"LÁ DE VOLTA OUTRA VEZ": AUDIÇÃO COM PYLLA KROTH E LEO MAYER

Divulgação
Imagine alguém a frente de uma banda de rock por mais de trinta anos. Fácil, né? Claro que não. Isso pode ser em Nova Iorque, Los Angeles, Londres ou Berlin. Dificultando um pouco mais, também pode ser aqui na América do Sul – São Paulo, Rio, Porto Alegre ou Buenos Aires. E se nos reduzirmos ao nosso território, falando aqui de Santa Maria–RS? Bem, assim verdadeiramente a coisa complica. 

Chegamos então até Pylla Kroth, mais de meio século de vida e mais de trinta dedicados ao rock. Depois de passar por bandas lendárias como Fuga (com a qual gravou dois LPs) e 220 Volts, Pylla vive um dos melhores momentos de sua carreira. 


Pylla Kroth. Foto: Ernesto Sacchet
O artista nascido em Tapera –RS e que há três décadas e meia escolheu Santa Maria como lar, acaba de lançar “Lá de volta outra vez”, seu quarto trabalho solo. Ao contrario de “Bruxos Rosa” (2005), “Pylla canta 25 anos de rock” (2008) e “Cyclus” (2013), seus trabalhos anteriores, a aceitação do novo CD foi imediata. “Já vendi mais de 500 CDs”, afirma o vocalista. Essa também é sua formação mais estável, sem modificações há quatro anos, a Carbono 14, banda que o ancora no palco, tem Marcelo Sartori (baixo), Cezar Nogueira (bateria) e o sobrinho Leo Mayer (guitarra e direção musical do álbum). 

Pylla lança o disco nesta quarta-feira (20), às 20h, e pela primeira vez, protagonizando uma apresentação com seu nome no alto de um cartaz no Theatro Treze de Maio. Os ingressos estão a venda na Som Brasil e na bilheteria do Treze – R$ 25 (antecipados, estudantes, idosos e sócios do teatro), R$ 50 (público em geral no dia do evento).

O show vai contar com vários convidados. Começa com uma (quase) reunião da Fuga, pois Rafael Ritzel (guitarrista e compositor da letra de “Saudade”, maior clássico da banda) e Gonçalo Coelho (baixo), estão confirmados na apresentação. Ainda participam Renato e Marcos Molina, Pinttoo, Débora Rosa, Fernanda Junges, Daiane Diniz, Batavo, Adriano Zuli e Diego Pignataro. 

Seja no quesito técnico, ou até mesmo no artístico, “Lá de volta outra vez” é um disco redondo, forjado no metal pesado, com raízes frondosas espalhadas pela geografia do rock santa-mariense, mas olhando além, pois há tintas universais na aquarela do CD. Parte desse crédito tem a caligrafia sinuosa de Leo Mayer. Quando perguntado qual a importância de seu tio em sua formação, o jovem talento de apenas 21 anos não titubeia: “Devo tudo a ele! Morei com Pylla por quase cinco anos. Conversávamos sobre música 24h por dia. Não sei como a mulher dele não me expulsou de lá. Sinceramente, o assunto era rock no café, almoço e janta”. Hoje, dá pra afirmar  que Mayer ruma a passos largos para o reconhecimento nacional como produtor de peso no gênero. Questão de tempo.

Leia: Theatro Treze de Maio se rende ao rock de Pylla C14

Leo Mayer. Foto: Ernesto Sacchet
“Lá de volta outra vez” também é o debute de Pylla fora dos estúdios convencionais, atrelados a antigos métodos de gravação. “Grande parte do disco foi gravado aqui em casa”, afirma Mayer. “Só a bateria foi captada na chácara do Macaco (apelido do baixista da banda)”.

Já havia escrito uma breve resenha sobre o disco (leia aqui), porém , resolvi esmiuçar o conteúdo intelectual do disco. Para isso, fiz audições com Pylla e Mayer, além de pegar algumas impressões com Sartori e Nogueira. O resultado dessa investigação você confere faixa a faixa logo abaixo.

Capa do CD. Reprodução
VISÃO TURVA

O CD começa com “Visão Turva”, um riff matador de Leo Mayer que nos norteia sobre uma das intenções do disco: estamos adentrando o território do rock pesado. Da mesma forma que a guitarra fica na cara do ouvinte, muitas vezes há uma sobreposição do baixo. Culpa do efeito drive, ao estilo do que Lemmy fazia no Motorhead. A letra de Pylla homenageia Dedé, lendário roadie da Fuga que morreu em 1994. “Na cara da beleza / o mal tava escondido / Dizia que era santo, mas era um bandido”, diz a letra. “Dedé era uma espécie de Robin Hood. Fazia as tretas dele e depois distribuía os ganhos com os amigos desfavorecidos. Vi o cara pagando muito xis pros camaradas que não tinham grana”, reflete o Magrão. Rock and roll way of life. 

NA REAL

A ideia de “Na Real” começou a partir de um solfejo do baterista Cezar Nogueira. “Ele me enviou pelo WhatsApp”, confessa Mayer. Com esse pontapé inicial, o guitarrista construiu uma progressão de acordes que lembra de relance “Maybe I’m a Leo”, do Deep Purple. Depois disso, tudo se encaixou rapidamente, tanto no instrumental, quando melodia e letra. “Quando ouvi, surgiram as ideias, mas não as palavras certas”. Sem problemas, no dia seguinte Pylla completou o serviço: “Eu aprendi a viver / Eu sou do tipo que crê / Que a luta deve haver / pra realizar-se amanhã”. Caminho pavimentado pra pegar a estrada...

FULIGEM

Mais um tema que é  fruto de um improviso: “Jam sesssion #1”, um instrumental com ares sabbatháticos, gravado em setembro de 2104 por Leo Mater e o baterista Leandro Schirmer (El Negro). Pylla construiu a história da letra inspirado em uma viagem a Passo Fundo, quando fez um check-up com seu médico particular. Na época, devido a fortes chuvas que assolaram a Região Central, alguns trechos da rodovia de acesso ao Norte do Estado estavam interrompidos, com isso o vocalista precisou viajar debaixo de chuva, além de buscar rotas alternativas. “Esta estrada é uma canção desafinada (...) / Caminho tão estranho / parece que tudo se foi”. 

ROTINA

Resquícios do espólio da Fuga, “Rotina”, um flerte entre o rock e o funk composto por Gonçalo Coelho, acabou não saindo do forno, pois estaria no abortado terceiro disco da banda. Em um dos muitos ensaios e improvisos da Carbono 14, Nogueira criou certa passagem que inspirou um enxerto no antigo tema (na parte do solo). O resultado disso tem um pé no nü-metal, uma das referências musicais do baterista. O músico reflete sobre sua participação: “Foi um dos melhores trabalhos que já gravei. Todos contribuíram com ideias. O resultado foi melhor que o esperado”, diz Cezar.

NOVO ROMÂNTICO

Esse tema revela uma das grandes virtudes de Pylla: a de guardião do rock santa-mariense. “Novo Romântico” foi composta originalmente por Fernando ‘Furo’ Cardoso (baixo e vocal), José Cacciari (guitarra e futuro integrante da Fuga) e Marcírio Siqueira (bateria), power trio que atendia pelo nome de Banana Explícita. Construída inicialmente pelos resquícios da memória de Pylla (já que nenhum registro da gravação havia sido encontrado), o quebra-cabeça foi fechado quando uma antiga fita cassete é descoberta no acervo de um fã do rock local (o publicitário Osvaldo Bellé). Tratava-se de uma veiculação da música na segunda metade dos anos 1980, na rádio Atlântida. Daí foi descoberto que a nova versão omitia uma estrofe inteira. “Acabamos enxertando a nova parte, e houve toda uma reinvenção”, confessa Mayer. “Gostei muito de ouvi-la dia desses na Medianeira FM. Estava sozinho, no meu carro, e comecei a dar risada. Gostei do novo arranjo, principalmente no refrão”, diz Fernando Furo, 51 anos, autor da letra de “Novo Romântico” e hoje professor de inglês.

Marcelo Sartori. Foto: Ernesto Sacchet

INDIGERÍVEL

Esse número se origina das sessões de “Cyclus”, 3º CD de Pylla gravado em 2012. O riff guardado na gaveta por Mayer ressurgiu em 2015, durante um dos ensaios da banda. “Aprontamos rapidamente. O Pylla ouviu e disse: tenho uma letra! Daí no outro dia apareceu com algo rabiscado num papel toalha e tudo fechou”, revela Mayer com um sorriso no rosto. “Essa fiz pra certa pessoa que conheço. Um daqueles seres humanos indigeríveis que muitas vezes precisamos conviver”, confessa Pylla. Sonoramente esse é o momento mais metal oitentista do disco, uma mistura de Saxon com AC/DC.


Cezar Nogueira. Foto: Ernesto Sacchet

ESCAPE II

Outro fruto dos improvisos da C14, a instrumental “Escape II” mostra todo o poder de fogo do trio. “Vejo essa trabalho como um marco na carreira do Magrão. Além do mais, a aceitação do público foi instantânea”, diz o baixista Marcelo Sartori, há quatro anos na banda. Além de refletir o perfeito encaixe e entrosamento do time, é fácil percebermos uma reverência ao característico som dos canadenses do Rush, fase “Caress of Steel”. “Eu achei que caia bem um momento só deles”, diz Pylla.

PASSARÁ

“Essa é uma daquelas músicas que nasceram da minha necessidade de explorar outras afinações. Soltei a corda lá, que virou um sol, transformei a mi em ré”, falou Mayer. “Eu fiz parte dela enquanto tocava violão em uma tarde qualquer no Parque Itaimbé”, conclui o guitarrista. A letra de Pylla é uma autêntica defesa em primeira pessoa do seu modo de vida: “Quando paro pra pensar / No meu jeito de viver / Com meu jogo de cintura / Faço a coisa acontecer”. Outro recurso interessante, é que em uma das passagens o vocalista consegue misturar rock com uma antiga cantiga de roda: “Passa, passa, passará / A porteira está aberta para quem quiser passar”. Segundo Pylla, por influência de sua mãe, ele cresceu ouvindo e aprendendo canções folclóricas como essa.

JÁ ERA


“Regravação de ‘Bruxos Rosa’ (CD de 2005). Pylla não ficou contente com o resultado final e sempre falava em regravá-la”, nos diz Mayer. E a nova versão de “Já era”, e primeira música a ser disponibilizada de “Lá de volta outra vez”, ainda em meados de 2015, sedimentou as convicções da forma de registro que Pylla C14 passariam a trabalhar no álbum: “Gravamos todo o disco em menos de 20 horas, e ‘Já era’ definiu o caminho de que poderíamos fazer esse novo trabalho da nossa forma. Até cogitamos gravar fora, quem sabe ir até São Paulo, mas concluímos que não haveria necessidade”, afirma ainda o guitarrista. “Essa é um daqueles sons que nos incentiva a apertar o botão de ‘foda-se’ de vez em quando – fogo neles, bala neles, ferro neles!!!”, arremata Pylla citando o refrão do tema.

Pylla C14. Foto: Ernesto Sacchet

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