A evolução de Mick Jagger no palco

Mick Jagger em "Gimme Shelter". Foto: c.Everett/Rex 

Por Luciano Teles

A evolução de Mick Jagger, como cantor e frontman dos Rolling Stones, é muito interessante. Desde cedo, tentou arrumar uma dança ou qualquer outra coisa que pudesse fazer, além de cantar. Sem contar a habilidade na gaita e, sim, na guitarra. Keith não se cansa de elogiar sua performance como guitarrista base. Já na gaita, para resumir minha opinião, basta dizer que "Midnight Rambler" é minha música predileta da banda. Mas a ocupação de todo o palco é uma de suas marcas registradas. E sempre adicionou uma corrida ou outra, além de seus passos de dança. Muito próprios, diga-se. Constantemente tenta fazer com que outros integrantes também sejam vistos em todos os espaços. Há cenas em que orienta Wood e Richards, para se mostrarem nas passarelas laterais, frontais etc.

Nos shows com o saudoso Billy Preston, nos anos 70, percorria o palco com o pianista, principalmente nas duas músicas deste – "That´s Life" e "Outa Space. Anda: é extremamente atento aos arranjos. Em "Gimme Shelter", o filme, quando Taylor mete um bend em "Satisfaction", ele olha e mostra claramente a sua própria satisfação. Porque, sendo arranjo ou improviso, ficou muito legal. 

Ainda com Keith, sempre que o guitarrista cantava "Happy", até a turnê de 1978, salvo engano, Mick o acompanhava. Isso é mostrado nos DVDs "Ladies And Gentlemen", The Rolling Stones, com a turnê de 1972, no LA Forum ’75, e no "Some Girls, Live in Texas '78". Em todos, Jagger chega a ocupar o microfone sozinho. Não que isso seja um escândalo ou surpresa ou tenha qualquer outra conotação de minha parte. Apenas constatação. Mas não deixa de ser engraçado, quando Mick olha para o microfone ao qual deveria estar Keith. A introdução tinha acabado, mas o vocal não tinha começado – sempre que vejo a cara de “cadê o Keith”, que Jagger faz, rio sozinho.

   

"Let's Spend The Night Together", DVD da turnê de 1981/82, já mostra Mick se retirando, para Keith tocar sozinho sua música. No caso, "Little T&A". Entretanto, tudo ficou ainda mais nítido, para mim, quando comecei a ver shows deles com outros convidados, para participações especiais. Atlantic City ‘89, foi o primeiro em que pude ver isso. Nem tanto com Clapton e John Lee Hooker. O primeiro já tinha dividido palco com eles algumas vezes. O segundo... Bem... Alguém aí ia controlar o que John Lee Hooker tinha ou não de fazer? 

Mas ele se mostrou bem atento com Axl Rose - que entrou com Izzy Stradlin, para "Salt of the Earth". Mick sempre com atenção voltada para o vocalista do Guns and Roses, para sua vez de cantar e a hora de ambos entrarem juntos. Além da movimentação deles pelo palco, que ficou bem bacana, aliás. Um indo para cada passarela lateral. Público de passarela lateral pode se sentir meio que esquecido. Tanto quanto o pessoal que fica atrás do palco, no Madison Square Garden, Royal Albert Hall e outros locais de shows. Normalmente, os artistas se voltam para a frente do palco. Mas Mick sempre fez questão de valorizar a galera das laterais, sempre acenando e percorrendo as alas próximas.

   

Quando recebendo cantores, os mesmos gestos são sempre usados para indicar ao convidado a sua hora de cantar: braço flexionado para cima, com indicador em riste, além da cabeça, meio que mostrando "agora", com olhos bem abertos. Pegue qualquer show com convidados. "Shine a Light" ou das outras tours, principalmente a de 50 anos. Sempre os mesmos gestos e a preocupação de tudo sair dentro do planejado. 

Apernas uma observação adicional: Mesmo quando canta sem convidados, depois de ocupar todos os espaços possíveis, seu retorno para o centro do palco marca o preparo para finalizarem a música. Olha para Keith e este se vira para a banda. É quando Charlie faz uma virada ou outro toque e a canção pode, enfim, se encerrada. Perceber esses pequenos sinais enriquece a experiência (para usar termos atuais) de se assistir a um DVD de show.  Alguém já escreveu que Mick Jagger é um misto de cantor, compositor e empresário. Eu penso que o palco é onde ele melhor reúne e mostra todas essas funções.


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