Os 50 anos de "Exile on Main Street" dos Rolling Stones

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Por Márcio Grings

Já falei dessa história, mas vamos lá! Imagine o que  é vender milhões de álbuns em todo o mundo e de repente descobrir que, devido a um contrato malfeito, todos os direitos autorais dos seus discos, singles e canções não pertencem mais ao seu espólio? Esse pesadelo aconteceu com os Rolling Stones na virada dos anos 1960/70. Nome do vilão? Allen Klein, o mesmo empresário que enganou os Beatles. Essa história de como os Stones ficaram com uma mão na frente e outra atrás, além de dever horrores para o fisco britânico, está registrada em vários livros. O fato é que,  Mick Jagger, o ecônomo, gerente de planejamento e estrategista dos Stones, articulou o plano perfeito após o fim de contrato com a Decca Records. Assim surgiria a Rolling Stones Records e "Sticky Fingers" seria o pontapé inicial numa nova encarnação comercial do grupo. Logo depois, o bando inteiro debandaria para a França, uma fuga estratégica longe das garras do Leão inglês. "Depois de trabalhar oito anos, descobri que ninguém tinha pagado os meus impostos e que eu devia uma fortuna. Então disse foda-se e saí do pais", disse Mick após saber que cada stone devia cerca de 100 mil libras para a Rainha.   

Foto: Dominic Tarle

Com invejável assiduidade, "Exile on Main Street" frequenta a lista dos melhores álbuns de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas não é. Em meio ao caos anticriativo em que ele foi gestado, num processo caótico de empilhar retalhos e gravações que pareciam chegar a lugar nenhum, hoje, o álbum soa como se tivesse sido orquestrado e planejado como requintes de perfeccionismo. Como sabemos, não houve um método ou linha de montagem específica naqueles dias em que os Stones se enclausuraram no porão de uma casa Villefranche-sur-mer, em Ville Nellcote, a mansão de Keith Richards e Anita Pallemberg com 16 quartos e vista para o mar. Apesar da beleza paradisíaca do local, quanto a ambiência para gravações, era um lugar úmido, os instrumentos desafinavam, quedas de luz causavam ruídos nas fitas, tudo captado pelo Estúdio Móvel dos Rolling Stones, gerenciado por Ian Stewart e, gravado por Andy Johns, que se viciou em heroína durante uma temporada no inferno com os Stones. 
            
Entre bebedeiras homéricas, visitas de traficantes e delinquentes, exilados da burguesia inglesa que iam e vinham de lá, o casamento de Mick Jagger com Bianca Pérez — as sessões não progrediam, e sete semanas depois do início das gravações nem a primeira faixa ainda não havia sido fechada. "Eu tentei pular neste rio, mas ele tem dez centímetros de profundidade", disse Charlie Watts sobre a morosidade do processo do novo álbum. Veja a live dos 50 anos de "Exile on Main Street" no Pitadas do Sal.         

Foto: Dominic Tarle

O mais inocente e prejudicado de todos era Mick Taylor, o novato nas fileiras do grupo, substituto de Brian Jones. Ele, o guitarrista solo que destruiu o conceito dos Stones, eventualmente criticado por Keith, mas dono de uma técnica exuberante, fazendo da dupla uma soma de estilos diferentes que se encaixavam. Seguindo em frente à espera de que algo brotasse em meio ao caos, os Stones se guiavam pela bússola inconfiável de Keith Richards — o viciado em drogas pesadas prestes a fazer seu testamento com apenas 29 anos. Muitos apostavam as fichas de que Keith seria a bola da vez, a próxima tragédia anunciada do mundo do rock a desaparecer tragicamente. Apesar da estagnação, na manga o grupo tinha alguns coringas reservados para figurar no jogo do novo LP — "Sweet Virginia", "Sweet Black Angel", "Loving Cup", "Stop Breaking Down" e "Shine A Light", praticamente um lado das futuras quatro faces do álbum duplo, 1/4 do trabalho já estava gravado em sessões anteriores, isso entre 1969 e 70.   

Foto: Dominic Tarle

Nessa vida pregressa, dentro do Planeta Rolling Stone, Keith sabia que para viver fora-da-lei era preciso ser honesto (e persistente), e sem se importar sobre como as pessoas o viam, passou por cima de muitas diferenças entre ele e Mick e avançou como comandante melódico desse exílio. Afinal, Mick também cedia em partes, pois sabia que o único ser humano na face da terra que ele nunca conseguiria controlar era Keith Richards. Sabemos: Mick é o rock, Keith é o roll. No palco, "Keith era capaz de jogar uma toalha no ombro e se transformar em Erron Flynn, de Captain Blood", certa vez disse Bill Graham. "Já Mick é o babaca mais talentoso desse negócio", concluiu o mesmo.  E assim, como capítulos de um romance bem escrito, depois de juntarem todo o material gravado nesse caos, a escolha da ordem das faixas é perfeita quando ouvimos "Exile on Main Street", meu álbum favorito dos Rolling Stones.       

Foto: Dominic Tarle

Lado A | Disco 1


 Rocks Off  

O começo perfeito. Estamos num disco do Rolling Stones — guitarras entrelaçadas, naipe de sopros com Jim Price e Bob Keys, Nicky Hopkins ao piano, um Mick Jagger confiante. A letra suja nos enche com a poeira da estrada e pela luxúria que ela traz.   

Aqui rola a lendária história de que Keith adormeceu durante a gravação. Na mesa, Andy Johns não podia parar o take porque o sistema de som estava enguiçado, sem contato entre ele e o local de registro. Keith acorda em torno das três da manhã, mas novamente adormece. Andy resolve ir pra casa e quando meia hora depois chega no seu hotel, o telefone toca e o guitarrista está possesso por que o o engenheiro de som não está lá para continuar a gravação. Andy Johns retorna e a parte de Keith é concluída até o início da manhã.         

Rip This Joint 

O motor continua em alta rotação, um rock que traz à lembrança do som dos anos 1950, novamente com um corpaço dos metais engrossando o caldo, com solos de sax de Bob Keys digno de um King Curtis.        

Shake Your Hips

Sempre vejo os Stones voltando para um lugar legítimo quando esses transam na influência do blues. Um rock-a-boogie com as tintas do bluesman Slim Harpo, um dos favoritos do grupo.      

Casino Boogie

"Casino Boogie" soa como uma demo, uma jam, e traz novamente o blues para a linha de frente do disco, mas novamente num clima festivo, com a referência a um suposto parente de Mick Jagger — Joseph Hobson Jagger, que seria "The man who broke the bank of Monte Carlo".          

— Tumbling Dice

Um caminhão de overdubs foi registrado em "Tumbling Dice". Havia cerca de 50 rolos de fita apenas dessa musica, o que resultava em cerca de 25h de gravação. Devido a dificuldades num trecho específico da música, numa virada de bateria, o produtor Jimmy Miller assume as baquetas na parte final da música. É um dos sons mais vitoriosos do álbum, virou single e marca registrada nos shows, apesar de perder parte do impacto quando apresentada ao vivo. 

Foto: Dominic Tarle

Lado B ! Disco 1


Sweet Virginia

Apesar de algumas fichas técnicas apontarem a participação de Gram Parsons nas gravações, correções históricas afirmam que ele não gravou nada em "Exile". Apesar disso, sua influência está vigente em "Sweet Virginia", uma das canções chave que ligam os Stones ao lado country da força. A gaita de boca de Mick é icônica.         

Torn and Frayed 

Gram Parsons influence again, dessa vez como se fosse uma canção dos Flying Burrito Bros, o vocal espelhado de Keith dá esse blend onde as canções country dos Stones encontraram uma estrada pavimentada por esse espírito vigente nos anos 1970.   

— Sweet Black Angel  

Endereçada a Angela Davies, integrante do partido comunista americano e ativista dos Panteras Negras, eis outra demonstração da força das vozes e Mick e Keith quando alinhadas numa única camada vocal. Se os Beatles tinham em "Blackbird" um elo racial entre suas canções, "Sweet Black Angel" é uma contribuição á altura dos Stones como bandeira da igualdade racial.      

Loving Cup  

Outra das canções vitoriosas de "Exile", "Loving Cup" é uma das faixas gravadas bem antes das sessões de 1971 na França, e novamente a química dos vocais dos Glimmer Twins fala alto. É uma das minhas preferidas, com um toque de soul, pop e uma letra engraçada de uma espécie de andarilho das montanhas em busca de um pequena dose de amor quando desce até as planícies. As guitarras, os metais no final, o piano saltitante, a bateria de Charlie ponteando as viradas, uma canção com a cara dos Stones e digna de figurar entre seus melhores momentos   

Foto: Dominic Tarle

Lado C | Disco 2

Happy  

Montada inicialmente apenas com Keith e Jimmy Miller na bateria, o que parecia ser apenas uma demo tornou-se em uma digital fidedigna de Keith, um das preferidas dos fãs nos shows e anúncio da felicidade do guitarrista ao saber da gravidez de Anita Pallemberg.  

Turd on the Run 

A força dos Stones em transformar uma canção média em algo potente encontra em "Turn on the Run" um bom exemplo dessa capacidade. Há uma mistura de country and western e blues, tudo potencializado pela energia do rock and roll. 

— Ventilator Blues  

Segundo Andy Johns, Mick Taylor recorria a um ventilador 'meia bomba' na janela quando sentia que sua guitarra desafinava devido a umidade e ao calor excessivo. Essa teria sido uma das inspirações de "Ventilador Blues", uma das poucas faixas de Mick Taylor creditadas a ele na discografia dos Stones. O guitarrista teve sua assinatura omitida em outras canções onde poderia ser creditado, uma das causas de sua posterior saída da banda.   

— I Just Want to See His Face  

Apesar da inspiração gospel, a música sempre me lembrou o lado mais sacrílego da música, como se fosse um ritual de vodu, algo ligado as forças obscuras, mas acima de tudo, é uma das cores que formam uma das camadas interessantes do álbum. Essa vontade de ver o rosto do Messias na letra soa mais como descrença do que fé. Os vocais de fundo, bruxuleantes, trazem entre as vozes Clydie King (Ray Charles) e Vanetta Field (Ike and Tina Turner).   

Let It Loose  

Um soul danado de bom fecha mais uma lado do vinil, aqui com vocais de apoio novamente de Clydie King, com ajuda ainda de Dr. John 


Foto: Dominic Tarle

Lado D | Disco 2 


All Down the Line

Primeira faixa gravada e finalizada das sessões na França, traz um riff matador de Keith Richards. O slide de Mick Taylor merece um menção honrosa. O álbum chega ao seu último dos quatro lados sem perder sua força, pelo contrário, tudo se energiza com "All Down the Line".     

Stop Breaking Down 

Mais uma regravação dos Stones de Robert Johnson, aqui meio que desconstruindo os alicerces de um dos clássicos do bluesman que gravou suas canções na década de 1930. Johnson foi uma das principais influências tanto do rock britânico quanto do blues de Chicago, entre outras variantes. É um dos melhores momentos blues do disco. Mick novamente mostra que sabe usar uma gaita diatônica, ao estilo dos grandes gaitistas de blues.      

— Shine a Light

Mais uma das faixas registradas bem antes do exílio na França. Aqui os Stones se aventuram no gospel com um sucesso invejável. Clydie King e Vanetta Field estão nos vocais do fundo, o que empresta ainda mais legitimidade com essa intenção de volta ás raízes, assim como o Hammond B3 de Billy Preston carimba tudo que precisa ser carimbado. 36 anos depois de seu lançamento, "Shine a Light" (2008) batizaria um documentário musical dos Stones dirigido por Martin Scorcese.     

Soul Survivor

O navio pirata guiado pelo Stones pela sul da França finalmente parte de volta para casa, não sem algumas avarias, mas como alma sobrevivente, como legenda, novamente está pronto para zurzir adiante com confiança, como corsários pilhando o mundo com sua bandeira de liberdade:

"Avançando direto sobre as rochas / Eu tenho tomado todos os golpes / Você não me oferece nenhuma piedade". E cada pequena morte, sempre há o renascimento.  

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