Secos & Molhados (1973), faixa a faixa com Gérson Conrad no Pitadas do Sal


Por Márcio Grings

Em 2023, ano em que o LP de estreia do grupo completa 50 anos, a TV Globo deve, finalmente, tirar da gaveta o projeto de série que revisitará a história do Secos & Molhados. As gravações serão iniciadas no próximo mês de junho. A série deve ser lançada, também, em formato reduzido nos cinemas, como um filme. Segundo especulações iniciais, os atores Gabriel Leone, Mauricio Destri e Caio Horowitz estão no elenco: respectivamente eles estarão na pele de Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad.

Paralelo a isso, um documentário, com quatro episódios, também está em produção pelo Canal Brasil. O roteiro vem inspirado em “Primavera nos Dentes: a história dos Secos & Molhados”, livro de Miguel de Almeida.

Ney Matogrosso, que raramente retorna à época do Secos em suas entrevistas e postagens nas redes, sistematicamente vem publicando fotos dos anos de 1973-74, a última delas foi postada ontem no seu Instagram, e traz uma imagem dos três integrante do grupo juntos na mesma imagem com a legenda: “1974”. Quem viver verá.

Veja a live no Pitadas do Sal do álbum de estreia do Secos & Molhados (C/ Gérson Conrad).

   

O LP de estreia do Secos & molhados possui apenas 30 minutos, mas é uma das metades de hora mais avassaladoras de um álbum editado aqui no Brasil. Poucos discos fizeram tanto barulho, 13 músicas — três delas tem apenas um minuto; sete faixas possuem pouco mais de dois minutos; a mais longa das canções, “Primavera nos Dentes”, não alcança cinco minutos. O LP, já no seu ano de lançamento, superou a marca de 1 milhão de  exemplares vendidos. O álbum traz ainda um resgate da poesia em língua portuguesa: de Fernando Pessoa a João Apolinário, de Manuel Bandeira a Vinícius de Morares, de Cassiano Ricardo a Solano Trindade, novos/poetas compositores como Luli e Paulinho Mendonça, o disco é um livro de poemas, mesmo que indissociável de seu conteúdo musical, a maior parte de que é cantado possui teor literário. A capa com as cabeças maquiadas sobre uma bandeja numa mesa colonial, não por acaso é frequentemente lembrada como uma das capas mais geniais de todos os tempos. A revista Bizz a elegeu como a quarta maior da história, à frente da capa de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967) dos Beatles, o que não é pouca coisa.   


Com o Secos, “o que era estranho passou a ser vista como algo precioso”, o que era insólito passou a ser referência, o que era aparentemente extraterreno, nos sintonizou com o glam rock norte-americano e britânico, sincronizando  — pela primeira vez  — o pop da daqui com o pop de lá. Gravado em apenas 15 dias, em sessões de seis horas diárias numa mesa de quatro canais, com início das gravações em 23 de maio de 1973, avançando até o início de junho no Estúdio Prova, em São Paulo. Confinados no mesmo espaço estavam além de Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad, além dos seguintes músicos: Willy Verdauguer, John Flavin, Emilio Carreras, Marcelo Frias e Sérgio ‘Gripa’ Rosadas. Zé Rodrix viria depois e faria arranjos e participações. Com essência acústica, as canções flertariam fácil com o rock e transariam com várias vertentes, culpa do time de músicos experientes, entre eles integrantes do grupo argentino Beat Boys.     

O Pitadas do Sal convidou um dos protagonistas desse célebre recorte de nossa história cultural para relembrar, faixa a faixa, como foi a criação de “Secos & Molhados” (1973). Abaixo segue algumas das visões de pessoais de Gérson Conrad, autor de um dos maiores sucessos do grupo, “Rosa de Hiroshima”, adaptada de um poema de Vinícius de Moraes. O que está em negrito azul são breve falas de Conrad. A live completa você vê AQUI 


LADO A

SANGUE LATINO

Um cartão de visita — ou melhor — uma carta de intenções do Secos para o ouvinte. Trata-se de uma das melhores faixas de abertura de todos os tempos. A letra de Paulinho Mendonça — musicada por João Ricardo — dá o toque do momento político brasileiro naquele início de anos 1970. O baixo de Willy Verdauguer faz os falantes tremerem com o grave característicos das boas gravações.  

"Éramos marinheiros de primeira viagem, mas lembro que a gravamos em poucos takes".  

O VIRA

Rearranjada por Willy Verdauguer, com a ajuda de Zé Rodrix, "O Vira" é um dos furações responsáveis pelo sucesso do primeiro álbum, parceria de João Ricardo com Luhli. Com acentos folclóricos, regionalistas, nordestino, de música portuguesa e rock and roll, até hoje é uma das canções indissociáveis da imagem do Secos. 

"A música era limitada a violão e voz, numa linguagem folk. No estúdio as canções se transformavam — pura química". 

O PATRÃO NOSSO DE CADA DIA 

Fernando Pessoa pela versão do Secos. “Eu já não sei se sei/ De tudo ou quase tudo/ Eu só sei de mim/ De nós/ De todo o mundo”. O sino que percute no início e no fim da música nos leva até uma cidadezinha qualquer num fim de mundo, no sertão 'da flor de cactos' ou na confusão das metrópoles onde 'soltamos ar no fim do dia' — cansados de gastar a sola dos sapatos no asfalto e no concreto asfixiante. A flauta e o violão nos dão a certeza que nenhuma acompanhamento será necessário além da voz de Ney Matogrosso. 

"Em uma tarde da casa do Nei, João Ricardo apresentou uma balada rock para nós. Eu peguei o violão e a transformei no que é ouvido no LP".      

AMOR

Aqui, o pai de João Ricardo, o poeta português João Apolinário revela sua primeira letra no LP: "Simples e suave coisa nenhuma quem em mim amadurece"É um folk progressivo, com ares quase de um blues, culpa da costura na gaita de boca. 

"A coisa mais gratificante de 'Amor' foi o resultado do nosso trabalho vocal".       

PRIMAVERA NOS DENTES

Mais uma parceria entre João Ricardo e João Apolinário, seu pai. "Primavera nos Dentes" é puro blues e começa com uma longa passagem instrumental com direito a o mais longo solo de guitarra de John Flavin. Ney, Gérson e João começam a cantar em coro quando a música se aproxima dos 3 minutos, quebrando o silêncio vocal. No final, o fade out interrompe mais um solo do guitarrista e encerra o lado A do vinil. 

"O grande destaque desta faixa é a sensibilidade da bateria de Marcelo Frias nas respostas do bumbo ao baixo de Willy. A performance é impecável".          

LADO B

ASSIM ASSADO

Inicialmente arranjada ao estilo das canções de Crosby, Stills & Nash, um das paixões de João Ricardo e Gérson Conrad, a música vira um rock and roll no estúdio e se distancia dessa intenção original. A letra evoca o Guarda Belo do desenho Manda-Chuva (Top Cat), uma criação da Hanna-Barbera. O Guarda Belo da letra (ou Officer Diblle), uma autoridade policial aparentemente um tanto engraçada, faz uma inteligente alegoria com os tempos de repressão daquele período no país.     

"Foi uma faixa que causou muito espanto na época, pois tocávamos numa questão social ligada ao [inclusive] ao racismo".   

MULHER BARRIGUDA

O piano de Emílio Carrera dá um tom picaresco de rock dos anos 1950. O baixo de Willy Verdauguer é outro ponto alto. A gaita de João Ricardo empresta ares de blues."Mulher Barriguda que vai ter menino/ Qual o destino que ele vai ter/ Que será ele quando crescer?/ Haverá guerra ainda?". 

A música é uma adaptação de João Ricardo para um poema de Solano Trindade, poeta folclorista, pintor, ator, teatrólogo, cineasta e militante do Movimento Negro e do Partido Comunista.  

"É uma música com a característica vocal do Secos e levou alguns takes para chegarmos onde queríamos".         

EL REY

"El Rey" revela o talento de Gérson Conrad para os espanholismos, ele, pupilo do violinista e exilado uruguaio Juan Mateo, seu professor em Porto Alegre, cidade onde morou entre 1964 e 1967. A letra é surrealista, nonsense, meio Salvador Dali e tresloucada como o Barão de Münchhausen que um virou filme de Terry Gilliam, do Monty Python. 

"Eu vi El Rey andar de quatro/ De quatro poses atraentes/ De quatrocentas velas feita duendes".

"Eu costumava fazer uma exercício de violão de dedilhado, e João Ricardo ficava encantado com aquilo. Foi esse exercício que utilizei em El Rey".   

ROSA DE HIROSHINA

O poema supremo de Vinicius de Moraes contra a bomba atômica na versão de Gérson Conrad. 

"Eu cheguei em casa e atirei uma antologia poética de Vinicius de Moraes (emprestado por João Ricardo) na minha escrivaninha e o livro caiu aberto em Rosa de Hiroshima. Me impactou de cara. Fui dormir, e lá pelas três horas da manhã acordei com o poema retumbando na minha cabeça. A melodia não briga com o poema, ela o enfatiza", e potencializa a brutalidade da temática.     

PRECE CÓSMICA

"Prece Cósmica" se assemelha a uma ode à arte, ao espírito mambembe de um grupo na estrada, da poesia. Musicada de um poema do poeta paulistano Cassiano Ricardo, na canção brilha a guitarra de John Flavin e os vocais do trio de cantores, uma das características do Secos.   

"Retratava muito para mim a própria imagem do Secos & Molhados no palco". 

RONDÓ DO CAPITÃO 

“Bão balalão, Senhor Capitão/ Tirai este peso do meu coração”. O poema de Manuel Bandeira, escrito na década de 1940, traz ludicidade e um espírito renascentista na flauta e no violão. 

"João Ricardo gostava de usar faixas curtas".  

AS ANDORINHAS

Mais um poema pinçado de Cassiano Ricardo, "As Andorinhas" consegue causar melodicamente o mesmo impacto que o poema causa quando olhamos para a folha de papel. Concretismo, minimalismo, um preparo que faz a cola para para o baixo de Willy Verdauguer e a percussão das baquetas de Marcelo Frias na música seguinte.  

"Essa busca de João Ricardo por vinhetas musicais era intencional".     

FALA

Do arranjo original numa sanfona, Zé Rodrix foi o responsável pelo solo de Moog que se transformou num dos momentos marcantes da derradeira faixa do Lado B. Há um flerte de leve com "Isn't It a Pity" de George Harrison, conformado por Gérson: 

"Eu mostrei para João Ricardo e ele ficou encantado com a sequência de acordes da música de George. Poucos dias depois ele chega com a melodia de Fala, que é uma inversão dos acordes de "Isn't It a Pity".          

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