Ouça playlist com canções correlacionadas ou citadas em "Murder Most Foul", novo tema de Bob Dylan

"Murder Most Foul" foi lançada no dia 27 de março.  
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Por Cristiano Radtke  — colaborou Márcio Grings

Na manhã da última sexta-feira (27) os fãs de Bob Dylan acordaram com uma nova música do bardo norte-americano. Com 16 minutos e 56 segundos, "Murder Most Foul" é sua gravação mais extensa, superando "Highlands", de 1997, tema de "Time Out of Mind" com 16 minutos e 31 segundos. O tema estreou sem aviso prévio, mas com um recado nas redes sociais:

"Saudações para meus fãs e seguidores com gratidão por todo apoio e lealdade através dos anos. Esta é uma canção inédita que gravamos há algum tempo e que vocês poderão achar interessante. Fiquem seguros, fiquem atentos e que Deus esteja com vocês", publicou no Twitter e Facebook. 

Ouça "Murder Most Foul". 



Em "Murder Most Foul" (que se supõe ter sido composta na época de "Tempest"), Dylan retoma uma fórmula de contar histórias musicais muito utilizada no folk — o talking blues, ideário que mistura ritmos repetitivos com um método de interpretação mais falado do que cantado, e até mesmo sem refrão. Basta olhar para sua discografia para encontrarmos temas similares como "Talkin' New York, Talkin' World War III Blues" ou "Motorpsycho Nightmare."

Arte: cultivatingculture.com
Mestre no uso de palavras e imagens que comportam várias interpretações e significados, Dylan nos provoca já a partir do próprio título, que pode ser livremente traduzido como "Assassinato a Sangue Frio" e que tanto pode se referir a uma fala em "Hamlet", de William Shakespeare, quanto a um livro de Stanley J. Marks com o mesmo título, que trata das teorias da conspiração que envolvem o assassinato de Kennedy — como foi bem lembrado por Scott Warmuth em seu Twitter.

Confira a letra em português (tradução livre)
Confira a letra original  

Arte: Zé Otávio
O assassinato de John Kennedy em 1963, quando o presidente norte-americano foi atingido em praça pública durante uma visita a Dallas, no Texas, ainda é um dos maiores traumas da sociedade estadunidense, com todas as controvérsias que cercam o fato. No entanto, esse pano de fundo da canção é um mote enganosamente simples que Dylan utiliza para que o acompanhemos em uma jornada de fôlego que apenas ele seria capaz de nos proporcionar.

Revisitando algumas conhecidas teorias da conspiração para esse assassinato, Dylan repassa fatos históricos em meio a uma narrativa cheia de referências culturais: contrapontos literários, citações diretas e indiretas a filmes, músicas e personalidades que ajudaram a definir o século XX. É como se Dylan, sempre atento às mudanças, nos alertasse de que esse mundo descrito na letra está morrendo ("I said the soul of a nation been torn away/and it's beginning to go into a slow decay", "eu disse que a alma de uma nação foi arrancada/e agora estamos em um lento declínio") e ele quisesse resgatar essa memória, nos convidando a acompanhá-lo nessa empreitada com atenção ("if you want to remember you better write down the names", "se você quiser lembrar é melhor anotar os nomes").

Arte: Antônio Siber
A impressionante lista de referências utilizadas por Dylan (Beatles, Marilyn Monroe, Patsy Cline, para citar apenas uns poucos nomes dos tantos referidos na canção, é uma mostra significativa de uma época que não existe mais, ao menos não como costumava ser. Em tempos de imediatismo e desinformação, Dylan nos deixa com mais perguntas do que respostas ("what is the truth and where did it go?", "o que é a verdade e para onde foi?"). "Murder Most Foul" é uma Guernica poética em forma de canção, uma deliciosa charada musical que nos instiga a buscar desdobramentos ambíguos. Falar sobre o tema é como tentar explicar um tratado histórico, como também poderíamos pensar num longo podcast em busca de múltiplas interpretações, e mesmo assim, estaríamos apenas raspando um diminuto lote dessa superfície de significados.

Arte: The Walrus
Na playlist inclusa abaixo, selecionamos 65 músicas que são citadas direta/indiretamente por Dylan em "Murder Most Foul". Como já foi avisado, podemos perceber que várias frases na letra possuem significados distintos, breves enigmas que podem ou não ter relação com a narrativa. A inclusão da própria "Murder Most Foul" no player certamente não é obra do acaso. Assumindo a posição de um contador de histórias, Dylan nos mostra que a história mundial é uma sucessão de ciclos contínuos, e essa citação parece querer nos induzir a uma pergunta que remete a outra música: "Will The Circle be Unbroken" (o círculo será constante?). Assim, estendemos o convite de Dylan a você e perguntamos: o que faltou nessa playlist? Deixe sua sugestão nos comentários.

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