Gustavo Telles celebra uma década e meia de sua estreia com show no Teatro Túlio Piva

| Foto: Danilo Christides |
| Por Márcio Grings |

Não lembro o dia nem o mês. Lembro o ano: 2011. Eu trabalhava na Itapema FM, em Santa Maria, e estava prestes a entrevistar a banda Tenente Cascavel. No estúdio, entre os integrantes, lá estava Luciano Albo. Conversa rolando antes de o microfone abrir, ele menciona o álbum de estreia de Gustavo Telles & Os Escolhidos, lançado meses antes. Eu não sabia quase nada sobre o primeiro voo solo do então integrante da Pata de Elefante. Ganhei o CD. Resultado: passei vários dias rodando com ele no player do carro. Replay. Replay. Replay. Quinze anos, o disco segue comigo. Ao sabor do teste do tempo, quem aqui também acha que Do Seu Amor, Primeiro é Você Quem Precisa merecia um show de celebração?  

A frase é batida, mas John Lennon já decratava: “A vida é o que acontece enquanto fazemos planos”. Meses depois, conheci pessoalmente Gustavo Telles — chamado pelos mais chegados de Prego — durante um almoço em Porto Alegre. Veio a amizade, a assessoria em três discos, duas harmônicas gravadas em outro, a parceria com os Graxelos em Shangri-lá (2024). 

Volta para 2010. A estreia de Gustavo Telles como cantor e compositor fez um barulho danado, mesmo que, no meu caso, eu tenha ouvido o bramido em delay. Pura desatenção minha! Hoje sabemos: há personalidade e qualidade quando esse homem se posta em frente ao microfone. Sua voz bate de raspão na música soul e, com tanta energia e talento, inspira comparações com os astros da primeira divisão! Além de ser um melodista nato, suas canções estão repletas de conteúdo lírico de primeira. Merecidamente, o disco entrou na lista do livro 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho, de Cristiano Bastos e Rafael Cony. Está lá por merecimento. Mas a obra é mais ampla e pouco aderente a esse rótulo: o disco não cabe na prateleira do “rock gaúcho”. Ele atravessa essa definição e cruza a fronteira sem apresentar visto.

Para a gravação, juntou-se um bando: Márcio Petracco (violão e pedal steel), Luciano Albo (baixo e guitarra), Daniel Mossmann (guitarra e violão), Luciano Leães (teclados), Maurício Chaise (guitarra e voz), Gabriel Guedes (guitarra), Maurício Nader (trompete e voz), Jerônimo Bocudo (baixo), Diego Lopes (teclados), Diego Garcia (voz) e Alexandre Papel (bateria). No centro de tudo, a voz de Gustavo Telles.

A faixa-título, “Do Seu Amor, Primeiro é Você Quem Precisa”, abre o jogo e dá o tom. Não soa como produto regional, restrito. Dialoga com a música norte-americana dos anos 1960 e 1970, perpassa o espírito do folk e do country, mas mantém uma identidade brasileira. Há traços de samba e MPB nas letras do disco (nesta, por exemplo), em composições que buscam a simplicidade e a clareza.

Algumas vezes se enganou/ Achou que havia encontrado/ A mulher pra poder amar/ E que continuaria a seu lado/ Acontece que você/ Não quer só alguém pra amar/ Você precisa de alguém/ Para sentir-se amado/ Do seu amor, primeiro é você quem precisa.

O pedal steel de Petracco aponta para o countryside. Maurício Chaise reforça o coro com Telles. O Hammond e o Wurlitzer de Luciano Leães sustentam a base. A música fica de pé sozinha e a letra vive na boca do povo. Como um bom samba.

Passo a Passo” mantém a batida no mesmo trilho. Outro clássico.

Só agora é que fui perceber/ Do que realmente sinto saudade/ Sinto falta do que eu não vivi.

O tema é direto: amor, ruptura, deslocamento depois do fim. Mas há um eixo que atravessa o disco inteiro — seguir em frente, mesmo que seja aos trancos e barrancos.

Do amor o que foi que restou/ Poderei descobrir/ Veio a luz/ Se desfez toda a aflição/ E eu sorri por saber.

Faltou Luz” encosta no ombro do honky-tonk, com piano em primeiro plano. “Quero Mais” começa contida, refrão circular, agridoce. No solo, abre espaço para o trompete de Maurício Nader, com desenho melódico que lembra os arranjos de sopro de Burt Bacharach. “Jogos Mentais” assume o country-rock, mas logo se desmonta como um truque barato que nos arranca um sorriso. “Girando em Descompasso” acelera e muda o ângulo, ou melhor, ajusta, foca a lente no rock and roll.

Só Deus Sabe” coloca a guitarra na linha de frente, com referência direta aos anos 1970, mas aqui todas as forças individuais se somam em uníssono. É uma das minhas preferidas. “Deixa Crescer” amarra o conjunto — letra e arranjo trabalham na mesma direção, rumo ao saudosismo das coisas. "O silêncio Me Impede de Esquecer" é fervida na velha panela caipira de onde nos alimentamos há  anos, com o tempero de um pedal steel impregnado pelos sabores da roça. “Pra Acordar” vai direto ao ponto ebulição e mistura tudo no mesmo tubo de ensaio — blues, country, rock. “Posso Me Perder” carrega ecos do Band, filtrados em um português com ID personalíssimo. Passou a ser uma das canções-símbolo desse trabalho.

Posso me perder sem ter você/ Pensando bem, já me perdi.”

Sem perder o fio da meada, o disco fecha com “Tell Me Why”, única faixa em inglês, com Diego Garcia dividindo os versos. Fim? Que nada, volte ao início e comece tudo de novo. Replay. Foi o que fiz muitas vezes e continuo fazendo...

Gravado por Vicente Guedes no Estúdio IAPI, em Porto Alegre, o álbum tem produção do próprio Guedes e de Gustavo Telles, com mixagem de Thomas Dreher. Lançado em 2010 pela Trama, tornou-se o título mais lembrado da discografia de Telles. Depois vieram Eu Perdi o Medo de Errar (2013), Gustavo Telles & Os Escolhidos (2017), Hoje, aos 43 (2022) e um registro ao vivo no Theatro São Pedro. A trajetória seguiu com diferentes formações e novo repertório, trabalhos que se somam num contexto de discografia invejável. E vem mais um álbum aí, a ser lançado ainda no primeiro semestre de 2026. No entanto, a ignição se deu aqui, justamente na estreia, onde tudo embalou.  

E é na trilha de “Do Seu Amor, Primeiro é Você Quem Precisa” que retomamos a jornada neste meio de março. No dia 6 de abril, às 20h, Gustavo Telles & Os Escolhidos sobem ao palco da Segunda Maluca, no Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575, Cidade Baixa), em Porto Alegre. Você já pode vizualizar os murais lambe-lambe em algumas esquinas e ruas da capital. Na festa que celebra os quinze anos desse lançamento, o álbum será tocado na íntegra. No palco: Daniel Mossmann (guitarra), Murilo Moura (teclados), Edu Meirelles (baixo), Luciano Albo (violão, guitarra e baixo) e Rodrigo Fischmann (bateria), os "amigos escolhidos" para essa ocasião especial. Garanta seu ingresso pelo Sympla 

Sem traços de uma nostalgia plastificada, temos o disco outra vez na pista, pulsando uma década e meia depois — atemporal —, impregnado de características genuínas que credenciam uma longevidade artística legítima. O que é bom não envelhece — ganha cicatrizes e marcas, mas ainda nos encara com aquela expressão sacana no olhar, tipo: tudo isso ainda continua valendo. Certamente que sim.

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