55 anos de “Between the Buttons”

Foto: Gered Mankowitz

Por Márcio Grings 

Depois de “Aftermath” (1966), primeiro disco em que todas as composições são assinadas apenas por Mick Jagger e Keith Richards, “Between the Buttons” segue no mesmo riscado e firma a liderança da dupla como grandes detentores do espólio intelectual dos Stones. A versão britânica omite “Let’s Spend the Night Together” e “Ruby Tuesday” (as duas lançadas como singles) e traz “Back Street Girl” (que é uma música belíssima, com orientação folk e até acordeom) e “Please Go Home” (pura influência de Bo Diddley, mas nada demais além disso). Lembrando que a discografia dos Stones seria unificada a partir do disco seguinte, “Their Satanic Majesties Request”, lançado no mesmo ano de “Between the Buttons”, que chegou às lojas em fevereiro de 1967. 

Veja a live dos 55 anos de "Between the Buttons" pelo Pitadas do Sal  

“Between the Buttons” é um ponto de partida, não de chegada. Apenas “Miss Amanda Jones”, “All Sold Out” e “Please Go Home” lembram de alguma forma o som clássico dos Stones. O álbum traz uma mistura de pop, country, folk, vaudeville e vários experimentos. Com isso, Brian Jones ataca com as armas que tem. Excluído do processo de composição, no álbum ele toca: mellotron, marimba, saltério, kazoo, citar, gaita de boca, piano, dois tipos de flauta, teremim, teclado, cravo, tuba, trompete, clarinete, saxofone, alguma coisa de guitarra e sabe-se lá mais o quê. É o grande destaque do disco: disparado!

Gered Mankowitz

“Between the Buttons” trambém se tornou mais conhecido pela sua capa, pois a foto de Gered Mankowitz é uma das mais icônicas do grupo nos anos 1960, uma imagem que perde o foco nas bordas (efeito em que o fotógrafo utilizou vaselina nas lentes para obter esse resultado), codificado com o ácido que eles utilizavam, como distorção da realidade. Mankowitz lembra que foi difícil fotografar Brian Jones, cada vez mais 'o garoto problema' da banda. Naqueles dias, os Stones entravam às 10 da noite no estúdio e só saiam do Olympic Studios às 6 da matina. A Foto foi feita após eles concluírem uma dessas sessões, em torno das 7 da manhã. De lá foram até Primrose Hill, do lado oposto de Londres, a 25 minutos de carro do estúdio. O fotógrafo disse a Andrew Oldham, na época produtor e manager dos Stones, que queria a luz do alvorecer para clicar a sua imagem para a capa do novo álbum. E nesse horário “Eles pareciam exatamente os Rolling Stones!”, disse Mankowitz: O fotógrafo comentou que não conseguia acertar a foto, pois Brian Jones não ficava parado, sempre se movimentado, conturbando a sessão. No final, o resultado mostra a presença mefistofélica de Brian como principal destaque na capa de “Between the Buttons”. Deu certo, a foto era sim puro Stones. 

Gered Mankowitz

Esse conjunto de canções empacotada em ambas as versões soa mais britânico do que americano, letras e músicas, algo que antes deste disco surgia mais acentuado, e que depois, adiante em sua carreira, novamente voltaria a acontecer. Não é o melhor álbum dos Stones nos anos 1960, não está no meu top 5 de nada da discografia da banda, mas é um disco de reafirmação de que Mick Jagger e Keith Richards poderiam se virar como compositores, é o último trabalho com Andrew Oldham, que se despede da cadeira de produtor da banda, e seria o último LP do quinteto que teria versões americanas e inglesas, pois a partir do álbum seguinte, esses lançamentos seriam unificados. É um ponto de virada por todos esses ingredientes. No passo seguinte, "Their Satanic Majesties Request”, eles derrapariam, mas logo depois, viria o gol de placa com “Beggar’s Banquet”. Mas essa é outra história...          

"LET’S SPEND THE NIGHT TOGETHER"

É uma canção símbolo do grupo e que ainda hoje crava seu lugar nos setlists. Na época, quando se apresentaram no Ed Sullivan Show, foi sugerido pelo apresentador que eles trocassem “spend the night” (passar a noite) por “some time” (algum tempo). Fizeram a concessão e Mick cantou “vamos passar um tempo juntos”, não sem antes revirar os olhos quando a câmera fitava seu rosto nesse instante da letra. Lembrem-se que tanto na Inglaterra quanto nos Estado Unidos, somente casais casados passavam a noite juntos numa época pré-revolução sexual. “Let’s Spend the Night Together” é um convite em alto e bom som para que os casais solteiros tivessem o mesmo direito. Apesar da ausência de metáforas e requintes poéticos, essa inssurgência comportamental - datada - ainda é um dos temas indissociáveis à memória dos Stones. Minha versão favorita está no álbum ao vivo “Still Life”, de 1982, tour que documenta o rastro que os Stones deixaram nos Estados Unidos logo após o lançamento de “Tatoo You”. Recomendo o filme/documentário homônimo dirigido por Hal Ashby, que simplesmente eu assisti centenas de vezes.

 “YESTERDAY’S PAPER"

O início é pre-punk, culpa da linha de baixo e bateria. “Quem quer os jornais de ontem, quem quer a garota de ontem”. Já nos braços de Marianne Faithful, Mick Jagger se despede de Crissie Shrimpton, sua ex-namorada em “Yesterday’s Paper”. A marimba de Brian Jones e os vocais de apoio ao estilo das bandas inglesas daquele período, selam a música com o lado britânico da força. Em tempos atuais, “Yesterday's Papers” certamente estaria sujeita a críticas feministas, principalmente pela comparação de uma mulher com um papel velho qualquer que pode ser jogado no lixo.   

"RUBY TUESDAY"

Segundo Marianne Faithfull, “Ruby Tuesday” teria sido composta por Brian Jones e Keith Richards, sem Mick Jagger. Ela diz que tudo começou com um fragmento de uma melodia de Brian, de onde surgiu a faísca inicial do tema, algo elizabetano tocado na flauta doce, que Keith não deixou passar batido. A mesma “Ruby Tuesday”, o pop barroco que tive a chance de ver com roupas novas ao vivo no show de 2 de março de no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Um dos melhores momentos do LP na versão americana.  

“CONNECTION"

“Eu simplesmente não consigo fazer nenhuma conexão”. A “conexão” proposta pela  música tem múltiplos significados: pegar um voo, uma garota, “ligar os pontos”. Mas é provável que os Stones estivessem ligando o plugue nas drogas. Ramblin' Jack Elliott gravou uma boa versão apenas um ano depois de “Between the Buttons”, enfatizando o subtexto da conexão humana e o trânsito com a música country. "Connection" foi revivida no documentário "Shine A Light" (2008), sendo usada como um dos momentos solo de Keith Richards.  

"SHE SMILED SWEETLY"

Uma música sem guitarras, quase um blues, com participação de Jack Nitzsche nos teclados. Aqui, na letra, Mick Jagger é consolado por uma mulher de extrema sabedoria, uma tentativa de redenção - ou de equilíbrio - após ter queimado o filme com as feministas em "Yesterday's Paper".    

"COOL, CALM & COLLECTED"

Ao estilo dos pianos de parede dos saloon dos filmes de western, a pegada honk-tonk de Nick Hopkins e o kazoo de Brian Jones colocariam essa música facilmente na trilha-sonora de faroestes à italiana do final dos anos 1960.  

"ALL SOLD OUT"

Charlie Watts e as vozes de apoio de Richards empurram “And Sold Out”. O velho escudeiro de sempre, Ian Stuwart está ao piano.     

"MY OBSESSION"

Nos primeiros segundos a levada de Charlie Watts lembra “Get Off of My Cloud, mas “My Obsession” é uma música menor do álbum, onde reza a lenda de que Brian Wilson estava no estúdio, visitando os Stones e parece ter se assombrado com tanta comida, bebidas, drogas e mulheres dentro do Olympic Sound. Detesto a levada da bateria, mas era o que a essa fraca canção pedia: apenas um acompanhamento qualquer. Uma curiosidade: o baixo de Keith Richards é ao estilo dos baixos pesados das bandas de hard ou punk dos anos 1970. O Grand Funk Raolroad ampliaria isso aos extremos três anos depois.       

"WHO’S BEEN SLEEPING HERE?"

É lugar comum dizer que Bob Dylan pode ser o ponto de partida de inspiração para “Who’s Been Sleeping Here?”. Brian Jones está na gaita de boca.    

"COMPLICATED"

É complicado, mas eu detesto guitarra com fuzz. Ainda bem que é apenas um acorde. As vozes de apoio de Keith são legais. A parte B instrumental com a bateria dando uma ambiência percussiva é um dos bons momentos do som.  

"MISS AMANDA JONES"

Aqui Keith Richards acerta a mão e apresenta um riff chuckberiano. Uma música que preconiza o que os Stones fariam nos anos 1970. Um dos bons momentos do disco. Brian tinha um flerte com uma modelo e cantora chamada Amanda Lear, possível inspiração da letra. Ela também foi uma das musas de Salvador Dali. Amanda era uma mulher misteriosa e pouco se sabia dela, o que provocava muitos rumores sobre suas origens e sexualidade.   

"SOMETHING HAPPENED TO ME YESTERDAY" 

Foi Brian Jones que montou essa colcha de retalhos, como vocais divididos entre Keith e Mick. Brian toca guitarra, teclado, instrumentos de sopro como trompete, clarinete e tuba, além de flautas. Parece uma orquestra, mas é Brian one-man-band. E lembre-se: ele não é creditado como coautor. É, havia motivos para o loiro diabólico ter suas queixas como membro dos Stones. Assim como os Stones, Anita também um dia foi dele, mas em breve até ela não estaria mais debaixo dos seus lençóis, não é mesmo, Keith? 

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