Close to the Edge, meio século de vida para um dos clássicos do Yes
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| Por Márcio Grings |
Em 1972, o Yes estava voando alto, a banda inglesa foi aclamada por "Fragile" (1971), um álbum que os colocou em evidência nos dois lados do Atlântico, impulsionados por músicas como “Roundabout” e “Starship Trooper”. E qual seria o próximo passo? O que o Jethro Tull faria após Aqualung? O que o Led Zeppelin faria após Led IV? O que o Yes faria após "Fragile"? Jon Anderson (vocal), Bill Bruford (bateria), Steve Howe (guitarra, voz de apoio), Chris Squire (baixo, voz de apoio), Rick Wakeman (teclados), seguiram na mesma senda aberta naquele início de década, só que ampliando a experiência progressiva, apostando ainda nos formatos longos, músicas com cerca de 10 minutos de duração, o que era um ato corajoso numa época em que maioria das faixas tinha cerca de cinco minutos no máximo.
Lembre-se: há 50 anos, eram as estações de rádio que dominavam a indústria da música, eram essas mesmas estações que ditavam o que era tocado e até mesmo interferiam na duração das músicas. As rádios insistiam que as músicas fossem curtas para que mais temas pudessem ser tocados e mais comerciais pudessem ser veiculados. Mas estamos falando de rock progressivo no início dos anos 1970, época em que essa fronteira/minutagem definitivamente caiu por terra. Já no campo literário, segundo Jon Anderson disse várias vezes, as letras de "Close to the Edge" teriam sido inspirada em "Sidarta" (1922), livro do escritor alemão Herman Hesse —, o que colabora com uma intenção de nos instalar nos aposentos de uma espécie de oásis espiritual, um local onde o após privação e sacrifício, o amor reside, prospera e é desdobrado.
Sidarta, reprodução da edição da editora Civilização Brasileira |
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Já "Close to the Edge" foi autoproduzido pela própria banda ao lado do parceiro Eddie Offord, que também fez a engenharia de som do disco gravado no Advision Studios de Londres. Gravado ao vivo — como fossem intermináveis ensaios onde a banda fazia um laboratório — as canções ganharam inícios, finais e ligações à medida em que o grupo ia ouvindo as gravações e encaixando as peças, num processo exaustivo e semelhante ao dos Beatles em "Let It Be". Isso gerou um desgaste entre os integrantes e o produtor, havendo muitos relatos de disputas internas e um desgaste irreparável entre Bill Bruford e os líderes da banda. Lançado, em setembro de 1972, "Close to the Edge" superou "Fragile" nas paradas e bateu cartão na 3º posição nos EUA e chegou ao 4º no Reino Unido, um feito incrível para um álbum visivelmente anticomercial.
Arte: Roger Dean |
Lado A
1. CLOSE TO THE EDGE (Jon Anderson/Steve Howe) (18:50)
I. The Solid Time of Change | II. Total Mass Retain | III. I Get Up I Get Down | IV. Seasons of Man
Jon Anderson disse em entrevista de onde veio a ideia do início de "Close to the Edge", onde ouvimos o trinar de pássaros, sinos de vento, água corrente e teclados místicos — uma materialização de um tipo de paraíso terrestre — ambienta e prepara o ouvinte para o clima bucólico e extravagante do LP. Esse preâmbulo inspirado em "Sonic Seasoning", álbum de Walter/Wendy Carlos, um dos primeiros artistas transexuais da música eletrônica. Já a faísca literária/conceitual foi deflagrada enquanto o vocalista estava devorando "O Senhor dos Anéis" de J. R. R. Tolkien. Essa leitura teve como trilha sonora as Sinfonias números 6 e 7 do compositor finlandês Jean Sibelius. É no gelo desse norte que encontramos alguns dos ingredientes do molho verde ao qual é feito o magnus opus do Yes. A faixa título tem 18 minutos, sendo dividida em quatro movimentos onde somos apresentados ao mundo peculiar deles, um lugar onde tudo parece autossustentável. Depois da paisagem sonora inicial, dentro do capítulo entitulado "The Solid Time of Change", a banda surge em profusão, uma abertura influenciada pela Mahavishnu Orchestra, grupo de jazz/fusion que pouco antes dessa gravação estava na estrada com o Yes — na posição de banda de abertura da turnê de "Fragile". As vocalizações iniciais são golfadas de ar antes do mergulhos para as profundezas da música.
E a letra entra com o pé na porta:
"A seasoned witch could call you from the depths of your disgrace/Uma bruxa ancestral pode chamá-lo das profundezas de sua desgraça". Segundo Anderson a frase é uma ideia de despertar, de fuga de um mundo sombrio em busca da restauração física e espiritual.
Esse júbilo e contentamento explode no subcapítulo adiante — em “Total Mass Retain” o baixo de Chris Squire é o martelo de Thor que golpeia o ouvinte e desperta os trovões. "A ideia é que a vida é uma jornada contínua, e você tem que aproveitá-la?", disse Anderson. O ideário de construção erudita meio que desmorona (ou evolui) nos vocais ao estilo dos Beach Boys em “I Get Up, I Get Down”, onde um cenário deslumbrante é revelado – novamente brotam fontes de água límpida, e os teclados de Rick Wakeman evocam refrãos e ambiências. Surge um citar no fundo de tudo e outro baixo incrível de Squire — o folk é diluído no clima etéreo do mellotron de Wakeman, onde os vocais de apoio de Chris Squire e Steve Howe por hora sobrepõem a voz de Jon Anderson. Mudanças de andamento, variações climáticas, anjos e demônios — o bem e o mal — disputando um mesmo espaço. Há um recorte específico, mais ao fim, em que relembramos a opacidade dos teclados de "Journey to the Centre of the Earth" (1974), um álbum que Rick Wakeman faria dois anos depois.
Então, finalmente chegamos até o destino final desse lado — “Seasons of Man”, uma união de tudo o que ouvimos anteriormente. O solo de órgão de Wakeman foi originalmente escrito por Howe para guitarra, mas ele achou que o arranjo soaria melhor no órgão. Todas as láureas para as polifonias de Bill Bruford e Rick Wakeman, os principais alquimistas destes trecho, mas evidentemente toda a banda colabora para cozinhar os ingredientes que dão o blend faixa preta de "Close to the Edge" — não estamos falando de um tipo de som que você pode curtir despretensiosamente da janela — qui passe — é necessário abrir a porta e entrar nesse lar de maravilhas, sem medo daquilo que você irá encontrar.
Um dos versos desse trecho foi baseado em um sonho que Jon teve sobre mundos paralelos. "Então, com o braço estendido para o espaço / ele se virou e apontou, revelando o esplender da raça humana" – eu me vi numa montanha, revelou Anderson.
Bruford disse que gravar "Close to the Edge" foi como "escalar o Monte Everest". Bom, se chegamos ao topo, agora o Lado B será uma espécie de descida triunfal do topo desta montanha. Após o final das gravações, Bruford deixaria a banda e se uniria ao King Crimson, sendo substituído por Alan White, que teve menos de uma semana para ensaiar o repertório e cair em turnê com novo integrante do grupo.
Yes no palco em 1972. Foto: reprodução |
Lado B
1. AND YOU AND I (Jon Anderson, themes by Bill Bruford, Steve Howe & Chris Squire) (10:09)
I. Cord of Life | II. Eclipse (Chris Squire/Bill Bruford) | III. The Preacher and The Teacher | IV. Apocalypse
Na primeira parte, "Cord of Life", bem no início, os harmônicos de Steve Howe anunciam a nossa chegada a um tipo de refúgio celestial, assim como os acordes — monocromáticos — quase dissonantes e fora de uma harmonia usual do violão de 12 cordas, eis uma canção sem pressa de evoluir. Até que a música progride, saímos de um cenário preto e branco — ou parcialmente iluminado — rumo as possiblidades do tecnicolor de uma passeio campestre. O baixo (excessivamente grave) de Chris Squire e o minimoog mágico de Rick Wakeman brilham, assim como o som do triângulo de Bruford.
Próximo aos três minutos o clima pastoral é parcialmente desfeito, a banda toda estabelece os fundamentos e evoluções do rock progressivo, até retornar de volta ao acústico. Adiante, no subcapítulo "Eclipse", utilizando o mesmo teclado mellotron que está em "Changes", do Black Sabbath, o mesmo Wakeman torna tudo o que ouvimos numa sinfonia progressiva de sons, cores e camadas — o farfalhar do minimoog é o deslumbre desse recorte, assim como a guitarra de Howe é um bicho ululante. Já em "The Preacher, the Teacher", se antes a voz de Anderson estava no fundo da sala, com vocais de apoio processados numa caixa Leslie — para gerar um efeito de distorção —, agora o vocal principal é um sussurro bem próximo do seu ouvido, e assim como no Lado A, com os teclados emulando temas eruditos, o grupo nos entrega o Yes zipado (como define o amigo Romero Carvalho) nessa síntese. Ao final, em "Apocalipse", o viés espiritual hessiano grita alto na letra:
"E você e eu escalamos, irrompendo a manhã / E você e eu buscamos o sol para alcançar o rio / E você e eu escalamos, mais claramente, em direção ao incerto / E você e eu chamamos vales de mares sem fim".
2. SIBERIAN KHATRU (Jon Anderson) (8:57)
De acordo com uma entrevista de Jon Anderson, "Khatru" significa 'como você quiser' no dialeto árabe do Iêmen, e "Siberian Khatru" é uma aventura épica para onde você precisa ir como um ouvinte de rock progressivo. Se você pensa que nada pode ficar ainda maior no álbum, eis que seu castelo de areia desmorona. A vocalização em – "Bluetail, tailfly, Luther, in time, suntower, ask, cover, lover’ – cresce e constrói camadas, e então entramos no solo, quando todo mundo enlouquece", segundo definiu o próprio Anderson. Há melodias e submelodias, solo de citar, de cravo, Chris Squire faz panos de fundo incríveis. A guitarra slide de Steve Howe é a joia da coroa. "Siberian Khatru" poderia ser a faixa 1 de muitos discos do Yes (tanto que se tornou uma das músicas favoritas na abertura de shows), mas acabou no final de "Close to the Edge", o que não é nenhum demérito, assim como "When the Leeve Breaks", uma das melhores faixas de "Led Zep IV", fecha o icônico álbum do Led Zeppelin. Se saímos das planícies e subimos as montanhas na faixa título, chegamos as nuvens e encontramos as divindades do rock progressivo, em "And You and Y". Então, descemos de volta curtindo e desfrutando as benesses dessa jornada numa Ferrari a 220 por hora numa estrada gelada indo para a Sibéria – esse veículo potente é "Siberian Khatru" – um reflexo da experiência da jornada em que o Yes nos levou rumo às múltiplas possibilidades da experiência musical — Tá-tuta-ru-rá! — clássico absoluto do rock progressivo e definidor do próprio gênero.
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