Há 28 anos, em 7 de abril de 1998, Bob Dylan se apresentava no Bar Opinião, em Porto Alegre

| Foto: Adriana Franciosi |
Por Márcio Gringsde Porto Alegre |

Talvez muitos tenham tomado esse evento como uma das lendas urbanas da Cidade Baixa. Contudo, não falo de algo fictício. Acreditem: Dylan realmente se apresentou para cerca de 1.500 pessoas no Bar Opinião. Alguém consegue imaginar isso acontecendo hoje?

Era 7 de abril de 1998, e apenas sete anos haviam se passado desde sua primeira visita à capital gaúcha. Anos depois, em agosto de 2005, a Revista BIZZ colocaria nas bancas uma edição especial, ranqueando essa apresentação no Opinião entre os 100 maiores shows no Brasil de todos os tempos.

Para mim, é o número 1.

Foto: Adriana Franciosi

Naquele abril de 1998, diferentemente da primeira passagem, em 1991 — quando o disco mais recente era o contestado Under the Red Sky (1990) —, Bob estava na estrada apenas três semanas depois de ganhar três prêmios Grammy pelo álbum Time Out of Mind (1997). Até hoje, é uma das obras mais aclamadas do músico. 

Esse seria o único show solo do músico naquele ano no Brasil, já que, em 11 e 13 de abril, respectivamente, faria shows em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas como ato de abertura para os Rolling Stones na turnê Bridges to Babylon. O show de Porto Alegre seria mais longo. “This Wheel’s on Fire”, por exemplo, só seria tocada na capital gaúcha.

Vale lembrar que, naquela época — e ainda hoje —, Bob Dylan não costumava se apresentar para plateias inferiores a cinco mil pessoas. Por peculiaridades como essa, o show reunia vários ingredientes que cumpriam a promessa de um evento histórico.

Quase 30 anos depois, recuperamos a lembrança de alguns personagens que por lá estiveram — testemunhas oculares de uma noite única. Em tempo: os extratos desta matéria foram retirados de uma reportagem feita em parceria com Cristiano Radtke, em lembrança aos 20 anos do show, em abril de 2018.

Foto: Opinião

A imprensa gaúcha valorizou a segunda passagem de Bob Dylan pela capital. Jornais como Correio do Povo e Zero Hora publicaram várias matérias especiais abordando a vinda do artista ao RS. No dia do show, Marcelo Ferla assina matéria em ZH e avisa os leitores: “Deixem o passado para as biografias e abram os ouvidos para o presente de Dylan”. Vinte anos depois, por telefone, Ferla chama a atenção para o fato de que, a partir do álbum em destaque nesse tour, Time Out of Mind, Dylan retornou à sua melhor forma, fazendo desse recorte de tempo uma fase em que suas apresentações enunciavam não apenas um artista disposto a dar o melhor de si. O público que esteve no Opinião, por exemplo, teve a oportunidade de conferir um repertório que incluiu novas canções de peso, como “Love Sick” e “Cold Irons Bound”.

Já o jornalista Paulo Moreira (falecido em 2023), à época repórter credenciado pelo Correio do Povo, não deixa dúvidas sobre aquilo que viu e sentiu: “Foi um dos melhores shows da minha vida. Assisti do mezanino do bar, a cerca de cinco metros do palco, ao lado do Peninha. Ficamos conversando e discutindo o repertório o tempo todo.

Esse show não mudou apenas minha vida, mas também a de todas as pessoas ligadas ao Opinião Bar e Produtora. Foi um divisor de águas. Assim, um pequeno bar/produtora de eventos da Cidade Baixa se tornou uma empresa que virou referência nacional. Além do mais, foi fundamental para nos abrir centenas de portas. Quando íamos apresentar a casa para qualquer artista, bastava dizer o seguinte: Bob Dylan tocou no nosso palco! Alguns não acreditavam. Por iniciativas como essa, passei a acreditar que realizar sonhos às vezes pode ser um bom negócio”, revelou o empresário Alexandre Lopes, um dos proprietários do Opinião e principal responsável pela segunda vinda do músico ao RS.

Foto: Opinião

Em qualquer lista séria [dos melhores shows], essa apresentação sempre estará incluída”, contou Eduardo Bueno, o Peninha. O jornalista contabiliza, em suas anotações, mais de setenta apresentações do bardo norte-americano. E não apenas isso: em 1991, seguiu como convidado do próprio Dylan no entourage da então recente Never Ending Tour. Como integrante do ônibus que transportava a turnê pela Europa, cruzou países como Itália, Eslovênia, Croácia, Sérvia e Hungria, assistindo a shows de Dylan em várias cidades, entre elas Milão, Bolonha, Liubliana, Zagreb, Belgrado e Budapeste. De todo modo, em suas lembranças, o show em sua cidade natal continua à frente dos demais, posicionado no topo da pirâmide.

Para Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, o show do Opinião não era uma apresentação inédita, pois já havia assistido a shows anteriores em circunstâncias e locais variados. Apesar disso, Nova diz que “nenhum deles foi melhor que o de Porto Alegre”. De acordo com o músico, um dos principais fatores que diferenciam esse show dos outros que ele viu de Dylan foi “a proximidade que se tinha com o palco, do qual eu estava distante não mais do que um metro e meio. Você não consegue assistir a um show nessas circunstâncias na maioria das cidades do Brasil ou fora daqui”. A partir dessa proximidade, “você vê a sujeira das unhas, o vinco da face, o suor escorrendo pela testa", disse.

Veja vídeo de reportagem da extinta TV COM — únicas imagens captadas na noite do evento. Contém entrevistas com Moacyr Scliar, Vitor Ramil e Marcelo Nova. A reportagem é assinada por Luciana Kraemer, com imagens do cinegrafista Eduardo Mendes.


E vários fãs também se deslocaram do interior do RS rumo ao show no Opinião. Um deles foi Maurício Cardoso, o Trovão. Ele veio da região de Santa Maria, no centro do estado: “Naquele 7 de abril, peguei o ônibus às oito da manhã e, ao meio-dia, estava na capital. Bem antes do show, já estava na frente do Opinião. Encontrei meu amigo Maurício Rigotto. Na hora do show, ao nosso lado, Marcelo Nova com seu filho no colo. Estávamos a um metro de distância de Dylan. Ele nos encarava, dançava e sorria, enquanto dedilhava a guitarra. Que noite!”, relembra Trovão.

O já citado Maurício Rigotto veio do norte do estado, de Passo Fundo: “Parece que foi ontem que assisti ao concerto de rock mais memorável da minha existência. Naquele final de março de 1998, rumei para Buenos Aires para assistir, pela segunda vez, a um show dos Rolling Stones. As três primeiras apresentações tiveram como abertura a banda argentina Viejas Locas e a cantora norte-americana Meredith Brooks. Dylan ainda estava em turnê pela Flórida e não estaria presente. Ficou acertado que ele abriria apenas o quarto e o quinto shows dos Stones na capital portenha, nos dias 4 e 5 de abril. Infelizmente, não pude presenciar esse encontro. Voltei da Argentina extasiado com o espetáculo dos Stones, mas um pouco frustrado. Não vi Bob Dylan. Cheguei em casa no domingo e decidi que, na terça-feira, estaria em Porto Alegre para tentar vê-lo no Opinião. Digo tentar porque os ingressos estavam esgotados havia dias e eu não tinha o meu.

Foto: Opinião

Na terça-feira, 7 de abril, Maurício passou o final da tarde e o início da noite negociando com cambistas. Conseguiu entrar no Opinião apenas 15 minutos antes do início do espetáculo. “Avistei, na primeira fila, bem defronte ao microfone de Dylan, meu amigo Maurício Cardoso, que estava ao lado de Marcelo Nova. Resolvi tentar chegar até eles e, para minha surpresa, consegui me posicionar a um metro de distância do pedestal do microfone. Em seguida, as luzes se apagaram e Bob Dylan começou a apresentação. Assisti ao show debruçado no palco. Se eu esticasse os braços, poderia até tocá-lo. Presenciei dezenas de outros shows históricos, inclusive voltei a ver Dylan mais quatro vezes, mas esse show no Opinião ainda é o mais impactante que já vi na vida, e creio que nada irá superar essa noite gloriosa.” 

Bob Dylan, Bar Opinião — 7 de abril de 1998


To Be Alone With You

I Want You

Cold Irons Bound

Positively 4th Street

Silvio

.....................

White Dove

Don't Think Twice, It's All Right

Tangled Up in Blue

.....................

Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again

This Wheel's on Fire

Highway 61 Revisited


bis

It Ain't Me Babe

Love Sick

Rainy Day Women #12 e #35

Não há registro em áudio da apresentação de 7 de abril de 1998 — ao menos, não que saibamos. O colaborador Cristiano Radtke é o responsável pela “mágica” no player abaixo.

Com o passar dos anos, essa apresentação ganhou status de lendária, a tal ponto que, por diversas vezes, conversei com pessoas sobre esse show e, ainda assim, elas tomam a passagem de Dylan no Opinião como lenda urbana. Talvez o fato de o bar ter uma capacidade reduzida para o porte de um artista dessa magnitude — cerca de 1.500 pessoas — ajude a explicar essa incredulidade. São peculiaridades que ajudam a compreender a aura mítica que esse show merecidamente tem”, reflete Cristiano Radtke, colaborador do Memorabilia nesta matéria.

Foto: Opinião

A gravação disponibilizada não se trata do show de Porto Alegre, mas de uma recriação do setlist que Dylan tocou naquela noite, compilada a partir de apresentações de 1998, cujas gravações foram disponibilizadas pelo site Expecting Rain, uma das mais fidedignas fontes de informação sobre Bob Dylan na internet. Em sua maioria, essas gravações são amadoras e foram feitas da plateia por fãs, o que explica as diferenças na qualidade de áudio de uma música para outra.

De qualquer forma, o material ilustra parte das ações daquela noite de 7 de abril. Assim, as pessoas que não presenciaram ao show podem ter uma ideia de como foi — e as que estavam lá podem revisitá-lo. Satisfação garantida.


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