Luciano Leães e Nova Orleans - a história de um amor que nunca acaba

Foto: Monica Kelly 




Por Márcio Grings

MÚSICO LANÇA NOVO SINGLE NOS ESTADOS UNIDOS

Escolha a nomenclatura: New Orleans, Nova Orleans, Nova Orleães, Nawlins (aqui usaremos as quatro termologias), o importante é que a mais populosa urbe do estado norte-americano da Lousiana vive um período de festividade, pois estamos no ano de seu tricentenário. A cidade foi assim nomeada em homenagem a Filipe II, Duque d'Orleães, que era então o regente e o chefe de estado na França à época em que Nova Orleães foi fundada, em 1718. Sua história, economia e cultura está diretamente associada ao rio Mississípi, segundo curso de água mais longo do país. Mesmo rio que também empresta o nome a outro estado, além de ser berço de gêneros como blues e jazz, afora diversos subgêneros. Embora nascido distante geograficamente dessa região, o músico brasileiro Luciano Leães é apaixonado pela melancolia crônica da cidade. Artisticamente, admira seus personagens e encontra inspiração na música que vaza ininterruptamente pelos seus míticos  quarteirões. Já esteve por lá sete vezes...

Capa de "Power of Love"
Não seria exagero dizer que Luciano Leães já é conhecido na cena de Nova Orleães. Um 'gringo' apaixonado pela cultura sulista estadunidense, um pianista que tem a música de Nawlins como principal estímulo artístico. Quem já ouviu seu álbum de estreia, "Power of Love" (2015), - leia reviewsabe que essa devoção ao blues encontra território fértil quando os dedos do porto-alegrense escorregam pelas teclas de um teclado ou piano. Fora dos Estados Unidos, desconheço alguém tão fidedigno a esse vocabulário musical.  


Divulgação Maple Leaf
E depois de exatos três anos de shows pelo Brasil, Argentina, Estados Unidos e Europa, seja em turnês solo, com sua banda e como sideman de artistas norte-americanos, o ciclo iniciado em "Power of Love" encerra sua gira com Chave-de-Ouro, simplesmente na Cidade das Maravilhas do músico. É como se fosse a primeira linha de um haicai: "Leães em Nova Orleães". Há rima e consonância nesse encontro. 

Nesta terça-feira (18), Luciano Leães estreia no Maple Leaf, uma das casas de espetáculo mais importantes do Sul dos Estados Unidos. A primeira vez no ML acontece justamente num momento especial da cidade: 

"Se apresentar no Maple Leaf é emblemático para qualquer artista do gênero. É um bar onde muitos músicos importantes já tocaram e ainda tocam. Dos atuais, nomes como John Cleary, John Vidacovich, George Porter Jr (The Meters), entre outros, ainda circulam por lá. É 'o bar' para assistir um show local", explica.   

Nesta noite, Leães divide o palco com importantes pianistas - Tom McDermott, Joshua Paxton, Tom Worrell, CR Gruver e Joe Krown, time de craques das teclas especialmente selecionados para o Booker Birthday Bash, evento em homenagem a James Booker, um dos filhos ilustres de New Orleans.  

E apenas dois dias depois, na quinta-feira (20),  Leães retorna ao mesmo palco, num show solo (Booker Bar Series), para a première de "Song for J.B.", tema de "Power of Love" em versão ao vivo gravada neste ano com a Orquestra da Unisinos Anchieta. Por uma feliz coincidência, o tema instrumental que homenageia seu ídolo, ganha lançamento no mesmo tablado em que James Booker se apresentou poucos dias antes de morrer. "Isso é incrível! Não foi algo programado, mas se tornou um perfeito fechamento de ciclo". Dentro de uma constante imersão, entre um show e outro, o músico brasileiro continua a enveredar seus passos por ruas e galerias de Nawlins, absorvendo aos poucos a francesia decadente que teima em permanecer charmosa e atraente em muitos cantos da cidade.

Luciano Leães e Tom Worrell, atrações da noite de quarta-feira (18) no Maple Leaf. Foto: Erika Landis
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Entre suas conquistas nessas peregrinações, Leães se tornou amigo de Pat Byrd, filha de Professor Longhair, uma das maiores lendas do piano blues: "Não apenas musicalmente, mas essa imersão no cenário daqui me fez conhecer lugares fantásticos, pessoas incríveis, um aumento de bagagem sem precedentes na minha trajetória". Em suma, assim ele pôde viver situações inusitadas, como por exemplo ser convidado para a festa de aniversário da filha de Longhair, e de bônus ainda poder trocar figurinhas com Dr. John, outro dos importantes nomes do legado musical da cidade.

Luciano Leães no Booker Birthday Bash. Foto: Erika Landis 
Além das duas datas no Maple Leaf, Leães toca no dia 19 no Tipitina's (Professor Longhair 100th Birthday); dia 20 ele estará no Side Bar (Fess Around); e finalizando sua sétima passagem, no dia 21 o minitour encerra no Little Gem (Mo' Fess). O detalhe interessante é que Leães declara que mesmo dentro desse profundo influxo pela música de New Orleans, contraditoriamente essas incursões também o fizeram retornar as origens: "Dá pra perceber que há um embrião comum ligado a origem africana, uma gema única em vários ritmos similares a nossa cultura". Como exemplo o músico cita gêneros como o  tango, habanera, maxixe, choro, maracatu e lundu. Para o próximo trabalho, dialogando na mesma via dessa visão, Leães prepara uma comunhão ainda mais acirrada entre a combinação de ritmos abraçados pela cultura negra mundial.

O palco do Maple Leaf. Foto: Luciano Leães
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Atualização (19/12): Confira trechos da apresentação de Luciano Leães no Maple Leaf. Video 1, improviso com Tom Worrell (crédito John Trigas), vídeo 2, Luciano solo ao piano (crédito: Swati J. Shah) 

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