A alma universal na música de Luana Pacheco

Foto: José Carlos Andrade

CANTORA GAÚCHA LANÇA ÁLBUM DE ESTREIA NO DIA 6 DE DEZEMBRO. OUÇA "PARAPLUIE", PRIMEIRO TEMA LIBERADO PARA AUDIÇÃO


Numa época em que a aparência quase sempre importa mais do que o interior, o álbum de estreia da cantora Luana Pacheco consegue unir forma e conteúdo com louvável requinte. A artista já soma mais de uma década de trajetória, atuando tanto nos palcos quanto em gravações, tendo promovido seu debute fonográfico no EP “Gris”, lançado em 2015. Em seu primeiro disco no formato full length, Luana ainda se lança como compositora de nove dos dez temas apresentados, com exceção da releitura de “Habanera”, tema extraído da ópera “Carmen”, de Georges Bizet.

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Arrume sua mala, pois a experiência de ouvir o autointitulado trabalho de estreia da cantora gaúcha é um verdadeiro assombro cosmopolita. A música de Luana possui um espírito Wanderlust (do alemão wandern: 'caminhar', 'vagar' + Lust : 'desejo'; em português, "desejo de viajar"), termo que descreve um forte apetite de descobrir novos lugares, de explorar o mundo, de nos levar ao desconhecido, a algo novo. Não há dúvidas de que ao embarcarmos nessa trip sonora iremos conhecer (e reconhecer) ambiências diversas... 

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E assim, como suas inspirações alicerçadas em grandes nomes femininos da música norte-americana, francesa e brasileira, nesse conjunto de canções é totalmente legítimo que Luana também transite pelos três idiomas que a auxiliaram a construir sua persona artística. Por isso, resolvi separar os temas pelas línguas escolhidas pela autora.

E nossa viagem começa em português. “Casa” parece uma balada desconhecida de décadas passadas. Arrisco que cairia bem nos anos 1940 (e por que não agora?), uma música que poderia remanescer mesmo que soterrada pelos chiados de um antigo rádio à válvula. Só que tudo soa límpido, transluzente. “O tempo vai passar / E eu ainda estarei aqui”. Fico com a sensação de que voz de Luana não apenas embala uma afável melancolia, sua emissão nos reconforta como uma delicada canção de ninar que nunca sairá da lembrança. O blues ativista “É tão fácil” fala de uma das nossas mazelas sociais, pois coloca o dedo na ferida no que compete à omissão tanto do governo quanto da sociedade civil sobre o permanente descaso com os meninos de rua: “O menino nasce puro/O menino ainda chora/O menino é corrompido/De quem é a culpa agora?”. Em evidência, atente para a guitarra afiada de Solon Fishbone.

Em francês, “Gris” tem apenas o violão de Luana e o piano de Luciano Leães, tema que novamente nos remete ao passado, com a voz no habitat da francesia e do chansonnier. Ao ouvirmos uma das canções símbolo do álbum, apenas as teclas na introdução de “Maladroite” solidificam o minimalismo do arranjo, sustentáculo adequado para o voo etéreo da cantora. A letra fala da consternação da perda, da inabilidade em prosseguir em frente. A dualidade entre entregar os pontos ou perseverar se manifesta no arranjo de cordas. O violoncelo de Bianca d’Avila do Prado e o violino de Miriã Farias podem drapejar tenebrosos como um pesadelo, para logo depois ondularem límpidos e melódicos, nos conformes de um sonho afável, ao som de uma valsa triste. É o momento mais dramático do disco - Luana flutua como um anjo caído em meio aos escombros de uma velha mansão vazia. Um espetáculo de música!

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“Parapluie” é puro blues, um tema que prega o amor como tábua de salvação para a desesperança: “Oh mon amour/Quand le ciel s'effondre/Tu viens/Oh mon amour, sous un parapluie/Tu viens (Oh, meu amor, quando o céu desaba, tu vens/Oh, meu amor/Sob um guarda-chuva, tu vens)”. Também há o sombreio da música soul, uma guitarra que dá o ar da graça por um fugaz instante, num clima anos 1950, um piano New Orleans e arranjos de cordas que cromatizam o refrão. A “Habanera” de Luana soa como se Bizet estivesse impregnado pelo espírito da música negra norte-americana, culpa do piano e do trompete burlesco de Bruno Nascimento.    

Apesar do título em francês, “Peut-etrê” é cantada em inglês, com apenas o refrão e o último verso na língua de Rimbaud. Trata-se de uma balada que bebe nos anos iniciais do rock, mais propriamente nos fundamentos que forneceram o combustível para milhares de canções que ouvimos até hoje. Certamente pelo tiquetaquear contínuo do naipe de sopros, ou pela própria interpretação de Luana, em “I don’t have Money”, possivelmente temos o recorte mais soul do álbum. “O tema é inspirado na sonoridade Stax/Motown”, diz Leães, que também é coautor de cinco faixas, além de assinar a produção do álbum. “Na verdade costumo chamar de arranjo Tussânico (risos)”, uma referência a Allen Tussaint, um dos grandes nomes da cena musical do Sul dos Estados Unidos. “I don’t care” é o que podemos chamar de blues mais blues desse conjunto de canções, uma música em que Luana abre a caixa de ferramentas e alterna suavidade e potência, nunca abdicando da elegância. Já “The way you look me” transita pelo refinamento e sofisticação do jazz, culpa da condução típica do gênero determinada pelo baterista Ronie Martinez, mas principalmente pelo trepidar certeiro das teclas. 

Ao final da audição, eis um álbum que flui inteiramente, sem desvios ou distrações. Porém, não se engane em pensar que estamos falando apenas de pragmatismo técnico, pois há um bocado de alma nessas dez canções, uma alma livre e universal. Wanderlust music... 

Luana Pacheco lança seu trabalho no dia 6 de dezembro, às 21h, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, em Porto Alegre. Os ingressos estão disponíveis pelo site da Sympla. Compre AQUI

Ouça "Parapluie", faixa que abre o álbum e primeiro tema liberado para audição.

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