The Doors: 50 anos de 'L.A. Woman"

Divulgação Elektra

Por Márcio Grings

Em julho de 2021 o mundo lembrou os 50 anos da morte de Jim Morrison. Gravado entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971, em apenas 10 dias de trabalho, “L.A. Woman” é sua despedida com os Doors. Menos de sete meses depois, Jim estaria morto. Os envolvidos no registro do futuro álbum relatam que o ambiente de gravação foi dos melhores. Tudo gravado no escritório do grupo, onde estava o estúdio de ensaio dos Doors, localizada em West Hollywood, na esquina da La Cienega com Santa Monica. Jim partiu para Paris no início de janeiro, antes de ouvir a mixagem final. “L.A. Woman” é um dos meus favoritos do Doors, coloco o LP ao lado de “Morrison Hotel”, álbuns que buscam no blues um ponto de partida para potencializar o som do grupo. No caso de "L.A. Woman", as músicas refletem a  perplexidade daquele início de década, mas também os dilemas do autor da grande maioria das letras — Mr. Mojo Rising, Jimbo, James Douglas Morrison.

Veja a live dos 50 anos de "L.A Woman" no Canal Pitadas do Sal     

Doors nas sessões de gravação de "L.A. Woman".  Marc Benno e Jerry Scheff estão no centro da imagem. Foto: Frank Lisciandaro

Ray Manzarek, 32 anos (teclados), Robbie Krieger, 25 (guitarra) e John Densmore, 26 (bateria) são os principais motores rítmicos. Contudo, a experiência de acrescentar o baixo de Lonnie Mack e a harmônica de John Sebastian (nomeado nos créditos por G. Puglese, por questões contratuais) fez de “Roadhouse Blues” um dos grandes momentos do trabalho anterior,  ”Morrison Hotel” (1970). Caiu a ficha de que o som do Doors poderia soar mais encorpado. Com isso, para engrossar o caldo em “L.A. Woman”, foi chamado para a guitarra base o jovem Marc Benno, 23 anos, que tinha no currículo sua passagem pela banda de apoio de Leon Russell. Benno depois trabalharia com Eric Clapton, Clarence White, Rita Coolidge, entre outros. E para o baixo, temos Jerry Scheff, 30, afamado por fazer parte da Máfia de Memphis, integrante da banda de Elvis Presley na estrada, com quem tocou até sua morte em 1977. Scheff pode ser visto/ouvido em materiais como "That's the Way It Is" (LP/DVD), "On Tour" (DVD) e "Aloha From Hawai" (LP/DVD), como ainda foi session musician de Billy Preston, Roy Orbison, Merry Clayton, Monkees, entre outros. 

Jim Morrison e Mark Benno. Foto: Frank Lisciandaro 

Para termos uma base, apenas dois músicos dessas sessões de gravação haviam passado dos 30 anos. Até o engenheiro de som/coprodutor era um jovem, pois Bruce Botnik, como apenas 25 anos, substitui Paul Rotchchild, que refutara produzir as novas músicas do Doors — "por não se sentir motivado a trabalhar com aquele material". Contudo, o talentoso Botnik já havia trabalhado em álbuns do próprio Doors, do Love e dos Rolling Stones. Com uma média de 27 anos, busco a estatística para dizer que, apesar da juventude dessa rapaziada, o que ouvimos em “L.A. Woman” representa uma banda experiente, com rodagem e com um repertório expansivo; blindada com aquela casca grossa adquirida por anos de estrada e extramente segura do caminho a ser percorrido. Se esse é o fim, podemos chamá-lo rapsódia, réquiem ou canto do cisne, mas sem pompa e circunstância. Na maior parte do tempo, "L.A. Woman" traz crueza, intuitividade e visceralidade, mas também há refinamento e o jeito The Doors de empacotar uma música.    

Reprodução LAW

— THE CHANGELING

Quando ouvimos a voz degradada de Jim Morrison no início de "The Changeling" temos a impressão que se trata de um cantor de 40 anos ou mais. Sai a pose, a teatralidade, entra um intérprete mais livre. Estamos falando de uma voz mal-tratada, erodida por anos de excessos — cigarro, muito álcool e absoluto descuido de tudo. Nada disso obscurece o resultado, pois Jim dá um pontapé na porta com esse abre-alas dizendo a todos que o Doors ainda sabe o que está fazendo. Se Jimi Hendrix e Janis Joplin já se foram, ambos separados por poucas semanas da data de nascimento do vocalista do Doors, Morrison está aqui para representá-los, como um dos símbolos vivos do Clube dos 27. É muito impactante ouvir o som dos Doors com um baixo funcionando na linha de frente, com a tímbrica do Fender Bass de Jerry Scheff. Na letra, Jimbo é o vagabundo que perambula pela cidade, vagueando pelos cantos escuros, mas sempre encontrando uma forma de voltar pra casa — nem sempre a sua — afinal: my casa is su casa. No solo, as guitarras de Robbie Kriger e Marc Benno lembram o que Duane e Dickey faziam no Allman Brothers; o baixo de Jerry Scheff é um trem a vapor que não oscila nunca, engatado no vagão da bateria de John Densmore; Ray Manzarek é como um pintor impressionista jogando tintas numa tela, rompendo com o passado, pois o baixo lhe dá liberdade para abrir a caixa de ferramentas e mostrar o melhor de sim. Se esse é o início de tudo, respire fundo, vem chumbo grosso por aí.          

— LOVE HER MADLY

Se a gravadora precisa de uma música para as paradas de sucesso, pegue "Love Her Madly" e façam um single, seus malditos! Como de fato foi feito, em março de 1971, antecipando o álbum que sairia no mês seguinte. Segundo Paul Rotchchild, seria "Love Her Madly" o tema que ele teria batizado de 'música de coquetel', e seria nessa audição que houve a desistência dele em produzir o novo álbum (Robbie Kriger diz que foi em "Rider on the Storm"). Se "The Changeling" parece um passo adiante rumo ao futuro, "Love Her Madly" surge como uma volta ao passado, pois a música parece ser extraída do baú de achados e perdidos do grupo. Para isso, Ray Manzarek resgata o seu teclado Vox Continental, um símbolo dos anos iníciais do Doors. A composição é de Robbie Kriger, sempre tirando um coelho da cartola quando ninguém espera. A inspiração da letra teve como mote as brigas com sua namorada que saia sempre porta afora ameaçando nunca mais voltar — "Don't ya love her as she's walkin' out the door?". "Love Her Madly" é o pico pop do álbum, música que as FMs norte-americanas fritaram naquele início dos anos 1970.

— BEEN DOWN SO LONG

Depois da pílula pop, vamos ao que realmente interessa — o blues! "Been Down So Long". Jimbo pedindo trégua depois de tanta exposição, de enfrentar os tribunais, de ser condenado por atentado ao pudor durante um show realizado Miami, em março de 1969. Segundo Ben Fong-Torres da Rolling Stones — "Jim Morrison é uma espécie de cientista social que explorava o fenômeno das massas de uma banda e seu público". Perfeito! Baixo e bateria são o coração pulsante, precisos e circulares (como Jerry Scheff entrou bem nesse contexto de blues). Na base, Robbie Kriger e Marc Benno dobram alguns acordes. No solo, Robbie solta  a mão no slide enquanto Marc faz a cama para ele, uma cama ao qual eu certamente me deitaria e sonharia para sempre.  

Foto: Wendell Hamick

— CARS HIS BY MY WINDOW

Há cerca de uns 15 anos eu tocava numa banda chamada Hotel Glória. Ela durou apenas três shows. Misturaramos poesia, minimalismo punk e blues. No repertório, lá estava "Car his by My Window". Tornou-se um dos nossos grandes momentos na curta passagem dessa banda desconhecida pelo mundo. Trata-se de um blues elétrico clássico, mas com um som de guitarra abafado, como se a guitarra vazasse por um Fender Twin com o falante furado. O tema é repleto de espaços vazios, com vazamento de vozes. Jimbo está inquieto. Com um bom fone de ouvidos dá para perceber a respiração de Morrison e seus gritos fora do microfone. É o melhor solo de guitarra de Krieger no disco. A bateria de Densmore é discreta, reta, praticamente sem utilizar os pratos ou movimentos de condução. Jim está à vontade — "Os carros passam sibilantes na minha janela | Como as ondas na praia". Comparar ondas com o barulho do trânsito é pura poesia urbana. O solo de harmônica é tocado pela voz de Jim Morrison, emulando um gaitista de Chicago com bends e semitons, revela um intérprete em estado de graça. 

— L.A. WOMAN

A faixa título é o apogeu blues-rock do álbum, uma carta de amor a Cidade dos Anjos — Los Angeles e suas mulheres. Essa forma garageira de gravar ao vivo, com o mínimo de overdubs, com a banda no território de ensaio, gerou uma espontaneidade absurda. O que os Doors alcançaram em "L.A Woman" é algo que muitas bandas buscam e nunca atingem. The Doors voa baixo, como um mustang numa rodovia. Se era para soar como um grupo de rock tocando blues, eis o exemplo de como se faz. Jimbo usa a metáfora da cidade como uma mulher, nos desafiando com seu nível intelectual lírico — "Vejo seu cabelo em fogo | As colinas estão cheias de fogo". A Cidade da Noite proclamada na letra é uma citação a "City of Night", livro publicado em 1963 por John Rechy, mas também lembra a Los Angeles de John Fante  — "Dei uma olhada para o lado para ver que lado o vento está soprando". Dá para imaginar Arturo Bandini, alter ego de Fante,  jogado a própria sorte pelas ruas de L.A proclanado essa frase. O Mister Mojo que se ergue na parte final é uma anagrama utilizado por Jim Morrison para se autodefinir como um prodígio. Mojo ou 'moco', uma palavra da língua crioula gullah, significa "bruxaria". Feitiço no Sul dos Estados Unidos, mas na gíria dos velhos bluesman era uma forma de falar do órgão sexual masculino, como atesta "Got My Mojo Working" (Preston Foster), um dos temas mais revisitados do blues de Chicago. O piano de cabaré tocado por Ray Manzarek — chupado de uma breve passagem de "House in the Country", do Blood, Sweet & Tears — ilustra como os Doors poderiam misturar tudo e transformar uma música como "L.A Woman" num clássico feito para brilhar nas FMs dos anos 1970. Outros tempos...              

— L'AMERICA

Você sabe o que é um filller? É uma espécie de tapa-buracos. Assim, quando não temos nada melhor, coloque um filler neste espaço e passe para a próxima música. "L'America" foi feita sob encomenda para o filme "Zabriskie Point" (1979), do diretor italiano Michelangelo Antonioni, que sumariamente a rejeitou. Assim ela foi parar em "L.A. Woman". A parte aproveitável dela está no poema de Jim Morrison, uma amostra de quão bufão ele poderia ser, na visão dos astros de rock pulando de lugar em lugar, ridicularizados por muitos, mas conquistando as garotas após os shows — "Simpáticos forasteiros chegam à cidade | E todos zombarão deles, mas as mulheres adoram seus modos | Assim, voltarão qualquer dia desses | Como a chuva suave que cai".       

— HYACYNTH LOVE

Sabemos que Jim Morrison devorou vários livros, incluindo mitologia grega. A escolha pelo nome "Hyacynth House" (Casa de  Jacinto) certamente não é casual. Na mitologia, Jacinto era um jovem espartano, atlético, adorado e cortejado por dois Deuses, Apolo (Deus do Sol e da Verdade) e por Zéfiro (Deus do Vento do Oeste). Os dois Deuses disputavam o amor de Jacinto, porém Jacinto preferia a companhia de Apolo, o que levou Zéfiro enlouquecer de ciúmes. Certo dia, quando Jacinto praticava lançamento de disco com Apolo, Zéfiro jogou uma rajada de vento sobre o disco de Jacinto, o disco retonou e bateu com força na cabeça de Jacinto, o que causou sua morte. A Casa de Jacinto não é apenas poética, ela é triunfal nas suas escolhas melódicas. No início, o ouvinte parece estar prestes a adentrar o território de uma canção de amor. Como já sabemos, não é. Morrison invoca sua persona sinatriana, como em "Blue Sunday", de "Morrison Hotel", mas esparge seu senso irônico e fatalista. Jimbo está de saco cheio da cidade, dos bares e principalmento dos amigos, os sanguessugas que esperam sempre que sua alma seja revelada numa conversa de boteco — "Preciso de um novo amigo que não me chateie | Preciso de alguém que não precise de mim". Quem nunca! Ir para Paris seria o próximo passo, a caçar novos amigos, à espera do vento de Zéfiro, ao encontro de seu epitáfio. No solo de Manzarek, uma citação de Chopin fecha o eixo histórico de referências.       

CRAWING KING SNAKE

Desde o início dos Doors, "Crawling King Snake" era uma unanimidade entre os membros do grupo. Já que o resgate do blues era uma das cruzadas de "L.A Woman", por que não registrá-la oficialmente? A única releitura do álbum é cirúrgica, um dos cavalos-de-batalha de John Lee Hooker caiu bem nessa parte descendente do Lado B. Jim parece enrolar as palavras, como se estivesse de pileque (o que não seria incomum). O solo do Fender Rhodes de Ray e toda sua pontuação ao longo do tema dá uma nova cor ao standard de Hooker, assim como Krieger mostra que está muito a vontade nesse território. "Crawling King Snake" foi filmada, é o último registro em vídeo dos Doors tocando com Morrison. Veja AQUI     

Foto: Frank Lisciandaro

— THE WASP (TEXAS RADIO AND THE BIG BEAT)

Essa é outro daqueles temas já explorados em apresentações, mas que ainda não haviam ganhado vida em registro fonográfico em estúdio. Ao vivo, era era mais lenta, etérea, aqui em "L.A Woman", The Wasp (Texas Radio and the Big Beat) tem um andamento mais nervoso, imperativo, onde a poesia de Morrison precisa subir um tom para ser ouvida com mais clareza — "Quero falar sobre Texas Radio and the Big Beat | Vinda dos pântanos da Virginia | Fria e lenta, precisa | Alguns dizem ser celestial em sua generosidade | Outros cruel e penitente do sonho ocidental | Amo os amigos que reuni nessa balsa frágil | Construímos pirâmides em homenagem a nossa fuga | Esta terra onde os faraós morreram | Aqui estamos, chapados, imaculados". Assim como já declarara um de seus mentores e amigos, o escritor beat Michael McClure — "Alguém tem dúvida de que Jim Morrison é um poeta?".     

RIDERS ON THE STORM 

Alguns discos conseguem fazer uma síntese do som de uma banda/artista, "Riders on the Storm" é uma cápsula do tempo que enquadra o som do The Doors em 7 minutos e 14 segundos. O Fender Rhodes de Ray (de novo) empresta um tempero jazzy a música, assim como som de chuva e trovoadas nos fazem buscar um abrigo (shelter from the storm). Com apenas 5 anos, Jim Morrison viveu uma experiência de chamamento, quando viu um índio, talvez um xamã, morrendo à beira da estrada no Novo México. Essa lembrança nunca mais o abandonou. "Riders on the Storm" é uma típica canção on the road, mas é fantasmagórica, pois temos essa sensação de algum perigo sobrenatural na estrada. E assim, Jimbo busca um abrigo. Que seja no peyote, na birita ou nas suas próprias alucinações. Quando você parar o seu carro num boteco à beira da highway, cuidado: um serial killer pode fixar os olhos em você e seguir no seu encalço, afinal — "Há uma assassino na estrada". É também um pedido de socorro de Jim a Pam. Fique comigo, vamos sair daqui, podemos seguir adiante, atravessar o Atlântico e superar desafios, chegar até Paris e recomeçar tudo, como estranhos, forasteiros — "Você tem que amar seu homem | Pegue-o pela mão | Faça-o entender | O mundo depende de você | Assim, nossa vida nunca terá fim".   

Menos de três meses após ser lançado, em 7 de abril de 1971, Morrison morreu em Paris, em 3 de julho. "L.A Woman" retrata o Doors sem amarras, pronto para seguir adiante nos anos 1970, sob a orientação do blues, com o rock'n'roll amarrando as coisas. A poesia nas letras, Manzarek, Krieger e Densmore no tour de force instrumental, músicos de apoio potencializando a massa sonora e Morrison, aos 20 e poucos quase 30, com jeito de 40, um cantor que entrega sua alma em cada pique de ar. Jimbo faz falta. 

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