Eu e Santa Maria

Foto: João Gabriel
Texto publicado no livro "O Caminho Mais Longo" (2014)

Muitas vezes pensei em ir embora de Santa Maria. Sabe aquele sonho de partir em busca de uma nova Terra das Oportunidades? Nunca saí. De alguma forma ou outra eu me movimento por essas esquinas e quebradas há mais de quatro décadas. Conheço cada palmo dessa província de chão batido, paralelepípedos e asfalto. Sei o nome das ruas, conheço o cheiro dos lugares e identifico grande parte das pessoas com quem cruzo no dia a dia. Já contei os ladrilhos da calçada da minha infância na Pedro Gauer, atravessei a Presidente rumo a Alceu Valmose, próximo ao Cemitério Municipal. Joguei bola no antigo campo do Mallet, brinquei de trabuco em um terreno baldio na Av. Liberdade, joguei bolita na Lucídio, levei um “corridão” do Pinduca e da Gang da Quitéria. Tomei um soco do Adriano em frente ao açougue do seu Osvaldo, na Silva, rodei na sexta série do Colégio Fátima e arrumei uma namorada na época do Cilon.

Comecei a forjar minha identidade na Independência, fiz lenha com cadeiras da cozinha do Marco e alimentei a lareira da sua casa só pra ver o fogo brilhando no escuro. Ao seu lado, conversando por horas e horas, tomei vinho tinto barato nas madrugadas insones ouvindo Jethro Tull e Chico Buarque. Vi o show do Alceu Valença no estádio do Riograndense, cantei "Volver a los 17" com Mercedes Sosa na Estância do Minuano – e, bebum, apaguei feio em uma barraca minúscula na Tertúlia de 1987. Em um sábado à noite, vi A Bruxa no ATC, e no domingo, tomei banho de serra no Pinhal. Quando Gavião fundiu o Alfa Romeo, eu estava na carona do automóvel.

Foto: Guilherme Escosteguy 
Vendi discos no Bobbysom, loquei fitas na Da Cás Vídeo, fiz programas de rádio, toquei com minha banda em vários lugares e bares. Falando de mim, tenho certeza, muitas pessoas irão vislumbrar traços de si próprios. Já perceberam como a história se apaga ao não resgatarmos nossas lembranças? Essa galeria na memória precisa ser alimentada. Faça um exercício e tente se lembrar daquilo que aconteceu na sua vida por esta terra. (sem ordem cronológica).

Tenho certeza, muitos resquícios de épocas vividas serão ressuscitadas.

Da mesma forma que continuo vendo o fantasma do meu pai caminhando pela velha oficina da Venâncio, muitas vezes ainda ouço o ronco da Brasília azul do Xandoval em frente ao portão de casa. Parece que foi ontem que Teco passava com seus bolachões debaixo do braço, instigando minha imaginação. Não sei por que, acordei saudosista, me lembrando de coisas como essas que contei. Existem outros tantos relatos, alguns impublicáveis, provavelmente até mais interessantes, no entanto, destinados a figurar apenas como histórias orais em algum lugar dessa cidade.

Viver e morrer em Santa Maria, talvez seja esse o meu destino. Cansei de olhar para o horizonte em busca das Terras do Leite e do Mel, miro os olhos para o céu da Depressão Central e vejo nuvens de algodão se encaixando no quebra-cabeça do firmamento. Mesmo assim, gosto de me imaginar em outros lugares. 

Insisto...

Foto: Guilherme Escosteguy

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