80 músicas para os 80 anos de Bob Dylan — Por Eduardo Bueno e Márcio Grings (com comentários)

Reprodução YouTube do Canal Pitadas do Sal

Por Márcio Grings

Seria impossível passarmos em branco pelos 80 anos de Bob Dylan. Quando iniciei as conversas com Eduardo Bueno para fazermos o live streaming de aniversário do bardo norte-americano, inicialmente listamos 80 canções fundamentais, 40 para cada um. No final das contas, em duas horas de transmissão, falamos precisamente apenas de 14. Confira abaixo:

Playlist | 80 ANOS AO VIVO | Live comemorativa aos 80 anos de Bob Dylan

  • Ao Vivo:
  • 01 - Bueno | “A Hard Rain’s a-Gonna Fall” | 22 de maio de 1994, ao vivo em Nara, Japão com Tokyo New Philharmonic Orchestra regida por Michael Kamen  
  • 02 - Grings | | “A Hard Rain’s a-Gonna Fall” | “Live 1975” (The Bootleg Series)
  • (Quase) Desconhecidas:
  • 03 – Bueno | "Pretty Saro" | “The Bootleg Series Vol. 10”  
  • 04 – Grings | "Knocking on the Heaven’s Door" | ”Pat Garrett e Billy the Kid” (1973) - contém ironia. 
  • Épicos:
  • 05 – Bueno | “All Along the Watchtower” | “John Wesley Harding” (1968)
  • 06 – Grings | “Pay in Blood” | “Tempest” (2012)
  • Ao vivo em Porto Alegre:
  • 07 – “Simple Twist of Fate” | Pepsi On Stage, 24 de abril de 2012
  • 08 – “This Wheels of Fire” | Opinião, 7 de abril de 1998
  • Favoritas:
  • 09 – Bueno | “Up to Me” | “Biograph” (1985)
  • 10 – Grings | “Things Have Changed” | “Wonder Boys” (2000).

  • 11 – Grings | “Goodbye Jimmy Reed" | “Rough and Rowdy Ways” (2020).
  • 12 – Bueno | “Song to Woody” | Versão gravada em Nova York em 1970, com George Harrison.
  • Bonus Tracks:
  • 13 – Bueno | "I’m Not There" | “I’m Not There” (2007), trilha-sonora do filme de Todd Haynes.   
  • 14 – Grings | When the Deal Goes Down “Modern Times” (2006). 
Veja live completa aqui.  

 
Contudo, resolvo compartilhar aqui a ideia inicial, com a listagem das 80 canções, além de mais dois bonus tracks.  

Eduardo Bueno:

Minhas 10 mais
 
1) Song do Woody - porque foi a primeira, porque também foi a primeira que ele tocou no show dos 30 anos (e eu estava lá) e porque ele a tocou com George Harrison, na época em que vivia em Woodstock (embora essa gravação tenha sido em NY).

2) Up to me – Apareceu do nada, na caixa "Biograph", e foi como se resumisse "Blood on the Tracks" por inteiro – o melhor disco para tanta gente. E é a música com a qual mais me identifico, filosoficamente

3) Tomorrow is a Long Time – A mais tocante, poética, melancólica canção de amor, e a favorita da milha mulher

4) I shall Be Released – se tivesse que escolher UM único hino dele, seria esse.

5) When I Paint My Masterpiece – como ainda estou querendo pintar a minha, essa entra entre as 10, pois também apareceu do nada, no "Greatest Hits vol 2". 

6) One Too Many Mornings – talvez a que mais tenha recebido versões totalmente diferentes – e eu vou com a versão dele e Johnny Cash juntos.

7) Going to Acapulco – a alma de "The Basement Tapes" capturada em uma só música.

8) Like a Rolling Stone – não pode faltar, né e vou com a versão do "Before the Flood", já que foi a primeira que ouvi e estabelece o grande retorno e já aberta a sessão ao vivo.

9) Its All Over Now, Baby Blue – ao vivo em 1966.

10) Visions of Johanna – mas tem que ser a versão ao vivo em Portsmoutn em 2000. 

Quinze ao vivo – Como todo mundo sabe, Dylan é um “performing artist”, então para escolher as músicas de verdade, tem que ser em versões ao vivo – então, aqui vão 15.
 

1) Like a Rolling Stone – Judas, - a única que vai entrar duas vezes, já que é a melhor música da
historia do rock e em sua mais incrível versão, depois da acusação vil.

2)  I´ll Go Your Way, I`ll Go Mine – a primeira vez que ouvi o homem, e mudou minha vida de vez, a versão de "Before the Flood". 

3) Billy – ao vivo em Stockholm – a primeira e única vez que ele tocou essa.

4) Blind Willie McTell – na homenagem ao Scorcese. Como ele deixou essa de fora de Infidels, como?

5) Restless Farewell – quando ele ensinou o Frank Sinatra a cantar.

6) Cold Irons Bound – na versão do "Masked and Anonymous".

7) Hard Rain – versão sinfônica com uma orquestra de 40 japoneses, tinha tudo pra dar errado, só que não.

8) Lonesome Death of Hattie Carol – uma das mais poderosas canções, revista e sempre atual na versão da Rollling Thunder.

9) Baby Let Me Follow – será que ele estava pedindo para ir junto com o The Band, quando se despediu deles no Last Waltz?

10) Idiot Wind – a nova versão da Rolling Thunder, a de 1976, apresentou essa devastação ao vivo.

11) You´re a  Big Girl Now – toda a dor de "Blood on theTracks" ao vivo no "Hard Rain". 

12) Just Like a Woman - com George Harrison em Bangladesh. 

13) Tangled up in Blue – em "Real Live". 

14) Gotta Serve Somebody - na apresentação do Grammy.

15) Mr Tambourine Man – com flauta no Budokan – no disco não é boa, mas serve pra representar aquela turnê big band, que depois ficaria bem melhor, mas como eu ouvi ao vivo em Paris, em 1978, meu primeiro show, tá valendo. 

Dez épicos

1) Brownsville girl – parceria cinematográfica com Sam Sheppard.

2 ) Highlands – a maior de todas, em tamanho.

3) All Along the Watchtower – épico de 4 minuotos, that never ends.

4 ) Desolation Row – épico surreal.

5) Tears of Rage – épico patriótico, com lágrimas.

6) Every Grain of Sand – para lembrar do cristianismo poético.

7) Isis - melhor a religão egípcia.

8) Mississipi – épico das águas barrentas.

9) Long and Wasted Years – os longos anos sempre produtivos. 

10) Roll On John - porque são os dois maiores juntos para sempre num ceu de marmelada, pairando sobre essa terra escura.

Cinco que quase ninguém conhece

1) Angelina – que uma época esteve no meu top tem ever.

2) Sign Language – com o Clapton, no disco dele.

3) Pretty Saro – por que não entrou no Self Portrait? Porque entrou no Another Self Portrait, ora...

4) Red River Shore – por que ficou fora?

5) Spanish is the Loving Tongue – as pessoas nem sabem que é dele

E uma a mais, é claro, um bis muito apropriadamente chamada "One More Cup of Coffee", ao vivo na Rollling Thunder. 

Márcio Grings

Minhas dez mais:

1) Goodbye Jimmy Reed – porque é da última leva. Porque é um quase octogenário comendo a bola. Porque percute a lembrança dos inferninhos no Sul dos Estados Unidos, quando no mesmo domingo em que cultos religiosos eram tomados pelos fiéis, ao final do dia, muitos deles se acotovelavam nos juke joints para beber uísque de milho, cobiçar a mulher do próximo e chacoalhar o esqueleto ao som de um blues. É um puta blues do Século XXI com cara de Chicago Blues anos 1950.   

2) Things Have Changed – porque ao som dessa música eu tomei a decisão de me separar da minha primeira mulher. “Antes eu me importava / Mas as coisas mudaram”. A música que deu o Oscar ao Velho e que deu vida (de verdade) ao Jack Frost produtor.     

3) Not Dark Yet – Apocalíptica, saudosista, sempre me soou como o retrato de um mundo que se esboroa, apesar de ainda continuarmos nele. Até quando? Letra adequadíssima para o atual momento da humanidade e tá no meu disco n° 1. “Nasci aqui e devo morrer aqui contra a minha vontade / Pareço me mover, mas permaneço estagnado”.    

4) Love Sick - Riff burro (no bom sentido, quase atonal), um homem amarrotado e desiludido com o amor. Uma música indivisível da atual persona de Dylan no palco.  

5) I’ll Remember You – Porque é uma das melhores músicas de amor do Véio, se tivesse sido lançada nos anos 1970 ganharia esse status. Ela tem a influência ecumênica pós fase gospel e tá incluída num disco maldito, detestado por muitos, “Empire Burlesque”. Quando a tocou ao vivo sempre foi um momento iluminado das apresentações.    

6) Romance in Durango – Porque era a música favorita dos meus pais quando o assunto era Bob Dylan. Eles dançavam na sala ao som dessa música. Meu pai morreu faz 28 anos, e toda vez que minha mãe escuta essa música ela se emociona. Esqueça a famigerada versão do Fagner, é um faroeste em forma de canção.    

7) Buckets of Rain – É Dylan fazendo poesia. Ela dá um certo tom de esperança num disco onde a barra pesa, “Blood on The Tracks” (1975).

8) Never Say Goodbye – Sempre quando penso em Dylan e Band lembro dessa. Certamente não é a mais lembrada, mas a guitarra de Robbie Robertson, os vocais de apoio e toda a climática de uma banda fazem dessa música um rock maiúsculo desse período.   

9) To Be Alone With You – Blues dylanista, aquele clima informal, simplista, mas que também bate na trave do country. Está num disco que na época foi massacrado, mas que hoje é reverenciado.         

10)  She Belongs to Me - Aquele tipo de música que define a métrica de suas composições, o estilo de cantar, a harmônica que pode ser tocada com certa displicência, mas que personaliza a digital de Dylan (tantas vezes imitada, poucas vezes igualada)

 Quinze ao vivo 


1) Simple Twist of Fate (24 de abril de 2012, Pepsi on Stage, Porto Alegre) – Eu simplesmente chapei nessa versão. Tive vontade de parar o tempo nessa versão. 

2) I Want You (7 de abril de 1998, Opinião, Porto Alegre) – Eu estava fora de mim (meu primeiro show). Abracei o amigo que estava comigo e viramos cerveja um no outro. Finalmente eu estava vendo o Velho ao vivo. A versão dessa noite é algo próximo disso.   

3) Try To Get to Heaven (5 de outubro de 2000, Londres) – No Direction Home / Addtiions the the Bootleg Series (1989-2005). Essa versão de aproxima do jazz, soa ainda mais triste, mas avassaladora.

9) Just Like a Woman (Hard to Handle – 1986) – Lembro que vi isso pela TV, 1987, creio eu, num programa da Globo chamado “Clip-Clip”, que passava no sábado a tarde. Adoro o violão fantasma do T. Petty (e como ele sabe fazer pose), assim como acho os Heartbreaker são uma senhora banda de apoio (e o time perfeito para a transição final rumo o Never Ending Tour. É uma grande versão e Dylan canta muito bem nesse vídeo.  

4) Love Minus Zero/No Limit (At Budokan – 1978). Conheci Dylan ao vivo com esse disco, inclusive essa música. Na época esse registro foi porta de entrada para a minha geração, pois muita gente tateou sua obra ao vivo com discos como esse e o “Real Live”.     

5) Shelter From the Storm (Hard Rain – 1976). Gipsy band, e que banda! Dylan como guitar leader (mesmo tendo com Mick Ronson com ele!).  

6) Maggie’s Farm (Hard Rain – 1976) – Do mesmo disco, e até a guitarra levemente desafinada colabora com o charme dessa versão.  

8) Rainy Day Women (Before the Flood – 1975). Se alguém quiser um bom exemplo de como ele cantou bem nos anos 1970, coloque essa a todo volume bem nas fuças do detrator.

10) A Hard Rain 's A-gonna Fall (Live 1975). É um dos melhores momentos da Rolling Thunder Revue soando em potência máxima. Ainda bem que o Scorsese revitalizou esse material em vídeo. Um salve para o Carcamano.  

11) Mr. Tambourine Man (Live 1975). É como se fosse uma volta aos anos 1960. O Dylan instrumentista e vocalista na ponta dos cascos e um clássico para emoldurar isso.

12) Visions of Johanna (The Real Royall Albert Hall 1966 Concert). Acho essa versão ‘naked’ simplesmente de emoldurar e colocar na parede. Conheci o mar só em 2004, era essa música que tocava no carro quando me aproximei e enxerguei a imensidão azul pela primeira vez.  

13) Ballad of A Thin Man (Live 1966). Clássico sem legendas.

14) Leopard-skin Pill-box Hat (Live 1966). Música de trincar os dentes. É um senhor blues com o motor do Band impulsionando a virulência da letra. Pobre, Edie.  

15) Bob Dylan’s Dream ((Brandeis University – 1963). Conheci quando comprei o disco em 2012. É uma das minhas preferidas da fase folk. 


Dez épicos

1) Crossing the Rubicon (Rough and Rowdy Ways – 2020). Alguém já pensou em ouvir um Chicago blues com letra que descreva imagens análogas a Roma Antiga? Ah, sim, Dylan já havia feito isso com "Early Roman Kings", de "Tempest". Mais alguém? Ainda estou esperando momento da vida em que direi: “Um beijo, gurias! Nos vemos no lado de lá, pois vou atravessar o Rubicão”. Um som desse naipe no Século XXI? Se o Grammy não fosse uma farsa ela seria laureada como Canção do Ano por ‘Rubicon’.     

2) Pay in Blood (Tempest – 2012). Sempre imaginei que Keith Richards ou os Stones poderiam cantar essa. Soa tão doce, mas sabemos que esse lance de pagar com sangue é puro Sam Peckinpah.

3) When the Deal Goes Down (Modern Times – 2009). Mesmo Com a chupada de um poema de Henry Timrod, ou dessa tentativa de emular os standards caretões dos anos 1940 (que eu adoro), Bing Cosby, coisa e tal, é uma das baladas mais bonitas da Era Jack Frost. E ainda tem clipe com a Scarlett Johanson!!!!!  

4) Make You Feel My Love (Time Out of Mind – 1998). Talvez subestimada na época do lançamento (não era uma das minhas preferidas), é um daqueles tipos de música que crescem a cada nova audição. Ela também virou a peça-chave daquele filme do Dan Folgelman (viu?), “A Vida em Si”. Até a Adele concorda comigo.  

5) Jokerman (Infidels – 1983). Eu cresci ouvindo Dylan nos anos 1980, e pensar que canções como essa tocavam no rádio me faz pensar que o mundo já foi um lugar melhor.

6) If Not for You (Dylan – 1970). Gravação cristalina, parceria com Harrison, uma música que ganhou a digital de um beatle na coautoria. É uma das minhas preferidas desde sempre.  

7) Tonight I'll Be Staying Here With You (Nashville Skyline – 1968). Fecham-se as cortinas em Nashville Skyline e essa canção aparentemente bobinha é e será sempre uma das minhas favoritas desse período. Adoro as duas primeiras fases da letra: “Jogue minha passagem pela janela / jogue minha mala também”.

8) Queen Jane Approximately (Highway 61 Revisisted – 1965). Uma música que descreve a perfeição de um álbum icônico.  

9) It’s All Right, Ma (I’m Only Bleeding) / (Bringing It All Back Home – 1964). O retrato de um instrumentista, letrista, vocalista em perfeita sintonia com a época e a efervescência dos anos 1960. Acho ela perfeita em Easy Rider, mesmo que na voz do McGuinn (é uma bela versão).  

10) Don’t Think Twice, It’s All Right (The Freewheelin’ – 1962). O Dylan folk como deve ser apresentado aos incautos que ainda não o conhecem.   


Cinco que quase ninguém conhece

1) World Gone Wrong (World Gone Wrong – 1993). O terreno de “Time Out of Mind” começou a ser adubado como os dois discos de blues que ele lançou no início dos anos 1990. É Dylan se fazendo de morto e buscando no blues uma nova reinvenção. Mesma que não seja dele a autoria, a canta como se fosse. Essa música simboliza essa intenção. Adoro esses dois álbuns.      

4) Emotionally Yours (Empire Burlesque – 1985). Ao lado de “I’ll Remember You”, duas de suas melhores canções de amor que estão no mesmo famigerado LP. Imagina remixar esse disco sem aquele eco horroroso na bateria. A versão dos O”Jays no concerto do Madison (que tu viu) pra mim é um momento iluminado daquela noite.     

3) Cantina’s Theme (Pat Garret and the Billy the Kid – 1973). Western song com aqueles uhh, uhh vocalizados, acho de uma lindeza ímpar. Essa trilha-sonora é um senhor disco fora da curva.

4) Knocking on the Heavens Door (Pat Garret and the Billy the Kid – 1973). Contém ironia: apenas uma certificação de que ela não foi composta pelos Guns N’ Roses, pois muitas vezes apresentei essa música e deixei boquiabertos alguns desinformados.  

2) All the Tired Horses (Self Portrait – 1970). Música para abertura de filmes de faroeste. Se alguém ainda não a colocou num filme, em outra encarnação vou fazer isso.

No bis, If You Belonged to Me (The Travelling Wilburys III – 1990). Porque os Travelling Wilburys são uma junção genial e essa música é puro Bob Dylan em sua melhor forma e ainda tem os backing do Tom Petty, matadores.   

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