Luciano Leães & The Big Chiefs — Multipalco Eva Sopher, 18 de junho de 2026

| Foto: Laura Aldana |
| Por Márcio Grings Fotos Laura Aldana |

É incrível, mas você já percebeu como, em raros momentos, passado, presente e futuro parecem coexistir? Neste final de outono em Porto Alegre, essa sensação ganha forma no palco do Multipalco Eva Sopher. Aos desavisados, lembro que diversas expressões artísticas são capazes de nos iludir — ou teletransportar — para outros lugares e épocas. Há shows que embaralham as fronteiras do tempo e nos conduzem, simultaneamente, ao que fomos, ao que somos e ao que ainda buscamos ser. Parece filosofia barata, né? Engana-se. 

Até imagino, mas não pretendo cravar quais sonhos atravessam a cabeça de Luciano Leães. Ao meu ver, faz tempo, ele chegou lá. O músico porto-alegrense ocupa um lugar singular em qualquer cenário que orbita, não apenas por suas escolhas, mas, sobretudo, pela capacidade de reunir tantos talentos em torno de uma proposta artística consistente. Seja em Porto Alegre ou nos Estados Unidos — mais precisamente em New Orleans, cidade onde mantém amigos e já é reconhecido praticamente como um local.

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No palco, além do protagonista — ao piano e à voz —, outros 16 músicos brilham: Edu Meirelles (baixo), Murilo Moura (órgão Hammond), Solon Fishbone (guitarra), Júlio Rizzo (trombone), Cleomenes Júnior (saxofone), Bruno Nascimento (trompete), Ronie Martínez e Pedro Petracco (bateria), Vicente Guedes, Tuti Rodrigues e Pingo Boreal (percussão), Luana Pacheco, Ariane Wink e Bernardo Scarton (vocais de apoio), Miriã Farias (violino) e Alex Rossi (harmônica). Nos bastidores, Matheus Osório (direção de palco), Rodrigo Rheinheimer (som), Gilberto Six (luz) e Laura Aldana e Nina Piccoli (produção executiva).

O plano de voo do espetáculo propõe uma imersão nos diálogos entre Porto Alegre, o Brasil e New Orleans, cidade cuja história musical foi moldada pelo encontro de diferentes matrizes culturais. Assim foi forjado o som de lá. O release destaca as conexões históricas, rítmicas e expressivas entre essas tradições, especialmente aquelas construídas a partir das heranças afro-americanas e latino-americanas. Ou seja: o som daqui.

Em cena, essa premissa se confirma sem necessidade de muitas explicações. Apesar de Leães por várias vezes falar desse mote.  

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Ao longo de quase duas horas e meia, o repertório percorre diferentes momentos da música negra do sul dos Estados Unidos. No setlist, importantes nomes são evocados — The Meters, Fats Domino, Professor Longhair e Bobby Womack, ao lado de temas vernaculares como Go Down Moses e St. James Infirmary. Nessas releituras, a exemplo e sem forçar a barra, Leães pode até invocar o berimbau ao piano, aproximando a capoeira do blues. Ainda assim, acreditem: o espetáculo encontra sua força maior quando desloca o foco da reverência para a criação. É nas composições próprias que se percebe como ele absorve essa tradição e a devolve revitalizada.

Canções já conhecidas de sua discografia, como Hunky Dory Boogie e Festa Brasilis, reaparecem sob novas perspectivas. Odyla y Maneco, impulsionada pela participação de Miriã Farias, ganha contornos gitanos por meio do arranjo de violino, potencializando a força de uma de suas melhores composições. Ao meu ver, nesse tema Luciano encontra o apogeu em cozinhar no mesmo pote culturas duversas, o autêntico melting pot de sua obra e nadir dessas intenções. 

| Foto: Laura Aldana |

O futuro também encontra espaço no palco. Algumas faixas do novo álbum, ainda sem título e com lançamento previsto para o final do ano pelo selo norte-americano Gallatin Street Records, foram apresentadas em primeira mão. Entre elas, destaca-se Two Weeks, balada construída sobre uma melodia que remete à tradição do rhythm and blues sem soar nostálgica. De todo o modo — e aqui escreve o mais nostálgico dos resenhadores — não é difícil imaginá-la na voz de Ray Charles. Eu, ao menos, vi esse filme passando na minha frente.

Veja o videoclipe de Inner Song.


Inner Song, exibida no videoclipe que abre a noite, retorna em versão ao vivo e amplia essa proposta de atualização de repertório, combinando frescor e sofisticação, um tempero pop e dançante no mesmo espírito das ótimas Rise e Heart of the City. O novo álbum, que será lançado em vinil, promete.

| Foto: Laura Aldana |

Outro aspecto que chama atenção é a generosidade do protagonista. Nos intervalos entre as músicas, há sempre uma breve explicação sobre os contextos que cercam cada composição, situando o espectador nessa viagem. Embora o espetáculo seja conduzido por Leães, a bola gira o tempo todo, pois cada músico encontra espaço para imprimir sua própria digital. Assim, Júlio Rizzo exibe seu carisma ao cantar um refrão ou avançar pela plateia soprando o trombone; os arranjos distribuem o protagonismo entre sopros, teclados, cordas, vozes e percussões, abrindo terreno para improvisos e diálogos constantes. E claro, o second line com It's All Over Now leva parte dos músicos a circularem entre a plateia do teatro, uma tradição das apresentações musicais de New Orleans que Leães já propagou nos shows que faz por aqui.  

Nesse contexto de integração, a presença de Pingo Boreal sintetiza o espírito do ideário celebrativo do evento, tornando-se um dos símbolos dessa identidade plural e profundamente ligada às nossas origens. Além da contribuição musical, sua movimentação pelo palco — misturando ginga, ancestralidade, humor, expressão corporal e dança de rua, sempre acompanhadas por um sorriso contagiante — estabelece uma comunicação intensa com a plateia.  

| Foto: Laura Aldana |

Mais do que reproduzir uma linguagem musical específica, Luciano Leães demonstra compreender os fundamentos e expor seus propósitos com clareza. A relação com New Orleans ultrapassa a admiração estética e se manifesta na maneira como articula repertório, arranjos e interpretação. O resultado não é uma simples reprodução, mas um trabalho de tradução cultural realizado a partir de uma identidade própria, latina — algo que ajuda a explicar o reconhecimento que vem conquistando tanto no Brasil quanto na cidade que inspira este espetáculo. Não estamos falando de alguém que apenas coveriza canções, trata-se de um artista genúino e original.

Enfeitiçado, confesso que viajei por muitos lugares ao longo do show. O que mais me alegrou, porém, foi perceber exatamente onde estava: Porto Alegre, Multipalco Eva Sopher, com Luciano Leães e os Big Chiefs misturando tudo em um único caldeirão. O mundo, por vezes tão vasto, pode caber dentro do nosso quintal e, ainda assim, abrir diante de nós uma janela imensa para a diversidade humana.

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LUCIANO LEÃES & THE BIG CHIEFS
Multipalco Eva Sopher
18 JUN 2026

  1. Yes We Can
  2. Hunky Dory Boogie
  3. Hey Pocky A-Way
  4. Blue Heaven
  5. Go Down Moses
  6. St James Infirmary
  7. Mother in Law
  8. Tootie Ma
  9. Big Chief
  10. It's All Over Now
  11. Two Weeks
  12. Odila y Maneco
  13. Festa Brasilis
  14. Inner Song
  15. Rise
  16. Heart of City Beat
  17. Okey Doke

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