Pink Floyd: os 45 anos de "Animals"

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Por Márcio Grings

A música do Pink Floyd envelhece como um bom vinho. Não por acaso seus discos continuam vendendo milhões, assim como os temas explorados pelo grupo mantém um raro frescor, invariavelmente dialogando com diversos dilemas atuais. “Animals” é um dos discos mais sisudos do Pink  Floyd, é anticomercial, foi gravado em meio a ascensão do punk, tempos em que o rock progressivo descia ladeira abaixo. É o disco em que a unidade da banda é quebrada, mas, do alto de seu púlpito, Roger Waters assume o leme, hasteia sua bandeira — e como comandante da nau floydiana — decide o destino do grupo que ajudou a criar. Como diria Walt Whitman: "Oh, Captain! My Captain". E como waterista convicto, celebro o nosso comandante...    

Veja o live streaming dos 45 anos de "Animals" no canal Pitadas do Sal

Pink Floyd durante o tour de "Animals" 


Imaginem um mundo onde cães, porcos e ovelhas dominam o planeta, cada espécie com diferentes características desenhadas para refletir as fragilidades dos seres humanos. O conceito de “Animals” foi pinçado de “Animals’s Farm” —  A Revolução dos Bichos  —, livro de George Orwell. Enquanto o romance foca no comunismo, o álbum critica o capitalismo, mas ambos defendem os ideais do socialismo democrático. No livro, os porcos são os animais mais inteligentes e originam a ideia de uma rebelião contra o opressor propretário da fazenda. Os porcos administram a fazenda e abusam de seu poder. Eles usam os cães como polícia secreta, matando aqueles que consideram traidores. As ovelhas são a massa irracional que segue os caprichos dos porcos, por mais ridículos que sejam. Em vez de criticar o sistema político de Stalin, Waters usou a metáfora das pessoas escravizadas ou sujeitas ao capitalismo. Em "Animals", os porcos são ditadores com medo do desconhecido, mas querem decidir o que é melhor para todos. Os cães são fantoches corporativos —  implacáveis — ​​que usarão todos os meios necessários para subir ao topo dessa escala social. Os porcos usam os cães para manter as massas —  as ovelhas — mansas e subservientes. 

Todas as canções do álbum foram escritas apenas pelo baixista, exceto “Dogs”, parceria com David Gilmour. Essa é a primeira vez que Rick Wright não assina uma canção num álbum do Pink Floyd. De todo o modo, apenas o baixista trouxe ideias novas para as novas sessões de gravação de 1976 (o mesmo ocorreria em 1979). Assim, quando “Pigs on the Wing” foi dividida em duas partes, a maior parte dos lucros das futuras vendas do LP seriam de Roger, um detalhe importante que alargou a fissura entre os integrantes. De todo o modo, quando nos baseamos no filtro do teste do tempo, “Animals” chega aos 45 anos com suas cores ainda mais vívidas, relevante, seguramente elencado como um dos grandes momentos da discografia do Pink Floyd, subindo a régua do rock progressivo quando o gênero praticamente era soterrado pelo punk e pelas ondas da moda em 1977 (pela menos na imprensa, já que as vendagens dos álbuns continuavam excelentes).


Uma grande prova da maleabilidade do álbum está representada na turnê Us + Them de Roger Waters, que passou pelo Brasil em 2018. Durante um intervalo no show, o telão trouxe mensagens de alerta a violações dos direitos humanos. De súbito, a representação da usina termelétrica de Battersea surge imponente com suas chaminés fumegantes. É um momento político, de protesto; “Dogs” e “Pigs” estão no set como missivas endereçadas a Donald Trump, presidente norte-americano daquele período. Ele também bate em Bolsonaro. Enquanto isso, Augie, a porca voadora que está na capa do disco, sobrevoa a pista como um permanente avatar da nossa lembrança. Se essa maleabilidade em deslocar o álbum no tempo e torná-lo algo atual não é uma prova cabal do sucesso de “Animals”, então que alguém me redefina o conceito de sucesso e da atemporalidade de uma obra.

Gravado no Britannia Row Studios, em Londres, de abril de 1976 até o início de 1977, “Animals” foi lançado em 2 de fevereiro de 1977,  novamente embalado para às lojas no conceito artístico de Storm Thorgerson, comandante da agência Hipgnosis, colaborador de longa data do grupo. Na imagem da capa, um porco voador surge entre duas das quatro torres da usina de battersea, termelétrica localizada às margens do rio Tamisa no bairro londrino de Wandsworth. Para registrar a cena, uma enorme porca inflável de quase 10 metros foi projetada para a sessão fotográfica, com catorze fotógrafos contratados, além de um atirador de elite. Quando a sessão foi remarcada (por um problema ou outro), o atirador não estava lá e a porca escapou. O animal voador de plástico colocou a banda nos noticiários e bagunçou o tráfego aéreo da região. Subiu a mais de 5 mil metros e caiu numa fazenda em Kent, cujo fazendeiro ficou furioso pelo bicho ter afugentado duas vacas. No fim das contas, a imagem do porco com asas na capa foi feita em estúdio, o que não impediu de imortalizá-la como uma das imagens mais icônicas do Pink Floyd.

"Animals" é o mais pólítico dos discos do Pink Floyd, embretado entre "Wish You Were Here" e "The Wall", é um álbum subestimado na discografia do grupo. Por outro lado, é um trabalho que se tornou objeto de culto entre os fãs mais ferrenhos, consagrando-o como um dos maiores triunfos da banda inglesa.     

PIGS ON THE WING (PART I) 

“Se você não se importasse com o que aconteceu comigo. E se eu não me importasse contigo. Andaríamos ziguezagueando através do tédio e a dor. Ocasionalmente espiando através da chuva. Indagando qual dos vagabundos iremos culpar enquanto observamos os porcos voadores”.   

O mais político dos álbuns do Pink Floyd começa com uma canção de amor. Afinal, o amor nos move em todos os campos políticos da vida. Dividida em duas partes, abertura e fechamento do LP, “Pigs on the Wing” é endereçada a esposa  de Roger Waters na época, Carolyne Christie. No tema, estão apenas Waters e seu violão, vibrando no espírito minimalista do folk, em contraste com a parafernália instrumental que define o álbum. É uma ótima escolha, dá um tom de esperança num disco pesado em sua temática, monocromático, como ainda passa o recado de que só amor pode nos salvar, pois “qualquer tolo sabe que até um cachorro precisa de um lar” (como o letrista nos lembra na parte II).  Todas as músicas do disco, exceto as duas partes de “Pigs on the Wing” (que não somam 3 minutos), passam dos 10 minutos.  

Abaixo você houve a versão da canção com as duas estrofes unidas + o solo de Snowy White, guitarrista de apoio que trabalhou na turnê e também participou das gravações de "Animals". Esse take de "Pigs on the Wing - part I e II) foi o único que ficou registrado com sua atuação.      

 
 
 DOGS 

Com 17 minutos, “Dogs” brada a natureza predatória dos homens de negócios. Gilmour está nos vocais. — é a música dele em "Animals" — Waters surge só na última parte. Alguns críticos notaram semelhanças com a escrita de Allen Ginsberg em “Howl”, um dos poemas que definiram a geração beat, principalmente na parte final na série de “Who was”, o que foi negado por Roger. A comparação com os cães está no exercício de domesticação de ser apenas mais um — "treinado para não cuspir no ventilador", servientes aos superiores ("com coleira e corrente"); recompensados por não reclamar depois de receber ("um tapinha nas costas"); escravizados pelo bem maior, a empresa , para assim se destacar e ("romper com a matilha"); colher os louros da notoriedade de se tornar popular como homem de negócios, mas sem tempo para a família, afinal agora você se tornou ("apenas um estranho em casa"), para no final da vida, acabar sendo (“apenas mais um velho morrendo de câncer”). Musicalmente temos o brilho inconfundível de David Gilmour iluminando o disco, pois, numa música sem refrão, a guitarra emula todo o poderio tímbrico que o tornou uma das lendas do rock. A guitarra faz as vezes do refrão em “Dogs”. Os teclados de Wright emulam o tom sinistro, com os latidos e uivo de cães aterrorizando esse personagem que está perdido na linha de montagem da vida, preso a sua rotina como o protagonista de “Tempos Modernos“ de Charles Chaplin.

 
 PIGS (THREE DIFERENT ONES) 

“Pigs” é a mais virulenta, sórdida e agressiva das letras de “Animals”, fala sobre os que representam a classe mais alta da pirâmide, que encorajam a competitividade dos que estão embaixo e tiram proveito de sua exploração. Critica os empresários sem escrúpulos, sua falsidade, a velhacaria dos donos das grandes empresas que dominam o mercado, os políticos, principalmente os conservadores e, por último, mas não menos importante: a classe média, que detém pequena parte do poder econômico e tende a ser indiferente aos problemas sociais que afetam a classe trabalhadora. O tema não soa familiar, nobre leitor? A música ainda dispara contra à censura, critica às instituições, e cita nominalmente Mary Whitehouse, ativista social inglesa conhecida pela sua forte oposição ao liberalismo social. Gilmour se utiliza de um talk box para imitar o som de porcos com sua guitarra, mas também toca baixo fretless, sendo responsável por dois solos curtos, com destaque para o início da faixa, quando a sequência de acordes do teclado de Wright fica na linha de frente, até o guitarrista evoluir no emaranhado de suas teias de seis cordas e efeitos. Apesar da suposta castração artística, Gilmour domina as ações.  

 
 SHEEP 

Na penúltima faixa da jornada de “Animals”, Waters agora se volta à servil classe trabalhadora. “Passando meu tempo no pasto distante. Vagamente atento a um certo desconforto no ar”. Aqui a discussão está baseada na passividade em aceitar o destino de exploração, de fechar os olhos para as mazelas e seguir adiante, ignóbil como um ovelha sendo guiada por um entediado pastor rumo a desolação. O rebanho, que pode ser associado a uma religião onde os fiéis são as ovelhas que seguem o seu pastor (embora esta analogia esteja mais relacionada com o Cristianismo), está presente também no meio da música com a citação bíblica do “Salmo 23” enunciada por meio de uma voz transfigurada. Quem nunca se viu alguma vez na vida como gado, apenas seguindo o fluxo, como um cego sendo guiado por um cão pastor? “Sheep” traz todas as dinâmicas, vai e vens e oscilações do rock progressivo, com o Floyd em estado de graça, todos os integrantes brilham, muitos ingredientes fervilham, e o quarteto atua como um time que sabe que já ganhou o jogo, mas ainda dispostos a nos mostrar suas habilidades. 

 
 PIGS ON THE WING (PART II) 

“Você sabe que eu me importo com o que acontece contigo. E sei que você também se importa comigo. Então, não me sinto sozinho ou pesado como uma pedra, pois encontrei um lugar seguro para enterrar o meu osso. E qualquer idiota sabe que até um cachorro precisa de um lar. Um abrigo contra os porcos voadores”. 

Cães e porcos na letra, só faltaram as ovelhinhas pulando a cerca, que pode ser simbolizada na visão de um casal vivendo na sua casa, (talvez) felizes para sempre... Circular. voltando ao início, simples e direto, Animals dá adeus e nos faz não aceitar esse adeus, pois há 45 anos continuamos tirando ovinil do envelope e recolocando o LP no toca-discos.  

Veja a versão de "Pigs on the Wing" de Vinicius Brum (Canal Memorabilia).
   
Animals (1977) expressa não apenas a amargura de Waters em relação ao mundo que o cercava, mas da própria Inglaterra daquele período, tanto num contexto social quanto político. Indo além, o disco estabelece um diálogo com as questões que envolvem a realidade de hoje, pois não rompemos totalmente com tais discursos, pelo contrário, ainda continuamos fazendo as mesma perguntas, e ainda continuamos sem respostas para muitas dessas indagações. 

Ouça "Animals" na íntegra.  


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