Review: "Meu Reino por uma Cerveja", de Ronaldo Lippold



Foto da capa: Pablito Diego/Memorabilia Books



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O primeiro gole de cerveja. É o único que conta. Os outros, cada vez mais longos, cada vez mais anódinos, dão apenas frouxo amolecimento, sensação de abundância esbanjada”, é o que nos diz o escritor francês Phillippe Delerm em “Le Première Gorgée de Bière et Autres Plaisirs Minuscules” (1997), livro lançado no Brasil pela editora Rocco, com tradução de Leny Werneck (O Primeiro Gole de Cerveja e outros minúsculos prazeres). Toda vez que levanto um copo de cerveja na mão e o levo até a boca, no ímpeto de tomar o primeiro gole, invariavelmente o livro e a crônica de Dellerm me tomam de assalto. E mais: passei a acreditar nessa máxima — é o primeiro gole que conta. A partir de então, bebo apenas na vã tentativa de resgatar essa elementar sensação. Contudo, agora posso afirmar — esqueça o francês. Após ler “Meu Reino por uma Cerveja”, de Ronaldo Lippold, tenho a sensação de que essa saciedade com o primeiro gole não passa de um ato de conformismo relativo aos amadores. 

Foto: Pablito Diego/Memorabilia Books
Mudei de estágio. O livro de Lippold decreta a premissa de que nem mesmo se bebêssemos toda a cerveja do mundo seríamos tomados por sentimentos de satisfação — um gole, um copo, uma garrafa? Piada! Ronaldo nos conta histórias de bebedores insaciáveis, apreciadores absolutamente entregues ao volúvel desejo de beber como se não houvesse amanhã! “Meu Reino por uma Cerveja” está embebido de referências históricas, resgata episódios, lendas, moções, sagas de homens e mulheres que dedicaram sua vida ao prazer alquímico deflagrado pela ingestão do desejado líquido cor-de-ouro. Há um percurso cronológico em “Meu Reino por uma Cerveja”, muitas vezes baseado em personagens reais, episódios verídicos, mas reinventados e recontados pelo olhar do autor, um homem dotado de um inabalável senso de humor. 

Foto: Pablito Diego/Memorabilia Books

Da cerveja bebida pelos Faraós do Egito, aos ancestrais ébrios da Mesopotâmia; da saga dos irmãos cervejeiros de Jerusalém, ao Mercador de Cervejas que sobrevive a Peste Negra; das fórmulas secretas advindas da Flandres Ocidental, a cisão de uma família pelo trono de uma Abadia; da busca pela melhor pilsen da Boemia, à queda dos soldados bebuns de Napoleão Bonaparte; do oportunismo de um jovem londrino que se ampara no espólio literário do pai, à pérola da coroa enclausurada no Potemkin; da decepção do Conde Drácula por uma herança descontinuada, até às verdadeiras motivações que influiram na Guerra do Paraguai; dos mirabolantes desdobramentos cursados pela Cerveja do Führer, às aventuras de Zé Bigode, um Jack Sparrow dos pampas perdido num faroeste distópico; do canastrão que busca enriquecer utilizando uma mistura de cerveja como tônico capilar, ao investigador perdido num Mosteiro da Quarta Colônia — “MeReino por uma Cerveja” nos leva até uma intrépida jornada pelos quatro cantos do mundo, pequeno tomo onde a escrita de Lippold não abre brechas para o tédio ou arrefecimento criativo. 

Memorabilia Books
Sempre que leio Ronaldo Lippold — não tenho ideia por quê — mas ouço na minha imaginação sua voz a narrar essas descrições literárias. Emissão sonora clara, inconfundível timbre de dublador da Herbert Richers, uma voz que seria perfeita para atuar num áudio livro ou num filme noir. Assim, vamos ao bordão — In cervisiam veritas, do latim — “na cerveja está a verdade”, subversão do provérbio romano que expressa a sensação de “liberdade” provocada pelo álcool. Nesse contexto, proclamo — depois de finda a leitura de “Meu Reino por uma Cerveja” — só nos resta abrir mais uma cerveja. 

E, para aqueles que comparam o bródio proporcionado pelo bordão de Philippe Delerm ou enaltecem os excessos dos personagens de Ronaldo Lippold, não tenham dúvidas: É muito fácil reconhecer o legítimo vencedor dessa disputa entre o prazer do primeiro gole e o desejo de encher a cara.

"Meu Reino por uma Cerveja" é um lançamento do Memorabilia Books, e a publicação entra em pré-venda nos próximos dias. O leitor que optar em adquiri-lo por este sistema, pagará um valor menor e receberá seu exemplar antes do lançamento oficial, que está definido para o mês de maio. Mais informações em breve.  

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