The Rolling Stones: 50 anos de "Sticky Fingers"


Divulgação RS Records

Por Márcio Grings

Imagine o que  é vender milhões de álbuns em todo o mundo e de repente descobrir que, devido a um contrato malfeito, todos os direitos autorais dos seus discos, singles e canções, não pertencem mais ao seu espólio? Terrível, não? Esse pesadelo aconteceu com os Rolling Stones na virada dos anos 1960/70. Nome do vilão? Allen Klein, o mesmo empresário que colocou fermento estragado (e pimenta) no bolo dos Beatles. Essa história de como os Stones ficaram com uma mão na frente e outra atrás, além de dever horrores para o fisco britânico, está registrada em vários livros. O fato é que,  Mick Jagger, o ecônomo, gerente de planejamento e estrategista dos Stones, articulou o plano perfeito após o fim de contrato com a Decca Records. Assim surgiria a Rolling Stones Records. Logo depois o grupo inteiro debandaria para a França, uma fuga estratégica longe das garras do Leão inglês. Contudo, esse F5 seria acionado em 1971, com "Sticky Fingers".  

Veja a live no canal Pitadas do Sal sobre os 50 anos de "Sticky Fingers"

Quem não conhece o símbolo da língua dos Stones? A marca criada pelo (na época) estudante de artes John Pasche é um dos signos mais conhecidos do rock em todos os tempos, e teve seu debute justamente no single “Brown Sugar | Bitch | Let it Rock”, disponível nas prateleiras em 16 de abril de 1971, tríade de canções que antecipou o pacote completo, lançado na semana seguinte sobre a égide de “Sticky Fingers”

A experiência do álbum começa com a capa, uma ideia de Andy Warhol, que colocou à disposição dos Stones seus queridinhos da Factory, o estúdio de arte fundado pelo artista norte-americano. Executada por Craig Braun, na imagem central, temos a imagem de uma calça jeans escura, em take fotografado por Billy Name, quando vemos o quadril do ator Joe Dallessandro. E na mesma imagem, o zíper pode ser aberto, como se o volume das partes íntimas do modelo  saltasse capa afora.  Já o que ouvimos no vinil, erige um tracklist irretocável. Durante 14 meses os Stones represaram suas canções, à espera do final do contrato com Allen Klein, e assim, “Sticky Fingers” foi municiado com chumbo grosso. O vinil se tornou o quarto álbum de estúdio mais vendido dos Stones. "Some Girls" (1978), "Tattoo You" (1981) e "Voodoo Lounge" (1994) venderam mais, mas nenhum deles faz sombra à primazia do LP lançado em 1971, há 50 anos.  

“Sticky Fingers” possui dez canções, cinco de cada lado, pouco mais de 45 minutos de música. A engenharia de som está com Glyn Johns, Jimmy Miller produz. As gravações decorreram em três estúdios: o lendário Muscle Shoals, no Alabama, em maio de 1969), quando foram gravadas “Brown Sugar”, “Wild Horses” e “You Gotta the Move”. Inclusive foi nessa sessão que os Stones pela primeira vez adicionaram metais nos arranjos. E nesse pequeno grupo de colaboradores estavam Bobby Keys (sax) e Jim Price (trompete), dupla que pulou direto da trupe de Delaney & Bonnie para o séquito de Mick e Keith. Jim Dickinson (piano), outro músico com rodagem de sobra também estava lá. O restante do álbum foi gravado em três estúdios, entre março de 1969 e janeiro de 1971 – Trident, Olympic Sound e Stargroove, casa de Mick Jaggger, utilizando a mesa de 16 canais do estúdio móvel do grupo. Além de Keys e Price, as sessões ainda contariam com participações de Billy Preston, Ry Cooder, Nicky Hopkins, Paul Buckmaster, entre outros. Um detalhe importante do álbum está na primeira figuração oficial de Mick Taylor como integrante da banda. Ao lado de “Beggars Banquet” (1968), “Let it Bleed” (1969) e “Exile on Main Street” (1972), estamos falando da quadratura suprema dos Roling Stones em sua discografia. É um disco sujo, lascivo, cheio de referências a drogas e sexo, mas acima de tudo, um conjunto de músicas que inaugura uma década vitoriosa para o grupo inglês.      

Mick Jagger e Claudia Lennear

— BROWN SUGAR

Como não imaginar Keith Richards disparando o riff de "Brown Sugar" ele se acocora, projeta uma das pernas para a frente, levanta o corpo e dá um chute no vazio. Enquanto isso Mick recita seu polêmico versículo. Em outubro deste ano, 50 anos depois dos Stones a tocarem de forma permanente no seu set, um artigo publicado pela New York Magazine afirmou que “Brown Sugar” é “ofensiva às mulheres negras”. Nenhuma novidade esse viés voltar a tona. A letra da música faz referência à exploração sexual imposta a mulheres escravizadas nas plantações de algodão no Sul dos Estados Unidos e gerou polêmica por ser considerada machista e racista. Keith se defendeu: “Vocês não perceberam que essa música fala dos horrores da escravidão? Estão tentando enterrá-la. Por enquanto, não quero ter problemas, mas espero que possamos ressuscitar essa beleza em toda a sua glória nesta turnê”. Já Mick disse que ao retirar o som do repertório “quer ver o que acontece”

Nos anos 1970, o pastor norte-americano Jesse Jackson já tinha pedido um boicote às radios para que não a tocassem. Em sua autobiografia, Keith Richards, conta que Jagger escreveu a letra em menos de uma hora. Para alguns, o açúcar marrom (brown sugar), ou mascavo, é na verdade uma referência à heroína mexicana, considerada mais pura (e viciante) que a comum. Polêmicas à parte, "Brown Sugar" é uma cartilha de como se faz uma canção dos Rolling Stones, repleta de conotações sexuais, controvérsia e remontagem histórica — como se o mesmo narrador de "Sympathy for the Devil" retornasse para nos contar como se deram aqueles anos de segregação, exploração e violência, — uma época que não pode ser esquecida, para que nunca mais seja repetida. Em tempo: Mick teria buscado a ideia inicial de "Brown Sugar" durante as filmagens de "Ned Kelly" (1970), supostamente inspirado na ex-Ikette Claudia Lennear (com quem teve um breve caso),  que além de trabalhar na banda de Ike & Tina Turner, fez vozes de apoio para Joe Cocker, Leon Russell e Freddie King. Lennear ainda inspirou "Lady Grinning Soul", música de David Bowie. Estreia de Bob Keys, sax, e  Jim Price, trompete, (foto acima) e première dos Stones com naipe de sopros numa canção. E que estreia.      

— SWAY

Nessa sessão, "Sway" foi o primeiro tema gravado em Stargroove, casa de campo de Mick Jagger, utilizando o estúdio móvel dos Stones. Na letra, aquela sensação nefasta de quem acordou de porre e não consegue se libertar do círculo vicioso da bebida, das drogas ou das duas coisas. Quem sabe, se ao levantarmos da cama num outro dia, tendo o vislumbre da ponta do sorriso da pessoa amada, possamos novamente colocar as coisas nos eixos. Mick Jagger faz uma das bases de guitarra (é sua primeira vez nessa posição). Nicky Hopkins (foto ao lado) destrói nas teclas, com os vocais de Mick e Keith sombreando o refrão. Mick Taylor dá as cartas e ponteia no slide. O arranjo de cordas de Paul Buckmaster faz a amarra final. No clímax, guitarras, piano e orquestrações são jogadas no mesmo caldeirão. Uma música que envelheceu bem.            

 — WILD HORSES

Gravada no Muscle Shoals Studios, banda em formação completa com participação de Jim Dickinson, pianista do Tennessee capaz de invocar o som Nashville na notação original dos prados caipiras. Antes de vir ao mundo como uma canção dos Stones, "Wild Horses" saiu no álbum "Burrito DeLuxe" (1969), do Flying Burrito Brothers. E foi um registro legítimo, já que Gram Parsons, líder do Burrito, é uma espécie de 'coautor espititual' de 'Horses'. O ex-The Byrds, que na época estreitou suas relações com Keith Richards, o apresentou às raízes da música country e à afinação aberta. Essa aproximação acabou rendendo um trânsito mais frequente da dupla Jagger/Richards com esse universo.

Keith e Gram (foto ao lado) passaram algumas noites juntos num deserto do Sul da Califórnia, imersos num ambiente com paisagens surreais e bucólicas. Lá, o embrião de "Wild Horses" teria sido gerido, para depois ganhar contornos finais na letra reescrita por Mick, versando sobre a relutância de Keith em abandonar a vida doméstica, prestes a colocar o pé na estrada. A namorada de Mick, Marianne Faithful também teria sido uma influência. A essência dos Stones em clima deprê/acústico está nos 'cavalos selvagens', metáfora que aborda uma relação amorosa. O dedilhar do violão é delicado e inebriante. Os vocais dos Glimmer Twins estão em estado de graça. Jim Dickinson disse na autobiografia de Keith que a dupla gravou as vozes com uma garrafa de burbom passando de mão entre eles, quando eles estavam lado a lado, divindo o mesmo microfone. Tudo feito em no máximo dois takes. Uma sintonia invejável, como Keith nos disse em uma entrevista: "Mick gosta de saber o que vai fazer amanhã. Eu fico feliz apenas em acordar. Mick é o rock. Eu sou o roll".  A dupla perfeita de patifes. 
 
Billy Preston

CAN'T YOU HEAR ME KNOCKING 

Sem dúvida um dos cinco melhores riffs de guitarra de Keith Richards. A sujeira da base de Keith se amarra perfeitamente a limpeza da outra camada movimentada por Mick Taylor. O onipresente Billy Preston está no Hammond, com Jimmy Miller e Rocky Dijon promovendo o clima Santana de "Can't You Hear Me Knocking", algo que se amplia à partir dos 2 minutos e meio, com Bob Keys rasgando a música ao meio no solo de sax. É de arrepiar! Em 2001, a música ilustrou a abertura de "Profissão de Risco", de Tedd Demme, com Johnny Depp e Penélope Cruz, filme inspirado na vida de George Young, narcotraficante responsável por grande parte da distribuição da cocaína nos Estados Unidos na década de 1970 (VEJA). Vale lembrar que essa barra pesada das drogas é uma das marcas de "Sticky Fingers" — |Headfull of snow (Moolight Mile) | Sweet losing cocaine (Sister Morphine), I'll be in my basement room with a needle and a spoon (Dead Flowers), e na própria "Can't You Hear Me Knocking" | Cocaine eyes, que emula a imagem de um viciado, um personagem que perambula pela cidade até bater na porta de alguém, implorando por ajuda.          

— YOU GOTTA MOVE

"You Gotta Move" traz os Stones num território onde eles sempre estiveram à vontade. É uma releitura de Mississippi Fred McDowell (1906-1972), bluesman do Tennessee. Mick Taylor voa baixo no slide, como já fazia na banda de John Mayall, antes de entrar nos Stones. "Você tem que se mover", a letra nos avisa continuamente. A bateria de Charlie se baseia apenas numa marcação rudimentar de bumbo e chipô, coração pulsante que amplia a sensação de autenticidade do blues, sem levar o tema em direção ao rock. As vozes de Mick e Keith novamente estão irmanadas. O Lado A acaba e já estamos loucos para virar o disco e conferir como essa jornada vai continuar.  

 — BITCH

Parte gravada no Olympic Studios, parte em Stargroves, isso em outubro de 1970, "Bitch" abre o Lado B com uma incrível vibe acelerada. O naipe de sopros com Jim Price e Bob Keys é simplesmente a cola perfeita com o riff poderoso criado por Keith. É o rock mais vigoroso da segunda metade do álbum, um espelho com o lado oposto. A letra novamente nos joga nas ruas, na descrença do amor e aponta para o sexo como antídoto antimonotomia. Impossível não chacoalharmos o esqueleto.     

 — I GOT THE BLUES

Esqueça o blues no título, aqui os Stones adentram com propriedade no território da soul music. Imagine Otis Redding ou Solomon Burke cantando "I Got the Blues" (Burke inclusive a regravou, ouça AQUI )? Não se trata de uma incoerência, pois os sopros de Bob Keys e Jim Price, vinhetam cada estrofe como lembrança da Staxx e da herança negra da Atlantic Records. O solo de Hammond de Billy Preston é um dos momentos mais inspiradores do álbum. A letra fala do fim de um romance — "Todas as noites que você esteve fora | Eu me sentei e orei | Para que você esteja segura nos braços de outro". E essa ausência pode levar ao desespero — "Por você, eu irei estourar meus miolos | Por você, eu irei arrancar os meus cabelos". Se a barra fica pesada em "I Got the Blues", as coisas podem ficar ainda piores na faixa seguinte.   

Marianne Faithful
— SISTER MORPHINE

Doloroso hino à dependência química, com Marianne Faithful ditando para Mick a maior parte da letra (ela não está creditada). A inspiração teria surgida quando um médico brasileiro aplicou um pico de morfina em Anita Pallemberg, grávida de Keith, para cessar a dor de uma hemorragia. "O que eu estou fazendo neste lugar? | Porque o médico não tem rosto? | Oh, eu não posso rastejar pelo chão | Você não vê, Sister Morphine?". Tudo começa apenas com Mick — no vocal — e Keith — no violão de aço. Aos poucos as camadas vão surgindo. Ry Cooder é o espadachim perfeito no slide, fustigando acordes em afinação aberta. Adiante, Keith larga o violão e toca uma guitarra que não sai do fundo da sala, encharcada de reverber. É um som metálico perturbador (ouça no fone de ouvidos), como se o seu anel caveira dele estivesse raspando uma superfície de metal. Depois ele volta ao violao, Jack Nitszche está no piano. As mãos de Charlie Watts perambulam pelas peles, enquanto Keith novamente nos assombra com sua guitarra rascante. Por favor, Stones! Precisamos de uma pausa após tanta dor e sofrimento.             

 — DEAD FLOWERS

Mais uma da safra advinda da influência de Gram Parsons. Depois de tanta barra pesada, apesar da letra, "Dead Flowers" é um passeio pelo Nashville sound, puro alto astral e ironia. Ian Stewart faz o piano, um território que ele não apenas se sente confortável, Stu o domina! É a despedida do álbum das vozes de Mick e Keith irmanadas no refrão: "Take me down little Susie, take me down | I know you think you're the queen of the underground". Se você nunca cantou esse refrão. por favor, reveja o que anda fazendo. Coloque o disco para tocar e o faça agora!       

 — MOONLIGHT MILE

Obsedante, hipnótica, triunfal, em meio a tanta perdição e heresia, "Moolight Mile" é a opus dei de 'Sticky Fingers". Tudo o que ouvimos de violão e guitarras é obra de Mick Taylor. Num daqueles dias em que Keith Richards não deu as caras no estúdio, Taylor justifica sua contratação e mostra visões rítmicas, escolhas tímbricas, tudo ajustado com invejável proficiência e economia. As orquestraçoes de Paul Buckmaster, que neste mesmo ano, 1971, faria o diabo em "Madman Across the Water", de Elton John, aqui, obtém a dose certa de equilíbrio, sem testurizar com excessos os  arranjos de cordas. Jim Price larga o trompete e mostra que também sabe se virar nas teclas — "As vozes de estranhos não dizem nada | Apenas mais um dia de desvario na estrada | Vivo para repousar ao seu lado | Sou apenas um pedaço de luar seguindo pela estrada".   

Foto: Peter Webb

"Moolight Mile" ainda inspiraria um filme homônimo de 2002 (Vida que Segue), dirigido por Brad Siberling, com Dustin Hoffman e Susan Saradon. A cena em que Joe (Jake Gyllenhall) está de cara ammarada num bar, e para protesto dos presentes, corta a audição de "Fire", dos Ohio Players, para colocar no jukebox "Moonlight Mile", é inesquecível. Quando a música começa a tocar, parte do bar se vira em direção a ele uma multidão de rostos com ar de reprovação. O silêncio toma conta das mesas. De repente, Bertie ( Ellen Pompeo) entra porta adentro, ouve (sente) a música e se aproxima de Joe. Sob os olhos atentos de uma plateia curiosa, ela o envolve em seus braços, quando então o casal começa a dançar (VEJA). 

O que seria da vida sem a música? Abra uma garrafa de vinho e coloque o player abaixo para rodar. 

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