos a sombrear o vocal principal, mas que também produzem uma das marcas principais dessas adaptações, como em "Soneto 111"

O hard rock nos esbofeteia no Soneto 75, demarcando um dos momentos mais pesados da noite. Antes de tocar o "Soneto 76", o protagonista diz à plateia que irá declamá-lo, pela versão de Geraldo Carneiro,  poeta, letrista e dramaturgo brasileiro que o verteu para nossa língua. E, vemos novamente no palco - apenas Gabriel Braga Nunes e sua guitarra:   

"Por que meu verso é sempre tão carente / De mutações e variação de temas? / Por que não olho as coisas do presente / Atrás de outras receitas e sistemas? / Por que só escrevo essa monotonia / Tão incapaz de produzir inventos / Que cada verso quase denuncia / Meu nome e seu lugar de nascimento? / Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito / E sobre o amor, são meus únicos temas. E assim vou refazendo o que foi feito / Reinventando as palavras do poema / Como o sol, novo e velho a cada dia /  O meu amor rediz o que dizia".   

Foto: Ariel Farias
Já na segunda parte do tema, ainda apenas com sua guitarra - como se fosse um retorno ao início do show,  e agora na língua mater de seu criador, o soneto vira um novo momento iluminado do espetáculo. Logo depois, Lucas Hoffman contorna a música com sua voz de apoio no refrão. O satírico "Soneto 88" (um dos meus preferidos), também revela o talento de Gabriel como músico, basta observar seu solo de guitarra. E sim, o que seria do rock sem o blues. Ele dá o ar da graça em "Soneto 51", um enlace entre o bardo inglês e as águas barrentas do Rio Mississippi, miscigenado ao calor do melhor do blues/rock setentista. Mayer e Nunes trocam olhares de satisfação.  

Rumando para os momentos finais do espetáculo, a bateria de Fernando Oliveira puxa/conduz o "Soneto 112", seguida de um groove no baixo e um clima stoneano. Sim, estamos num show de rock'n'roll! Quer guitarras na linha de frente? Essa é uma tônica frequente n'O Amador, mas fica ainda mais na cara no "Soneto 12". Outro breve recital em português, vertendo o "Soneto 23" para o território de Camões, e energia do rock com a tônica do imprevisto pode ser encapsulada pela corda arrebentada no meio do solo de Leo Mayer. O guitarrista levanta o instrumento como um troféu, um ícone da eletricidade. Gabriel sorri e se despede do público. 

Foto: Ariel Farias
A audiência pede a saideira. "Soneto 15" volta à baila e a corda arrebentada com pequenos reajustes na afinação é apenas outra cor do improviso. O selo imaculado da estreia finalmente foi rompido - agora a poeira da estrada começa a encardir o som de Gabriel Braga Nunes e banda. Nada mais justo: William Shakespeare adentra o universo do rock pela voz do ator/músico Gabriel. Uma vida repleta de música e poesia, quem não deseja esse autêntico vintém? Nos vemos neste domingo no Theatro Treze de Maio.

Em Passo Fundo o show d'O Amador foi um oferecimento de Madness e Residencial Souza/Praia da Figueira. Apoio: Boteco do Rafa (Obrigado Rafa e Daniela), Nobel Bela Citta e Rádio UPF. Produção local: Clandestino Produções. Produção geral: Grings - Tours, Produções e Eventos. Agradecimento especial Osiel Portela (Sesc).    

Foto: Ariel Farias

Foto: Ariel Farias

Foto: Ariel Farias

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