Bob Dylan: 45 anos de “Desire”

A capa de Desire com foto de Ken Reagan

Por Márcio Grings

“Desire”, álbum que completa 45 anos em 2021, é um trabalho diferente de tudo que foi feito por Bob Dylan. Em 60 anos de gravações, essa aura incomum talvez ganhe força pelo fato de que Dylan trabalha com o dramaturgo e PHD em psicologia, Jacques Levy, parceiro em sete das nove letras do LP.  Ele é coautor de "Hurricane", "Isis", "Mozambique", “Oh, Sister”, "Joey", "Romance in Durango" e “Black Diamond Bay". Levy, que tornou conhecido pela sua direção na peça “Oh! Calcutta!” (1969), compôs canções com os Byrds e colaborou na carreira solo do líder do grupo, Roger McGuinn. Contudo, há outra característica que empresta caracteres exclusivistas ao álbum — suas mulheres!

Confira a live sobre os 50 anos de "Desire" no Canal Pitadas do Sal 

Emmylou Harris, com uma carreira solo estabelecida e lendária por sua cooperação nos discos de Gram Parsons, faz as vozes de apoio em “Desire”. Segundo seus relatos, ela gravou grande parte dos vocais no primeiro take, sem nenhum polimento. Ela não teve chances de refletir sobre as músicas. Emmylou foi apresentada às canções no estúdio da Columbia, em Nova York, atenta aos movimentos labiais de Dylan. Desse modo, sua participação é quase intuitiva. Contudo, ao ouvirmos o que canta não encontramos desalinho, pois ao vozes estão perfeitamente enredadas, como se Bob e Emmylou tivessem cantado juntos por anos.

Contudo, “Desire” se tornou uma ilha na discografia de Dylan pelo incomum som do violino de Scarlett Riviera. A história do encontro entre Scarlett e Bob se tornou lendária. Vinda de Chicago, a violinista tinha apenas 25 anos, e estava rumo a um ensaio no East Village, com seu violino guardado dentro do estojo, caminhando despretensiosamente pelas ruas de Nova York — “Enquanto descia a rua em direção ao meu apartamento, senti que um carro estava me acompanhando. E então, enquanto estava prestes a atravessar a rua, o veículo cortou meu caminho e alguém insistiu para conversarmos. Esse sujeito falou comigo e pediu para que eu tocasse algo. Eu disse que não poderia, pois, estava indo para um ensaio. E ele disse, ‘esqueça esse ensaio’. Em resumo, acabei convencida a entrar no carro”, lembra Scarlet. “Foi então que descobri que o homem no carro era Bob Dylan”.

A violinista foi levada até um loft cheio de instrumentos musicais onde Dylan havia aportado no Greenwich Village, e lá ele usou o piano e o violão para mostrar suas canções. Scarlett o acompanhou sem nem ao menos ter indicação do tom das músicas, sem conhecer nada previamente. Em resumo, naquela mesma noite, a violinista acabou por acompanhar Bob até um show de Victoria Spivey e Muddy Waters, onde participou de um jam. Quantos acontecimentos em apenas um dia. E haveria mais. Uma semana depois, Scarlett recebeu uma ligação de Dylan, sendo convidada para comparecer nos estúdios da CBS, onde encontrou uma série de músicos, entre eles Eric Clapton — “Aconteceu muito rápido. Quando a luz vermelha do REC não estava acesa, já estávamos ensaiando a próxima música”. Assim Scarlett Riviera entrou na banda de Bob Dylan, não apenas como mera figurante em “Desire”, pois foi convidada para ingressar na trupe da Rolling Thunder Revue. Apenas seis dias após gravar “Hurricane”, em 24 de outubro de 1975, a banda caiu na estrada. O violino de Scarlet seria uma das marcas no som de Bob Dylan nos anos de 1975/76. 

Conforme alertou o amigo Cristiano Radtke, pinçamos a inspiração de Dylan para a foto que está na capa de "Desire", basta olhar para o primeiro LP de John Phillips (veja ao lado). Assim como Phillips, Dylan está de chapéu, vestido com um casaco apropriado para enfentar o frio estadunidense. Os síbolos visuais do encarte e contracapa trazem cartas do Tarot, além de um texto assinado pelo poeta Allen Ginsberg, onde ainda encontramos uma fotografia do escritor britânico Joseph Conrad, como alertou outro amigo, Sal Jr (veja a live no Pitadas do Sal) . 

Gravado em apenas seis dias, entre julho, agosto e outubro de 1975, "Desire" é produzido por Don de Vito (Carole King, Bruce Springsteen), chegando às prateleiras em janeiro de 1976, com boa projeção nas paradas. Dos álbuns de estúdio, ele vem logo atrás de "Blood on the Tracks", seu LP mais vendido (sem mencionar os Greatest Hits). Apesar de muitos instrumentistas participarem das preliminares das gravações (foram mais de 20), na ficha técnica estão os nomes de Bob Dylan (voz, violão, guitarra, harmônica e piano), Emmylou Harris (voz) e Scarlett Riviera (violino), a banda do álbum, enxuta, traz Rob Stoner (baixo e voz de apoio),  Howard Wyeth (bateria e piano) e Dominic Cortese (acordeom e bandolim). Ronee Blakley (voz de apoio), Steven Soles (voz de apoio) e Luther Rix (percussão) dão um molho especial em "Hurricane". Eric Clapton, que teve todas as suas guitarras apagadas dos registros oficiais, ficou com apenas um registro (não creditado) no álbum, "Romance in Durango" (é o que dizem vários fóruns de discussões na internet). Das canções que ficaram de fora do tracklist, a melhor delas, "Abandoned Love", considerada por muitos dylanólogos uma de suas melhores canções, ganharia luz 10 anos depois, em "Biograph", box que traz um retrospecto de sua carreira. "Golden "Loom" e "Catfish" entraram em "The Bootleg Series Volumes 1-3"e "Rita Mae" foi lançada em single.  

Bob e Emmylou, as vozes de "Desire". 

Aqui no Brasil, num depoimento de quem já trabalhou em lojas de discos, lembro sempre haver disponível no acervo das lojas em que trabalhei exemplares de "Desire", constantemente requisitados por novos compradores. Consequentemente, muitos dos fãs tiveram neste disco uma porta de entrada para conhecer a música de Bob Dylan. Outra atestado da popularidade no país está no fato de que várias de suas músicas ganharam versão em português (Furacão/Hurricane, Joey/Joquim, Romance no deserto/Romance in Durango e Sara/Ana), além de regravações. As canções falam de renascimento e morte, estão repletas de espontaneidade e urgência, trazem personagens em constante movimento. Como poeta, Dylan funde espaços, tempos e culturas. "Desire" é um álbum que chega muito bem aos 45 anos, ainda tão impactante quanto naquele 5 de janeiro de 1976.       

— Hurricane

Na tradição folk, de recontar fatos históricos em forma de música, uma escola de onde Dylan buscou grande parte de sua persona artística, principalmente no início dos anos 1960, "Hurricane" é o símbolo da canção de protesto nos anos 1970. Bob Dylan e Jacques levy contam a história de Rubin "Hurricane" Carter, um peso médio afro-americano acusado de ser o responsável por um triplo assassinato em 1966, ocorrido em Patterson, New Jersey. Foi condenado a prisão perpétua. Eles revisitam a história como se fosse o caminho para o roteiro de um filme, o que acabou acontecendo em 1999, com "The Hurricane", com Denzel Washigton. Antes da condenação, Rubin Carter já era uma figura controversa, fichado pela polícia e afastado das forças aramadas por insubordinação. De todo o modo, Hurricane foi inocentado apenas em 1988, por provas insuficientes e por suposto racismo em sua acusasão e condenação. "Hurricane", a música, apesar de seus 8min30, ganhou as rádios e o coração dos fãs como avatar de justiça ao excluído. É o melhor dos cartões de visita que "Desire" poderia ter. É uma síntese do som que ouviremos ao longo do vinil, com o violino de Scarlett Riviera se sobressaindo em grande parte das músicas. A solo de harmônica na parte final é um fechamento que imprime ainda mais velocidade para essa canção/narrativa que se aproxima de um conto literário, até mesmo jornalístico. Destaque ainda para os vocais de apoio de Ronee Blakley e Steven Soles , além da percussão de Luther Rix. No Spotify, "Hurricane" é a 4ª música mais ouvida de Dylan, como mais de 156 milhões de streams. Aqui no Brasil, o tema ainda virou "Furacão", numa versão de Miguel Paiva e interpretada com excelência pela cantora carioca Cida Moreira em 1986 — Ouça AQUI        

Bob e Scarlett na Rolling Thunder

— Isis

"Isis", a mulher que sofre, nos traz o realismo fantástico em "Desire". Na mitologia egípcia, com suas lágrimas, Isis deu origem ao Rio Nilo. Logo após desposar sua musa, na impossibilidade de manter-se fiel, o cavaleiro parte para desbravar um mundo de outras possibilidades. E após inúmeras derrocadas e decepções, a lembrança permanente de Isis, com sua parcimônia e resignação, traz o cavaleiro de volta para casa. Lá, encontra a esposa, que o aguarda, mas o percebe mudado, quando então pergunta: "Vai ficar?". Ele, responde que sim. Ainda ma mitologia, foi Isis que instituiu o casamento. Essa história é uma analogia da própria vida de Bob e sua esposa, Sara. Dylan caindo na estrada, cedendo aos excessos, propagador da distância entre o casal, mas sempre com a expectativa de que quando o dia do retorno chegar, Sara estará lá, impassível, à seu espera, com os filhos debaixo da asa e pronta a recebê-lo de braços abertos. A música se tornou uma das preferidas no set da Rolling Thunder, sendo apresentada antes de "Desire" chegar às lojas, em janeiro do ano seguinte.       

— Mozambique

Após dez anos de guerra e com o retorno de Portugal à democracia através de um golpe militar de esquerda em Lisboa, que substituiu o regime do Estado Novo por uma junta militar (a Revolução dos Cravos, de abril de 1974), e na sequência dos Acordos de Lusaka, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), sob comando de Eduardo Mondlane, assumiu o controle do território moçambicano. Moçambique tornou-se independente de Portugal em 25 de junho de 1975 (justamente enquanto Dylan começava a ensaiar as canções de "Desire"). Após a independência, a maioria dos 250 mil portugueses que viviam em Moçambique deixaram o país, alguns expulsos pelo governo, outros fugindo com medo. Ou seja, o paraíso bucólico pintado por Dylan em "Mozambique" está longe de retratar o que os fatos reais nos dizem. Cenários idílicos, praias com areias convidativas margeadas pelo oceano Índico, onde casais dançam e tudo é perfeito. Parece-me mais um ambiente distópico criado por Bob, talvez um desejo (desire) de encontrar um lugar desconhecido com um nome exótico. Musicalmente é um dos grandes momentos do duo forjado com Emmylou Harris, que encontra no alto astral de "Mozambique" essa primazia. Destaque para o violão pulsante de Dylan e o baixo de Rob Stoner.     

Bob e Scarlett

— Onde More Cup of Coffee

Depois de David Oppenheim criar o mural que foi utilizado na contracapa de "Blood on the Tracks", Dylan partiu com o artista plástico até o sul da França, onde Oppenheim morava. Por lá,  na primavera de 1975, permaneceu como seu hóspede durante seis semanas. Neste local, eles visitaram um festival cigano em Saintes-Maries-de-la-Mer em Provence, justamente no dia do aniversário de Dylan, em 24 de maio, onde ele encontrou um velho rei cigano, decadente, abandonado por suas suas esposas e filhos. Daí veio a inspiração para "One More Cup of Coffee". Uma mulher atraente, vinda de uma família errante, de atiradores de faca e foras-da-lei. Dylan é o homem em fuga, atento ao brilho de uma navalha, sempre à espreita. Graças aos céus, sempre há uma parada estratégica para beber uma taça de café. Revigorada as energias, nosso herói segue viajem vale abaixo, rumo ao desconhecido. No Brasil, em muitas de suas apresentações, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro começou a apresentar "One More Cup of Coffee" num medley com "A Flor da Pele" e "Vapor Barato" (Jards Macalé/Wally Salomão). A releitura/medley de Baleiro pode ser ouvida AQUI  

— Oh Sister

A dobradinha violino gaita de boca entra rachando em "Oh Sister". O duo de Bob e Emmylou nos faz imaginar que a música poderia durar uma eternidade, mas seus quatro minutos encerram o Lado A. A letra passa uma sensação de pacifitude. A fraternidade parece estar ligada a irmandade do movimento negro norte-americano. Depois de ouvir "Oh Sister" quase não lembramos que o melhor par feminino de Dylan nos palcos foi Joan Baez. Ou será que Emmylou Harris roubou esse lugar da Dama do folk? Na dúvida, Joan em breve seria vista nos palcos da Rolling Thunder Revue, cantando ao lado de Bob. 

— Joey

Mafioso de Nova York,  Joe Gallo foi morto no bairro de Little Italy, em 1972. Estranhamente transformado em herói por Dylan, numa perspectiva romantizada, vale lembrar que Gallo não era um gângster vulgar, pois apreciava filosofia, arte e literatura, era leitor de Niezstche. Conhecido pela sua generosidade, era afetuoso com as crianças. Bob Dylan e Jacques Levy se encontraram com o ator Jerry Orbach e sua esposa Mary, amigos de Gallo, e após esse encontro a dupla de compositores colocou a mão na massa e escreveu a história que está na música. Por outro lado, o que não pode deixar de ser dito aqui é que 'Crazy' Joe Gallo se tornou conhecido por um vasto currículo de assassinatos, roubos, agressões e abusos de mulheres e crianças. Em 1987, o músico e compositor gaúcho Vitor Ramil fez uma versão de "Joey", ao qual rebatizou de "Joquim", também baseada em fatos históricos Ouça AQUI A música de Ramil biografa o inventor Joaquim da Costa Fonseca Filho (1909-1968), natural de Pelotas - RS — Tirei da história de Joey a estrutura nascimento-vida-morte, pois Joquim também morre baleado", disse Vitor Ramil em entrevista. Numa literatura comparativa, "Joey" e "Joquim" tem nas suas origens familiares a distância dos pais, eles têm vários irmãos, em geral, mais velhos. Ambos são apresentados, desde a infância, vivendo à margem pela sociedade como portadores do estigma da loucura. Há um estudo comparativo na internet, feito por Caio Rocha (UFRGS). Confira AQUI      

Dylan, Clapton e Emmylou.

— Romance in Durango

Se "Romance in Durango" fizesse parte da trilha sonora de um western, ao estilo do que Bob fez em "Pat Garret & Billy the Kid" (1973), não haveria nenhuma dissonância nessa comunhão. A música é faroeste puro. Há morte, sangue, romance, religião e uma visão transcendental ecoada no final da história, com direito a citações ao revolucionário mexicano Pancho Villa, das ruínas Astecas e parte do refrão está escrito em espanhol. A versão de Fausto Nilo para "Romance in Durango" batizada de "Romance no Deserto" ganhou o Brasil em 1987. É claro que a maioria que lê estas linhas conhece a releitura de Raimundo Fagner. Caso você não conheça, recomendo que continue a desconhecê-la, pois não faz sombra frente ao monstruoso espectro do tema original. "

— Black Diamond Bay

Emendada em "fade out/fade in" com "Romance in Durango", saímos do faroeste e partimos só com a roupa do corpo até "A Ilha do Dr. Moreau"! Inspirada numa notícia que Dylan viu no programa de TV de Walter Cronkite (citado na última estrofe) e no livro "Victory", de Joseph Conrad, "Black Diamond Bay" traz uma das letras mais debatidas de "Desire". Um casal em fuga num navio rumo à Baia do Diamante Negro, ganhando e perdendo num cassino a bordo. O clichê da vida projetada num jogo de cartas entra muito bem como enlace da trama. Invocamos o depoimento de um dos coautores, Jacques Levy — "Bob e eu havíamos lido Conrad. A ferroada vem no final, quando o ouvinte se dá conta de que a coisa toda está sendo vista pelos olhos de alguém assistindo à TV em Los Angeles, alguém que não dá a mínima", disse Levy a Brian Hilton, como se a TV tivesse nos anestisiado, nos reduzido a meros voyers.   

— Sara  

Dylan disse certa vez — "Eu não faço cançoes confessionais". Não acredite em tudo que você ouve, mas confie em metade do que você vê. Após meses sem ver o marido, Sara, a esposa do Dylan, estava do outro lado do aquário quando ele gravou a canção com seu nome. Em várias entrevistas, Jacques Levy confirmou o encontro do casal durante o take que acabou entrando para o disco. Nas memórias desse amor, Bob relembra os momentos felizes e pede desculpas à esposa. Dylan cantava, Sara observava e ouvia do outro lado da cabine de gravação — "Dava para ouvir uma agulha caindo. Ela ficou absolutamente atordoada pela canção. Foi um ponto de virada para eles. E funcionou", disse Levy. Dois dias depois, o casal voou para a fazendo deles em Minnesota. Vitor Ramil, de novo ele, fez uma versão de "Sara" em "Campos Neutrais" (2017) — Ouça AQUI Rebatizada de "Ana", Ramil homenageia Ana Ruth Miranda, sua esposa, numa releitura mais reflexiva, com um arranjo de metais que empresta uma nova cadência, mas que utiliza um cenário semelhante de resgate memorial de um casal. Bob e Sara se separaram em 1977. Vitor e Ana Ruth continuam juntos. 

Comentários

  1. Sensacional!!! Amo seus textos! Complemento perfeito para a live que rolou no Pitadas do Sal!!! Uau! 🤘🏻

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  2. Parabéns pelo texto. Amo o disco!

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