Yeddo Titze no MARGS

Divulgação Margs

No início de outubro visitei o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e fiquei impactado com a exposição de Yeddo Titze. A iniciativa de resgate desse importante personagem é do atual curador-diretor do museu, Francisco Dalcol, que foi meu colega na RBS, durante o tempo que atuou como editor de cultura do Diário de Santa Maria. Como colunista semanal do jornal, Chico também foi meu editor, pois como coordenador de progração da rádio Itapema, era colaborador do Diário. Entre 2012 e 2016, Dalcol foi editor e crítico de arte do jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS). Em 2016, ganhou a 1ª menção honorífica no Incentive Prize for Young Critics, concedido pela International Association of Art Critics (AICA). É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e da Associação Brasileira de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Doutorando em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com estágio de doutoramento sanduíche na Universidade Nova de Lisboa (UNL), é ele que assina com propriedade o texto sobre essa lenda das artes gaúcha.  

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Yeddo Titze (1935 – 2016) integra uma geração de artistas responsável pela fixação e desdobramentos da arte moderna na produção sul-rio-grandense. Além de professor universitário, notabilizou-se em nossa história da arte como um dos pioneiros da tapeçaria, uma referência da arte têxtil, sendo reconhecido nacional e internacionalmente. Mas foi também e em grande parte à pintura que Yeddo dedicou sua atuação docente e a própria produção, tendo sido um dos primeiros a explorar a abstração no Rio Grande do Sul, ao lado de artistas como Rubens Cabral, Nelson Wiegert e Carlos Petrucci. Era um passo ousado, uma vez que a introdução da pintura abstrata foi repelida pelo cenário então conservador do Estado, que se entendia resistindo à invasão de uma tendência internacional descomprometida politicamente e capaz de corromper os valores de uma arte vigente de caráter figurativo e viés nacional-regionalista. 

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Nascido em Santana do Livramento, Yeddo estudou no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, atual Instituto de Artes da UFRGS. Assim como muitos artistas gaúchos de sua geração, viajou à Europa em temporada de estudos, tendo vivido entre 1960 e 62 na França, onde recebeu lições de André Lhote e Marcel Gromaire. No final da mesma década, voltaria a Paris, desta vez para estudar tapeçaria. Participou de exposições e salões no Brasil e fora do país. Foi responsável pelo Setor de Artes Plásticas na Funarte em Brasília de 1976 a 1979. E depois do período de aulas na UFSM entre 1964 e 1980 — onde constituiu um ponto de referência da arte têxtil —, lecionou na UFRGS como professor de pintura entre 1980 e 1993. 

Divulgação Margs

Reconhecido pela importância de sua atuação e trajetória, Yeddo morreu em 2016, aos 81 anos, protagonizando um triste epitáfio. À época atuando em ZH como jornalista setorista de artes visuais, tive envolvimento profissional e mesmo pessoal com o episódio. Em 16 de junho de 2016, quase saindo da redação do jornal ao final de um dia de trabalho, recebi um telefonema (não lembro de quem, espero que esteja lendo) comentando que Yeddo estava prestes a ser enterrado como indigente. Surpreendido pelo relato e diante de fato jornalístico a ser checado, passei a fazer ligações para apurar as informações. E o acontecimento fora trágico: depois de sofrer um atropelamento na Avenida Farrapos, Yeddo fora levado ferido ao hospital e lá ficou internado. Mas não resistiu ao coma, vindo a falecer em alguns dias. Seu corpo foi então encaminhado ao Instituto Médico Legal, onde aguardava em uma câmara fria a liberação que só poderia ocorrer por meio de familiares em primeiro grau. Yeddo não tinha filhos, e vivia sozinho em Porto Alegre havia mais de 20 anos.  
Reprodução do original de Yeddo Titze. Divulgação Margs

Com a publicação da reportagem, o assunto veio a conhecimento público e gerou repercussão, mobilizando antigos alunos e colegas, familiares de quem havia se distanciado e o Instituto de Artes da UFRGS. E assim conseguiu-se contornar o impasse, oferecendo um funeral digno. Em 2019, quando assumi o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) como diretor-curador, cheguei com o propósito de realizar uma projeto em memória a Yeddo. Estabeleci interlocução com familiares (Rosa e Diogo Ribeiro Demartini), que manifestaram a disposição em destinar para o acervo do Museu obras que o artista havia deixado. Nessa tratativa, incentivei também que doações fossem feitas a outros acervos públicos. 

Reprodução do original de Yeddo Titze. Divulgação Margs

À época, considerava que a circunstância permitiria realizar uma exposição em homenagem póstuma a Yeddo. E é assim que o MARGS agora apresenta “Yeddo Titze — Meu jardim imaginário”, que presta uma homenagem ao artista e professor, procurando oferecer um justo e necessário resgate em sua memória. A mostra integra o programa expositivo do MARGS intitulado “Histórias ausentes”, voltado a projetos de resgate, memória e revisão histórica, tendo por objetivo conferir visibilidade e legibilidade a trajetórias e atuações artísticas. 

Reprodução do original de Yeddo Titze. Divulgação Margs

Reunindo obras de Yeddo pertencentes às coleções do MARGS, da Pinacotecas Barão de Santo Ângelo (UFRGS), da Pinacoteca Aldo Locatelli (Prefeitura de Porto Alegre) e também da família, a exposição organizada pelos curadores convidados Paulo Gomes e Carolina Grippa apresenta mais de 40 trabalhos das décadas de 1950 a 2010, abrangendo desde o início de sua formação até os últimos anos de produção. Essa união de esforços entre MARGS e as demais instituições e profissionais envolvidos na homenagem a Yeddo convida também a valorizarmos as políticas de aquisição de nossos acervos públicos, celebrando esta importante doação por parte da família e conferindo a oportuna e devida solenidade frente à consciência e ao gesto em nome da obra e memória do grande mestre e artista. 

Francisco Dalcol | Diretor-curador do MARGS, Doutor em Teoria, Crítica e História da Arte

Reprodução do original de Yeddo Titze. Divulgação Margs

Reprodução do original de Yeddo Titze. Divulgação Margs


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