Os 50 anos de "Transa"


Por Márcio Grings

Eu era um moleque na segunda metade dos anos 1980 e meu radar apontava para o rock and roll. A MPB era carta fora do baralho para aquele jovem que acabara de descobrir o poder de um LP do Deep Purple, Led Zepppelin e as mil janelas abertas na música de Bob Dylan. “Transa” aterrissou no meu toca-discos e bagunçou esse conceito separatista. "Transa parece vislumbrar a cultura do sample e do mashup tal a quantidade de citações e referências costuradas no repertório bilíngue, escrito em português e inglês", relembrou o jornalista Mauro Ferreira em sua coluna no G1. Mas, como assim, "transa"? Uma reportagem da revista Veja publicada em 19 de abril de 1972 explica esse conceito: “Na linguagem da moda, a palavra ‘transa’ tem a mobilidade das ideias vagas. Em resumo, pode referir-se desde transações comerciais ao negócios mais abstratos, envolvendo ou não duas e mais pessoas". E é nesse vasto campo de possibilidades que se desenham os limites do novo LP de Caetano Veloso”.

Veja a live dos 50 anos de "Transa" pelo Pitadas do Sal   

Em retrospecto, precisamos lembrar de como estava a vida de Caetano um pouco antes de "Transa" chegar às prateleiras em janeiro de 1971, quando ele tinha 29 anos. Entre julho de 1969 e janeiro de 1972, Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam exilados em Londres. Tempos de ditadura, uma barra pesada para os artistas naquela virada de década. A Philips, gravadora de ambos, bancou seis meses de adaptação da dupla no bairro de Chelsea, na capital inglesa. Época em que o tropicalismo migrou do rótulo de rock para MPB. Caetano e Gil contavam com o dinheiro de direitos autorais para engrossar as suas rendas, e com isso, várias artistas entraram numa onda solidária para regravar canções dos baianos. No segundo semestre de 1969, Caetano recebeu a visita de Roberto Carlos, que logo depois compôs “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” e ainda regravou ”Como dois e dois”. 

Caetano e Gil em Londres.  

Aqui no Brasil, André Midani, que havia assumido a direção da Philips, tentava negociar um contrato internacional dos brasileiros com a matriz da gravadora. Mas a negociação estava emperrada, assim como nem mesmo apresentações eles tinham agendadas por lá. A chave virou quando Leslie Gold, um diretor da Philips, montou um selo independente, mas ainda atrelado a gravadora. Daí eles finalmente colocaram a mão na massa e gravaram seus LPs. “Caetano Veloso” é o disco de “London, London”, de 'If You Hold a Stone" e da versão arrepiante de “Asa Branca”, nascendo como álbum no segundo semestre de 1970. Já o álbum de Gilberto Gil, lançado em abril de 1971, tinha um cover aliterado do Blind Faith e um certo Mick Ronson como guitarrista (o futuro escudeiro de David Bowie e Bob Dylan). 

Em janeiro de 1971, Caetano conseguiu autorização pra ficar um mês no país, por causa da celebração dos 40 anos do casamento dos pais. Depois de cair na gandaia por aqui e ser evasivo em todas as entrevistas para não ser preso novamente (e tem gente que acha que a ditadura não existiu), Caetano volta para Londres com a cabeça fervilhando. Convenceu os executivos a fazer um disco brasileiro com músicos brasileiros. Com isso vieram Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza – o time que faria a base instrumental de “Transa”, tornando-o um disco de banda, como o próprio Caetano já disse. Eles ensaiaram as canções numa igreja, foram direto para o estúdio onde fizeram as sessões de gravação ao vivo, no formato de jam session. O LP foi produzido pelo produtor e músico britânico Ralph Mace, que meses antes tocou teclados no álbum "The Man Who Sold the World" (1970), de David Bowie. Após o lançamento do álbum, Jards reclamaria seus direitos como arranjador.             

Caetano, Jards Macalé e o time de músicos que gravou "Transa".   

"Transa" é um disco que flerta com a universalidade, transa com a saudade de casa, é afrobrasileiro, baiano e cosmopolita. É rock and roll, traz sutis camadas de blues, acena por reggae, e ainda promove a inusitada estreia de uma jovem carioca de 22 anos, Angela Maria Diniz Gonsalves, que seis anos depois ficaria conhecida no Brasil como Angela Ro Ro. Gal Costa, a queridinha da tropicália, que vivia seu último sopro de rock and roll, meio Janis Joplin em seu show "Fa-tal", faz vozes de apoio em três temas. A arte visual de "Transa" dialogava com os formatos ousados dos discos de rock e jazz – capa e encarte formavam um triângulo nas mãos do ouvinte, valorando ainda mais a experiência do comprador e essa aproximação do vinil como um objeto de arte. “Discobjeto" foi o título dado para batizar o projeto gráfico da edição original do LP, assinado por Álvaro Guimarães e Aldo Luiz. Em formato trifold (triplo), a capa aberta forma uma espécie de prisma triangular, exibindo fotos do cantor e entregando uma outra interpretação. O álbum posteriormente teve reedições em capas dupla e simples, e fita K7, além de versões (em CD e LP) lançadas em outros países. 

Eu lembro que nossas audições de "Transa" nos anos 1980, e já naquele tempo, mesmo passado mais de 10 anos do impacto inicial do álbum, apesar do delay, ele ainda era tema de muitos debates e culto. "Transa", o disco "gringo" de Caetano que foi aceito pela turma do rock, o álbum que deu a MPB um plaralismo inédito, abriu suas portas para o mundo, e, por isso, mesmo passado exatos 50 anos de seu lançamento, ainda faz barulho quando seu nome santo nome é invocado.      

Divulgação

"You Don’t Know Me” começa numa levada bossa blues. Letra em inglês – na primeira parte  – que expõe a solidão de um exilado, pega versos de “Saudosismo”, música de seu álbum de estreia em 1968, cantada em contraponto por Gal Costa. O violão de Jards Macalé na parte final acentua o trânsito com o blues. “Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/o meu pai dormia em cama minha mãe no pisador” foi tirada de Maria Moita (Carlos Lyra/Vinícius de Moraes). “Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria” – veio de Reza (Edu Lobo/Ruy Guerra). “Eu agradeço/ao povo brasileiro/norte, centro, sul inteiro/onde reinou o baião” – veio de Hora do adeus (Luiz Queiroga e Onildo Almeida, gravada por Luiz Gonzaga).

“Nine Out of Ten” é a provável primeira invocação ao reggae gravada por um músico brasileiro. Caetano narra seus passeios pela Portobello Road, rua da capital inglesa que no começo dos anos 1970 tinha lojas que tocavam discos de Bob Marley e Jimmy Cliff. “Triste Bahia”, pinçada de um poema de Gregório de Matos, traz o baixo saltitante de Moacyr Albuquerque, que muitas vezes soa por cima dos outros instrumentos, quase batendo no jazz. A percussão de Áureo de Souza faz o pano de fundo com muitas climáticas. O jogo repentista e repetitivo de Caetano, que se amplia no final, é uma deliciosa incursão no caldeirão de ritmos e citações folclóricas que estão remontados nesse tema, uma genial colcha de retalhos que nos joga dentro de um terreiro de candomblé.  

A melancolia inicial de “It’s A Long Way” vai nos induzindo a uma deliciosa viagem por estrada pavimentada por Caetano, que novamente mistura tudo. “Woke up this morning / Singing an old, old Beatles song”. Ele diz isso com tanta tristeza e depois nos entrega a canção que ecoava na sua cabeça: “It's a long and winding road”, quase um bordão autobiográfico da aventura dele pelo velho mundo, os tortuosos caminhos que o levaram até lá. É um dos pontos altos do disco, uma sucessão de recursos e mixes folclóricos que encontram seu ápice quando enxerta trechos de “A lenda do Abaeté” (Dorival Caymmi) e do afrosamba “Consolação” (Baden Powell e Vinicius de Moraes). “O zóio da cobra verde/[..] não amava quem amei”; “Arrenego de quem diz/que o nosso amor se acabou” – vem de  "Sôdade, meu bem, sôdade" (Zé do Norte), gravada por Vanja Orico para a trilha de "O cangaceiro", filme de Lima Barreto (1953). No final, circular como Bob Dylan, Caetano retorna a mansidão do ponto inicial para finalizá-la. Clássico!

“Mora na Filosofia”, de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos é relida em “Transa” como um samba experimental. A bateria, com os ataques nos pratos de Tutty Moreno, flerta com o samba rock. Por outro lado, há dinâmicas em que a banda oscila como uma orquestra, no esquema  – não tocar é melhor do que tocar. Assim como a percussão de Aúreo de Souza raciocina da mesma dinâmica, soando às vezes uma abelha barulhenta, outras vezes um pássaro silencioso que bate as asas só para mostrar sua formosura. “Neolithic Man” traz Caetano brincando com a língua inglesa mais pelo som das palavras do que pelo significado: “You won't see me / You'll only see that you can't see”. De todo modo é como se ele estivesse dizendo à ditadura que eles não conseguirão tirar dele aquilo que ele não quiser mostrar, mas também cita pelas tabelas "You Won’t See Me", de "Rubber Soul" (1966). “Quem tem vovó/ Pelanca só” – são palavras atribuídas ao canto do Sabiá da Mata, pássaro muito comum na Bahia. “Nostalgia (That's What Rock'n'roll Is All About) volta a flertar com o blues, com Gal Costa ora encostando na voz de Caetano, ora soando como a harmônica de Angela Ro Ro, isso antes mesmo dela aparecer nos segundos finais da música, como Jim Morrison fez meses antes em "Cars Hiss by My Window", de "L.A. Woman". Com o cachê da gravação, a autora de Amor, meu grande amor conta que pagou uma semana de aluguel e comprou um par de botas para encarar o frio londrino.

Para saber mais sobre "Transa", recomendo a matéria assinada pelo jornalista Lucas Vieira no site Pop Fantasma, de onde algumas informações desta postagem foram pinçadas.  


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