Neil Young sempre peitou o sistema


Por Márcio Grings

Antes de falar de um dos assuntos mais comentados dos últimos dias, relembro uma matéria de Eduardo Bueno escrita para o jornal Zero Hora, publicada na época do lançamento de “Harvest Moon”, em 1992: “Neil Young não é apenas um mero sobrevivente da arapuca etária que o rock armou para si mesmo. Neil Young é muito mais do que isto. É o sobrevivente congênito. O sujeito que escapou das artimanhas que o destino lhe forjou e dos excessos com os quais  frequentemente flertou.  Um cara que nasceu epilético, diabético. O pai de dois filhos com paralisia cerebral. O drogado convicto sem físico para administrar hábitos nocivos. O companheiro dos músicos que morreram de overdose. O artista que os críticos se apressaram em enterrar a cada projeto  malsucedido. O compositor processado pela própria gravadora por lançar discos ‘que não soavam como discos dele mesmo’. Neil Young é o mais enigmático, sombrio e solitário dos compositores da sua geração – uma geração repleta de gente talentosa. Neil Young é o mais anacrônico, atemporal e desviante dos músicos pop dos anos 1970”.  

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A apresentação de Peninha dá o tom de que tipo de artista estamos falando. Neil Young sempre peitou o sistema, "desde Woodstock", como nos lembra outro jornalista, o paraibano José Telles. Em 1969, Neil impediu que as câmeras gravassem sua participação com Crosby, Stills & Nash, e assim, ele não aparece no filme. Neil Young está apenas na trilha-sonora, com “Sea of Madness”. Anos mais tarde, peitaria a MTV, lembrando do jabá das gravadoras e de uma grade repleta de material pago. Em 1988, criticou alguns de seus colegas — Eric Clapton, Michael Jackson e até os Stones, por fecharem contratos com grandes corporações, avisando que não faria o mesmo: “I ain’t singing for Pepsi/i ain’t singing por Coke”, canta em "This Note’s For You". 

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Ambientalista, bateu forte na Monsanto, multinacional dos agrotóxicos, que rendeu o disco “The Monsanto Years”. Não tocou numa edição do Hollywood Rock, no Brasil, porque não canta em festival patrocinado por alguma fábrica de cigarros. Crítico mordaz do achatamento do áudio  nos CDs, e da grande cilada que as gravadoras promoveram com sua mentira sobre o formato digital, ele ainda abomina o MP3. Chegou a criar um formato de áudio, que tocava num player chamado Pono. Não deu certo, mas Neil berrou pra caralho! Preocupado em minimizar a disputa por petróleo, investiu US$ 120 mil para converter um Lincoln Continental conversível num veículo elétrico movido a bateria. Bravo, Neil! Mas, como ninguém é perfeito... Ele teve um deslize nos anos 1980, uma das poucas máculas de seu ativismo — acenou um apoio ao governo de Ronald Regan. Felizmente corrigiu o curso, afinal estamos falando de um democrata, eleitor de Joe Biden. “Young é um Dom Quixote lutando contra moinhos reais e implacáveis", como nos diz o paraibano Telles. "É uma pena que tenhamos tantos Joe Rogan, e que existam tão poucos Neil Young". 

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A briga de Neil Young com o Spotify não surpreende quem o conhece. É coerente com sua trajetória. Vale lembrar que quando era criança, contraiu polieomelite, suas dores nas costas são herança dessa doença. Se tivesse se vacinado, não teria passado por sérios problemas na coluna que o acompanham desde muito jovem. Faz todo o sentido ele se indignar por estar na mesma plataforma em que o podcaster Joe Rogan espalha desinformação sobre o Covid-19. Neil saiu, Rogan ficou. O negacionista comanda o podcast de entrevistas mais ouvido do Spotify nos EUA e teria recebido R$ 568 milhões para transmitir exclusivamente seu programa no aplicativo. A única medida tomada pelo Spotify é que agora o gigante do streaming adicionará avisos de conteúdo em todos os podcasts que falam sobre Covid-19 para que os usuários decidam se querem ou não ouvi-lo. Piada, né? O aviso também vincula o conteúdo a uma página da própria plataforma onde informações confiáveis serão disponibilizadas. Covardes! 

Reprodução site oficial NY

Vale lembrar que o catálogo musical de Neil Young está disponível gratuitamente no teu website. Listada em forma cronológica, a discografia encontra-se completa e em formato de aúdio de alta qualidade, incluindo os discos que Neil gravou com Buffalo Springfield, Crosby, Still & Nash e Crazy Horse. Além disso, o site também inclui alguns discos nunca lançados oficialmente e filmes inéditos.

Veja o documentário de "Barn", novo álbum de Neil Young. Dirigido por Daryl Hannah, o filme capta Neil e o Crazy Horse ensaiando e gravando num celeiro restaurado do século 19. 

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