Eduardo Bueno fala do Volume 2 de Letras, livro com traduções das músicas de Bob Dylan


Eduardo Bueno. Reprodução/YouTube

Por Márcio Grings

Quatro anos depois de ser lançado no Brasil, o volume 2 de "Letras" já está nas livrarias. Quando o volume 1 saiu pela Companhia das Letras, isso logo após Bob Dylan ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, entrevistei Caetano W. Galindo, tradutor responsável por verter a primeira parte de 648 páginas. Em um dos trechos da conversa ele disse — No fundo acho que a minha maior dificuldade foi precisamente o fantasma dos dylanianos soprando no meu pescoço uma recusa prévia”. Acertou em cheio. Leia a entrevista completa de Galindo ao Memorabilia. Poucos dias depois, conversei com o jornalista Eduardo "Peninha" Bueno, o mais afamado dos dylanólogos brasileiros, quando o repúdio preconizado pelo tradutor se corporificou — "No mínimo [a editora] tinha que ter me convidado para ser o consultor da tradução. (...) Sou tradutor e dediquei metade da minha vida a Dylan". E decretou — "Quem tinha que ter traduzido esse livro era eu". Leia/ouça a entrevista completa com Eduardo Bueno, que hoje nos diz um pouco mais sobre o quanto considera árdua a tarefa de traduzir Dylan: "Quando eu falei que quem deveria ter traduzido esse livro era eu, era quase uma bazófia. Claro que eu poderia, e talvez até tivesse quase uma espécie de dever 'moral' de fazê-lo. Mas, em termos práticos e de mercado — em especial em função da decisão da Companhia das Letras de 'aproveitar' a onda do Nobel, decisão em tese correta — eu não teria tempo, nem condições e talvez nem disposição para fazê-lo. 
Reprodução GaúchaZH

Em sua coluna semanal do jornal Zero Hora (leia aqui), publicada nesta sexta-feira (10), Peninha se pronunciou sobre o segundo volume de "Letras", livro com 1.014 páginas que acaba de chegar às livrarias do país (saiba mais aqui). O título de sua coluna, "Grosseria e Arruaça", é o mote que revela o descontentamento e a decepção do jornalista com as versões em português para as letras de Bob Dylan, novamente com assinatura de Galindo. "Rough and Rowdy Ways" (2020), título que nomeia o último álbum de Dylan, virou "Grosseria e Arruaça". Bueno dá o tom de como há dissonância nessa escolha: "a tradução literal é — 'caminhos duros (ou árduos, difíceis) e turbulentos', mas é óbvio que Dylan escolheu 'rough' e 'rowdy', devido à sonoridade similar das palavras. Se utilizamos em português, por exemplo, 'rotas rudes e rasteiras', o jogo de repetições com o 'R' seria mantido. Agora, 'grosseria e arruaça'? Ele não tem o direito de fazer isso!", disse ao Memorabilia. Assim como 'ways' também pode ser interpretado como 'maneiras, modos'. Isso denota o quão complexo e repleto de contextualizações é o exercício de traduzir uma obra —  "Mantenho integralmente a ideia de que eu e outros dylanófilos deveríamos ao menos ter sido consultores, ou algo do tipo. De todo modo, depois do naufrágio do primeiro volume, como a editora insiste no erro?".      

Bob Dylan certamente merece cuidado ao ser traduzido. Essa ponderação e zelo foi o que aconteceu na tradução de Portugal. Na Terra de Camões as letras das canções do poeta/cantor foram editadas em dois volumes pela editora Relógio d’Água, em 2006 e 2008, respetivamente, abrangendo o período entre 1962 e 2001: Canções 1962-2001 – Volume 1 (1962-1973), Volume 2 (1974-2001), ambos com traduções de Angelina Barbosa e Pedro Serrano — "Durante dois anos e meio lá se foram as nossas horas vagas, as férias. Metemos Dylan na cabeça como uma obsessão, como uma maldição", escreveu Serrano em postagem no seu blogue. Caetano Galindo traduziu os dois volumes em cerca de quatro meses, entre outubro de 2016 e fevereiro de 2017 "O Dylan oficial 'em brasileiro' agora é o de Galindo? Piada. Grosseria e arruaça. Não dá para aceitar nem perdoar", sentenciou Bueno. 

Leia a coluna completa de Eduardo Bueno:  

GROSERIA E ARRUAÇA — Traduzi 22 livros. Acho que sofri a cada linha – ou deveria dizer a cada palavra? Claro que houve momentos de transcendência e glória, de contato quase místico com o espírito do autor. Mas a questão é que, quando você se devota de verdade ao original, quando decide que não vai desistir enquanto não achar que fez justiça a ele; não tiver certeza que está sendo literário e não literal, que se manteve fiel não só ao estilo mas à essência do escritor cujas palavras agora estão em suas mãos, então verá que está metido num trabalho incessante, quase aterrador, mutável e mutante. Um trabalho que quase invariavelmente vai lhe parecer insatisfatório. 

Sim, se você é um tradutor e não um traidor, se ama, admira e respeita o autor que se dispôs a traduzir, se quer se manter fiel  não só a ele, mas a si mesmo e – oh céus – ao leitor que lerá a obra sem ter acesso ao original (ou sem se dar ao trabalho de cotejar o texto de partida), repito e reforço: prepara-se ser atormentado por dúvidas cruéis, viver dilemas aparentemente insolúveis, fazer escolhas impossíveis. E ganhando pouco.

Tive alguns instantes de glória, os maiores (e mais duradouros) justo graças à minha primeira tradução, a de On the Road, de Jack Kerouac, embora o editor tenha decidido chamar o livro de Pé na Estrada. Hoje, publicado pela L&PM, chama-se como sempre deveria ter sido: Na estrada. Tive também meus naufrágios. Lembro-me de dois, ambos vinculados ao dramaturgo Sam Shepard. Traduzi Fool for Lovecomo Louco de Amor e só depois de o livro pronto percebi que Louco para Amar era muito melhor. E, na primeira linha do primeiro conto de um livro dele escrevi “ar marinho”. Mas existe a palavra “maresia”...

Falo isso porque a Companhia das Letras acaba de lançar o segundo volume das letras de Bob Dylan, aquele cantor que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, sabe? O primeiro volume já tinha sido um miserável desastre. Não comprei, não li e não pretendo ler o segundo. Mas como amo Dylan, as pessoas me enviam tudo relativo a ele.  E assim chegaram a mim os títulos dos discos traduzidos. Empire burlesque virou “Império Farsa”, Slow Train Coming ficou “Trem Lento Chegando” e Rough and Rowdy Ways materizou-se como “Grosseria e Arruaça”. Esse último título até que cairia bem caso usado para definir o trabalho do tradutor, que aliás declarou não ser muito fã do Bob.

Como conheci Dylan pessoalmente, posso imaginá-lo pegando um trem expresso para acabar com a arruaça e com o império da farsa. Com certa grosseria. De todo modo, agradeço aos deuses não ter caído sobre meus frágeis ombros a tarefa de tentar fazer a língua de Dylan roçar na língua de Camões. Não tenho mais idade para noites em claro, ajoelhado no milho, rezando para São Jerônimo, o patrono dos tradutores. Prefiro açoitar os outros. 

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