Haicais ao Sul – Grings vai e assume o sol

| Foto: Camila Gonçalves |
| Por Juarez Fonseca |

“Entrego Meu Coração aos Pinheiros”, eis um livro bom de ler e difícil de escrever sobre. Trata-se do 11º livro de meu amigo santa-mariense Márcio Grings, jornalista puro-sangue, músico, escritor/poeta, criador do selo literário Memorabília, que já lançou muitos novos (e ótimos) autores. Eu o conheci em 2021, pelo livro “Quando o Som Bate no Peito”, coletânea de comentários sobre as dezenas de shows internacionais de rock que assistiu na vida. Mas por que é difícil escrever sobre este novo?

Porque trata-se de um livro de haicais, gênero poético de que conheço pouco. E acho que a maioria das pessoas, pois não são muitos os haicaístas (haijins) brasileiros. Grings é um deles, dos grandes, como reconhece na orelha do livro o não menos Seishin (nome haicaístico de Antônio Fabiano), poeta e monge potiguar radicado em São Paulo: “Nele pulsa seu coração de poeta do mundo, amante da natureza e da expressão humana em vasto sentido”.


Fui pesquisar: o haicai (ou haikai, ou haiku), foi criado por Matsuo Bashô (1644-1694), poeta do período Edo no Japão, então dominado por uma casta imperial. As três linhas simétricas do poema têm foco na natureza, ou em um instante de revelação. Chega ao Brasil em 1908, com os primeiros imigrantes japoneses, sendo adaptado para o idioma português primeiramente pelo poeta Guilherme de Almeida, na década de 1930. Depois, aderiram, entre outros, Millôr Fernandes e Paulo Leminski.

Dividido em cinco partes – Cine-Haicai (espécie de prefácio), Matsu, Pops, Ginkõ, Noves Cortes (posfácio) e Coda (agradecimentos e desdobramentios finais), o livro de Grings tem textos de espírito poético entremeando as sequências de haicais. Nestes textos, ele evoca sua história pessoal e sua (in)formação cultural. Exemplo: “Venho de um outro tempo. Quando moleque, brinquei de bangue-bangue pelas ruas e terremos baldios (...) Junto aos amigos, tínhamos bodoques, trabucos e espingardas de plástico (...) Hoje não mato nem as formigas”.


Esses textos são também recheados de citações aos mestres, de Bob Dylan e Caetano Veloso a Jack Kerouac e Leminski, e Matsuo Bashô, Santoka Taneda, Masaoka Shiki, e Jorge Luis Borges, e Mario Bedenetti, e Monteiro Lobato e Paulo Franchetti. Lá pelas tantas, escreve: “A cultura pop pode virar haicai? Claro. (...) Também me atraem os poemetos que, vez ou outra, enlouquecem, gritam, esperneiam (...) e explodem em pleno nonsense. Essa variante é denominada senryu.

São apenas 104 páginas, que no fim das contas parecem mais. Nelas encontramos inúmeras palavras japonesas inerentes ao haicai. O título do livro vem de uma frase de Bashô: “Vai para o pinheiral se queres escrever sobre pinheiros”. Alguns haicais de Grings:



ENTREGO MEU CORAÇÃO AOS PINHEIROS – de Márcio Grings. Editora Memorabilia, R$ 67 em memorabiliastore.com.br Première neste sábado, 15 de agosto, às 11h, no Espaço de Lançamentos na Praça Saldanha Marinho. 



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