Review: Ian Siegal "All the rage" (2018)

Ian Siegal no MDBF 2018. Foto: Camila Gonçalves
Por Márcio Grings

Por mais que Ian Siegal não goste de ser denominado como bluesman, não há como negar que mesmo vindo de uma geração mais recente, o músico de 47 anos já é cascudo o suficiente para levar adiante a bandeira do autêntico blues. Esse inglês de voz rouca que escolheu Amsterdã como lar vem impressionando crítica e público nos últimos anos. Seis anos após o último trabalho de estúdio acompanhado por uma banda, "All the Rage", seu 13º álbum, merece toda nossa atenção. Embora longe de ser rotulado como um disco de protesto, algumas de suas novas canções claramente refletem raiva e ansiedade sobre nosso tempo.

De todo o modo, sim, na temática das 10 canções há um bocado de senso político. Produzido pelo cantor/compositor norte-americano Jimbo Mathus (ex-Squirrel Nut Zippers), "All The Rage" explora as raízes norte-americanas do blues, além de apresentar um cruzamento contínuo com rock 'n roll, soul, blues e gospel. É também uma crítica ao autoritarismo das guerras culturais que tomaram conta do mundo nos últimos anos. A "fúria" no título também refere-se à desilusão de Siegal com a política em geral.

A capa de "All the rage" foi desenhada pelo próprio Siegal. Foto: reprodução 
O blues "Eagle Vulture” expressa a indignação de Siegal em como os políticos usam o discurso orwelliano para galvanizar apoiadores, enquanto de forma maquiavélica procuram ocultar verdadeiras intenções. "Aint You Great" é um ataque sarcástico ao flagrante narcisismo e autopromoção do atual presidente americano. Tive a oportunidade de ver Ian Siegal ao vivo no Mississippi Delta Blues Festival 2018 e ele tocou com uma camiseta com a inscrição: "Fuck Trump".

"Jacob's Ladder" tem um ambiente musical quase britânico, confronto direto com o desespero encontrado na letra. “The Sh * t Hit” é quase tradicional, influenciado por Muddy Waters, ícone mundial tatuado no braço esquerdo do músico. O tema reflete sobre opções disponíveis ao homem comum, isso à medida que o mundo se aproxima de um suposto estado anárquico. "Won't be your shotgun rider" combina uma vibe country com uma letra sugerindo que, em circunstâncias extremas, é melhor deixar uma alma perdida partir. O coro de anjos no refrão soa com o a pá de cal, o sino do coveiro nessa maneira 'torta' (ou não) de ver as coisas. Em “If I Live” Siegal encarna o espírito de Howlin 'Wolf, com um leve aceno para “Smokestack Lightnin”. “My Flame” é um lamento sobre um amor perdido. O álbum termina com “Sailor Town”, narrativa folclórica que versa nas dificuldades de crescer em uma cidade portuária.

Na banda base Dusty Ciggaar (guitarra), Danny Van Hoff (baixo), Rafael Schwiddessen (bateria), e Jimbo Mathus (orgão, bandolim e piano). Gravado em quatro sessões (em apenas seis horas), "All the Rage"  representa o melhor de sua produção artística - um cantor de blues com diferentes modulações e intenções; um instrumentista de mão cheia; e o melhor - o resultado de todo o somatório nos entrega um punhado de boas canções.

Ouça o álbum na íntegra. 

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