A jam session de Benny Goodman com Charlie Watts e Mick Jagger em 1962


A Blues  Incorporated com Mick Jagger no vocal 

A matéria deste post é um trabalho de pesquisa do nosso colaborador de longa data Cristiano Radtke, e trata de uma incrível e improvável jam session ocorrida numa festa particular em Londres, possivelmente em 13 de julho de 1962, poucas horas após a estreia dos Rolling Stones no Marquee Club, na Oxford Street, capital inglesa. Esse encontro reuniu no mesmo palco o astro do jazz norte-americano Benny Goodman e alguns músicos britânicos, entre eles Charlie Watts e Mick Jagger.     

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1962: A JAM SESSION DE BENNY GOODMAN COM CHARLIE WATTS E MICK JAGGER

Por Cristiano Radtke

Benny Goodman, o Rei do Swing
Os Rolling Stones, que completam 60 anos hoje, têm em sua carreira uma infinidade de participações especiais com os mais diversos artistas, ao vivo ou em estúdio. Um desses encontros, pouco conhecido e muito inusitado, é a jam session que reuniu Mick Jagger e Charlie Watts com uma lenda do jazz em 1962: Benny Goodman, clarinetista e bandleader conhecido como o “Rei do Swing", que nos anos 1930 era o maior expoente do estilo. 

Esse encontro, recheado de coincidências, já foi mencionado em alguns livros (a biografia de Mick Jagger escrita por Philip Norman é um deles), mas pelo contexto histórico e por ser uma das mais interessantes notas de rodapé da história dos Rolling Stones, merece aprofundamento. Em 9 de julho de 1962, Benny Goodman  desembarcou no aeroporto de Heathrow para passar breves férias em Londres com um jovem casal de amigos, antes de voltar a Nova York, onde morava.  

Essa viagem foi inesperada, pois Benny havia encerrado no dia anterior uma turnê de 6 semanas pela então União Soviética, e tinha convites para se apresentar em outros países europeus. Porém, divergências internas levaram seus músicos a não quererem prosseguir tocando com ele, que resolveu ir de Moscou para Londres. Nos nove dias que passou na capital inglesa, Benny foi hóspede de honra de Alistair Vane-Tempest-Stewart e de Nicolette Vane-Tempest-Stewart, respectivamente marquês e marquesa de Londonderry, que integravam a jovem burguesia hedonista que poucos anos depois estaria no epicentro do período conhecido como “Swingin' London".

Charlie Watts como baterista da Blues Incorporated
Apesar de ricos, o casal  tentou por anos, sem sucesso, vender uma de suas propriedades, a Londonderry House, situada em Park Lane, no elegante bairro de Mayfair, por causa dos altos impostos, que chegavam a 44 mil libras anuais. Por coincidência, quando Benny Goodman chegou em Londres, a casa havia sido colocada à venda em leilão, e, para celebrar o fato, os Londonderry deram uma festa de despedida, que seria a última das muitas que a Londonderry House abrigou. Para essa noite, uma das atrações musicais era a Blues Incorporated de Alexis Korner, considerado o pai do blues britânico, e que, desde sua formação em 1961, incluiu, em vários momentos, músicos que em pouco tempo se tornariam realeza no rock inglês. Entre eles, Jack Bruce, Paul Jones, Ginger Baker, Graham Bond, Brian Jones, Charlie Watts, Keith Richards e Mick Jagger.

Reprodução
Graças a suas conexões com a elite inglesa, em especial Gerald Lascelles (um entusiasta das artes que era afilhado da Rainha-Mãe, Elizabeth, e do Duque de York, Eduardo VIII), Alexis Korner conseguiu que a Blues Incorporated tocasse nessa festa de despedida. Em 12 de julho de 1962, Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Ian Stewart (piano), Dick Taylor (baixo) e Tony Chapman (bateria), se apresentavam no Marquee Club. Anunciados como “Mick Jagger and The Rolling Stones", eles substituíram à última hora a Blues Incorporated, que, apesar de ser atração fixa do Marquee nas quintas-feiras, não pode honrar esse compromisso por ter agendado uma apresentação no programa Jazz Club, da rádio BBC.

Se a estreia dos Stones tem uma data oficial (saiba mais sobre a estreia dos Stones no Marquee), a ordem dos fatos nos leva a crer que no dia seguinte a essa apresentação, na sexta-feira 13 de Julho, Mick Jagger e Charlie Watts, integrando a Blues Incorporated, fizeram uma jam com Benny Goodman, em uma Londonderry House repleta de convidados da aristocracia inglesa, incluindo o Príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II. As cerca de 300 pessoas que estavam lá não apenas testemunharam uma rara apresentação de Mick e Charlie Watts antes de alcançarem a fama com os Rolling Stones, mas também seu encontro com Benny Goodman, lenda do jazz que relembrou essa jam em uma entrevista de 1981. 

Entre uma e outra música, Ronnie Jones, vocalista da Blues Incorporated nesse show privado, foi perguntado por um dos convidados se Benny Goodman poderia tocar um pouco com eles. Sem saber de quem se tratava, dirigiu o pedido a Alexis, líder da banda, que prontamente o aceitou. Em uma jam de pouco mais de meia hora, Benny tentou acompanhar a Blues Incorporated com seu clarinete, tocando blues e R&B, com Charlie na bateria e Mick possivelmente soprando sua harmônica. Logo em seguida, "Just One of Those Things" e "Poor Butterfly", duas de suas velhas favoritas, foram tocadas.

Os Stones no Marquee, já com o Charlie na bateria, circa janeiro de 1963
Conforme a Jazz News, uma das mais importantes publicações inglesas da época, que cobriu esse evento em sua edição de 25 de Julho, Benny curtiu demais a jam e tocou “uma maravilhosa quantidade de blues". Charlie, em depoimento a Stanley Booth no livro “The True Adventures of the Rolling Stones", lembra que, apesar de achar que a banda tocou muito mal, “Benny tocou de maneira incrível".

Cyril Davies, Alexis Korner e Charlie Watts  

Nick Haslam, respeitado designer de interiores que estava na Londonderry House nessa noite, diz que “um magricelo bêbado chamado Mick ‘de tal' que estava com a banda, “tocou" no vestido rosa de seda de Min Hogg” (jornalista amiga de Nick e mais tarde editora de moda da Harper's Bazaar), e que “Benny tocou até um amanhecer que veria toda uma época tombada ao chão". Em 26 de Julho, a casa foi vendida em leilão por 500 mil libras, dando lugar ao Londonderry Hotel, que seis anos depois seria palco dos ensaios que os Stones fizeram para o especial de TV “The Rolling Stones Rock and Roll Circus".

Benny voltou para Nova York em 18 de Julho de 1962, e os Stones tornaram-se uma instituição do rock. A prova disso é que 60 anos depois eles continuam mais ativos do que nunca, lotando estádios mundo afora com a atual Sixty Tour e sem dar sinais de que pretendem parar tão cedo.

Quem sabe não possamos revê-los em breve por aqui? 

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