Documentário revive Noel Guarany, o grande bardo da música missioneira

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Por Márcio Grings

A formação musical que absorvi da minha família foi praticamente nula. Não há músicos e artistas entre os meus ancestrais, pelo menos que eu saiba. Não tínhamos toca-discos até 1985, ano em que ganhei meu AH-920 Philips. De todo o modo, lá pela segunda metade dos anos 1970, início dos 80, o rádio sempre estava ligado. No carro, na cozinha, seu som reverberava por todos os lugares da casa. Meu pai gostava muito de música regionalista, eram os áureos tempos da Tertúlia, Califórnia, dezenas de festivais aconteciam por todo o Rio Grande do Sul.

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E nessa confluência entre as décadas, Noel Guarany era um dos cantores preferidos do meu pai. Ele dizia: "Preste atenção nas letras". E que letras Noel escrevia, havia nele um raro requinte: "Se eu tenho um rio que murmura / e um rancho para viver / Um caíque pescador e um amor para querer / E o canto da passarada pra alegrar o amanhecer", diz a letra de "Sonho de Pescador", um de seus grandes sucessos. O capricorniano nascido na Bossoroca em 26 de dezembro de 1941, partiu em 6 de outubro de 1998, em Santa Maria, cidade onde residiu nos últimos 14 anos de sua vida. E assim como Robert Allen Zimmerman inventou Bob Dylan, Noel Fabricio Borges do Canto da Silva inventou Noel Guarany, o bardo rio-grandense.      

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Na Europa antiga, bardo eram os artistas conhecidos por transmitirem ao povo histórias, mitos, lendas e poemas. O bardo atuava simultaneamente como músico, poeta e historiador, utilizando a dobradinha música/poesia como um dos pilares desse ofício. Noel Guarany, um aventureiro que durante os anos 1960 peregrinou por países como Uruguai, Argentina e Paraguai, encontrou no turbulento espírito artístico platino, sul-americano e gaúcho, sua verdadeira identidade. Alguém tem dúvidas de que Noel Guarany era um bardo?      

Se na Argentina temos Atahualpa Yupanqui — No Chile, Victor Jara — Nos Estados Unidos, Woody Guthrie (this machine kills fascists) — paralelamente, aqui no Rio Grande do Sul, Noel foi o grande visionário, ativista e peregrinador que aglutinou o vernáculo regionalista com a linguagem sul-americana. O músico praticamente inventou a música missioneira e a canção de protesto nesse universo. Noel Guarany é o marco zero dessa linhagem, depois vieram Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Pedro Ortaça, entre outros. Mas tudo começou com ele, a parte mais sólida e original dos chamados "Troncos Missioneiros". Noel é responsável por colocar a 'música gaúcha' em outro nível, em separá-la da paródia e do caricatural. Entre suas virtudes estão a proficiência técnica como instrumentista e o rigor póetico das composições assinadas por ele: "Estrada clara de seiva / Luar de estrelas prateado / Onde peleia o dourado / Na boca dos espinhéis / Peregrino dos caminhos / No rumo dos horizontes" (Eu e o Rio).            

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Lançado no início do segundo semestre, em julho, o documentário "Minhas Andanças – Noel Guarany" é um libelo que revive um dos personagens mais profícuos de nossa música. O material está disponível no canal da Gadea Produções no YouTube. Produzido de forma independente, sem nenhum financiamento público ou privado, o filme é um necessário registro histórico.  “Ter disponibilizado o filme de graça para quem quiser assistir foi uma decisão acertada. Noel também deve estar feliz com tudo o que está acontecendo”, comemora o diretor Tiago Rodrigues. 

O filme narra diversos episódios da trajetória de Noel, recuperando desde um vasto arquivo fotográfico do músico, material em vídeo, além de entrevistas, reportagens, depoimentos de familiares e amigos, como os ex-governadores Olívio Dutra e Alceu Collares, que relembram causos e histórias da vida de Noel.  

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Ainda há destaque para temas que estão marcadas no inconsciente coletivo do cancioneiro gaúcho. “A partir da história de Noel Guarany é possível conhecer a identidade missioneira e indígena que formou o povo gaúcho”, afirma o historiador e músico David Cunha, autor da pesquisa que deu origem ao documentário. 

O documentário evoca o contexto da época, sobretudo o período de mobilização social pelo fim da ditadura e a volta da democracia no Brasil. “Também é um filme político, porque o Noel foi um ser político na relação com o seu público e como ele viveu. Com a situação que estamos hoje no Brasil, com perseguições, destruição da Amazônia, a questão indígena, causas que Noel defendia, acredito que o filme vem em um momento bem importante de discussão sobre liberdade e sobre a defesa do meio ambiente, ressalta o diretor Tiago Rodrigues.

E além disso, geograficamente Noel colocou os artistas sulistas no mapa sul-americano, com sua bússola apontada mais para o sul do que para o norte, mais para o espanhol do que para o português: "Com a garganta bem afiada / E os acordes bem certeiros / E assim qualquer brasileiro / Ou se escuta algum paysano / Verá que é sul-americano / O canto de um missioneiro" (Destino Missioneiro).

"Minhas Andanças – Noel Guarany", tem direção e roteiro de Tiago Rodrigues, com pesquisa e roteiro de  David Cunha. A fotografia é de Carlos Eduardo Moraes e Tiago Rodrigues. Montagem, Edição e Finalização, por Marcelo Coutinho. O projeto assinado por David Cunha, Laura Guarany, Leonardo Gadea, Maurício Macedo e Tiago Rodrigues pode ser visto pelo player abaixo.   

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