Graham Nash - Dosey Doe Big Barn, 20 de Setembro de 2018

Foto: Pedro Bajotto
Ouço a música de Graham Nash há mais de 30 anos. Primeiramente via Crosby, Stills & Nash e Crosby, Stills, Nash & Young, para um tempo depois descobrir sua carreira como solista ou em duo com David Crosby. "Songs for beginners" (1971), seu primeiro disco solo, é disparado um dos álbuns que mais ouvi na vida. Nash é um daqueles artistas que parecem dizer tudo com extrema simplicidade e perfeição poética.  

E aos 76 anos, o músico continua na estrada. Em especial, neste dia 20 de Setembro, o veterano está no Dosey Doe Big Barn, bar localizado na 25911 I-45 North, em Houston, no Texas. Na plateia ceca de 200 pessoas. Não, eu não estou lá. Nesse momento, com meu smartphone na mão, recebo trechos de vídeos, áudios e fotos do lendário artista inglês que se incorporou ao ideário do folk rock norte-americano. Quem está sentado em uma mesa bem em frente,a direita do palco, é meu amigo Pedro Bajotto. 20h30, Nash está quase ao alcance das mãos de Pedro, com ele, Shane Fontayne (guitarra e voz de apoio) e Todd Caldwell (teclado e voz de apoio).     

Dosey Doe Big Barn, bar localizado na 25911 I-45 North, em Houston, no Texas. Foto: Pedro Bajotto
Ele abre o show com "Wasted on a  way" (Crosby, Stills & Nash) e "Bus Stop" (Hollies), e assim promove um breve relato inicial da sua história com as duas formações que o tornaram um dos músicos mais conhecidos do nosso tempo, além de serem canções que definitivamente o representam dentro dos espectros dessa trajetória. Adentrando no hall de suas músicas lançadas em parceria com David Crosby, "Immigrant Man" é um belo extrato da noite. Já "Another sleep song", música que fecha o seu segundo LP solo, o bom "Wild Tales" (1974), sempre esteve entre minhas preferidas de seu repertório. 

Veja um trecho de "Military Madness".

Na sequência vem uma de suas melhores criações recentes, a confessional "Myself at last", do álbum "This path tonight" (2016), do último trabalho de inéditas. O solo de harmônica apenas acentua uma ligação direta com tudo que Nash já fez de melhor (ouço o áudio que Pedro me mandou várias vezes, ao vivo, tudo fica ainda mais verdadeiro). Depois temos "Military Madness", libelo antibelicista que abre "Songs for begginers" e do mesmo álbum, "Simple man", a música que no meu ponto de vista sintetiza a fórmula Nash de letra/canção: "Eu sou um homem simples / Então apenas canto canções simplórias". Uma simplicidade que continua a nos encantar. "Eu procuro retornar ao estado emocional em que estava imerso quando compus minhas músicas", diz a plateia. Talvez por isso, sua voz ainda soe cristalina, com semelhante tessitura dos anos iniciais, apesar de percebermos uma desgaste natural, que de todo modo não desabona em nada sua atuação. Pelo contrário, empresta ainda mais legitimidade. A bela "Wind on the water", na gravação original com Crosby , trata-se de um dos preâmbulos vocais mais belos já realizados pelo duo (Critical Mass). Novamente há uma corporificação da presença do velhor partner, para muitos indissociáveis das figuras um do outro. E o primeiro set termina com uma versão de "A day in the life", clássico dos Beatles. Nash é implacável em suas escolhas.

Foto: Pedro Bajotto
Breve intervalo, Pedro me mando mais alguns áudios, descrições e impressões sobre o show: "Cara, é o melhor show que já vi na vida", diz Pedro pelo Whats. 

A segunda parte começa com o embalo bicho grilo de "Marrakesh Express", uma dos números advindos de um dos melhores álbuns lançados na segunda metade dos anos 1960 (o LP de estreia de de CSN, de 1969), e espécie de marca registrada da era riponga do folk rock. Em "I used to be a king", uma de minhas prediletas, Nash fala do deslumbre e da presunção: "Eu costumava ser um rei e tudo ao meu redor virava ouro"; e também nos conta sobre o revés de cair na real: "Eu costumava ser um rei e tudo ao meu redor virou à ferrugem". "Right Between the eyes" nos leva de volta a "4 way street", álbum duplo do quarteto fantástico Crosby, Stills, Nash and Young, gravado em junho de 1970. "4 + 20" é uma saudação ao amigo Stephen Stills, tema que ainda é uma das marcas registradas da obra do texano. Um curiosidade: 4/20 refere-se a cultura canábica, pois a data 20 de Abril é muitas vezes citada como "Weed Day" (Dia da erva) ou "Pot Day" (Dia da Maconha). 

Foto: Pedro Bajotto
"Quando estava com Crosby, Stills e Young, não havia espaço para tocar algumas de minhas canções, pois éramos quatro compositores, e apenas me sentia feliz por estar ali", disse Nash em determinado momento do show. É o caso de "Taken at all", uma incrível canção que acabou ficando de fora dos álbuns, um outtake que reascende nessa versão com Shane Fontayne e o Todd Caldwell, atuais companheiros de estrada de Nash. Fontayne já tocou com Bruce Springsteen, Sting, Ian Hunter e Joe Cocker. Já Caldwell é um dos músicos de apoio de seu trabalho mais recente, e o resultado desse encontro nos alude ao espírito do melhor do folk rock e performances vocais. E já que voltamos a falar de "This path tonight", "Golden days", outras das boas canções do álbum também está no set. "Just a song before I go" representa a marca do som de  Crosby, Stills & Nash, aqui mais propriamente o som feito na segunda metade dos anos 1970, uma espelho ofuscado pela ressaca do fim da era de ouro do gênero.

Veja um trecho de "Marrakesh Express".

"Orleans" não passa de um tributo a David Crosby, o maior de seus companheiros artísticos. E por mais que atualmente estejam afastados, tudo indica que um novo reencontro se aproxima. "Our House", gema faiscante de "Déjà vu" (1970), é o momento em que o público se junta a Nash em uníssono. A canção é um relato da vida do cantor na época que viveu com a cantora canadense Joni Mitchell, no período em que dividiram um chalé em Laurel Canyon, bairro próximo as Hollywood Hills, em LA. Não há como não se emocionar com um dos temas mais representativos da era CSNY. "Chicago" ainda é um de seus maiores hits, um tema que ganhou o mundo como autêntica Nash Song. A releitura de "Everyday", de Buddy Holy, nos leva de volta as origens da música pop, um período que inspirou bandas como Beatles e o próprio Hollies. Nash, Fontayne e Caldwell cantam juntos, em volta de apenas um microfone, como se emulassem o espírito dos dias iniciais do rock. 

Veja um trecho de "Teach your children".

  

E a noite termina com "Teach you children", uma das músicas símbolos do Crosby, Stills, Nash & Young, ligação direta entre o rock acústico e o country. O tema nos alerta sobre o quanto precisamos nos preocupar com as novas gerações, da troca mútua entre elas e lembrança da necessidade do constante cruzamento como estimulo para os dois lados. Na mesma esteira da canção, em entrevista ao jornal Houston Press, Nash nos deixa o aviso sobre uma das práticas cotidianas que está disseminada entre todos nós: “Eu vejo [as pessoas] andando com os rostos colados na tela dos celulares, sem olhar para o alto e sem se comunicar com ninguém. É alarmante! E não são apenas crianças ”, disse Nash ao repórter Bob Ruggiero: "A tecnologia de hoje está conectando pessoas, mas também está nos mantendo muito separados". Parafraseando a canção, no que compete a coisas simples como essas, parece que os pais de hoje ainda precisam continuar ensinando seus filhos. E vice versa. Neil Young também já nos disse em "From Hank to Hendrix": "A mesma coisa que nos ajuda a viver pode nos matar no fim". Nesse caso, contraditoriamente, essa mesma tecnologia me conectou ao show desse dia 20, me ajudou a viver e também não me matou no fim. Ou melhor: me deixou louco de vontade de estar lá, fisicamente falando...       

Foto: Pedro Bajotto
Sobre Pedro, em estado de graça após o show, ele me conta que conversou com um senhor de 80 anos, um inglês natural de Blackpool, cidade natal de Nash e vizinha a Liverpool, e que era frequentador do Cavern Club, uma das Mecas sagradas do rock. O velho amante do rock disse que  tem na sua conta shows assistidos do Yardbirds com Sonny Boy Wiliamson, Chuck Berry, Little Richard, entre outros. Falando especificamente da apresentação de Graham Nash nesse dia 20, Pedro Bajotto confessa arrebatamento: "O show é de um nível muito superior, arrepiante. Não consigo lembrar de outro músico que tenha visto ao vivo, e que tenha me sensibilizado assim. A harmonia de sua voz ainda soa impressionante. E durante o show, ele conversa muito com o público, falando de histórias das canções e várias vezes citando nomes de pessoas importantes em sua vida, como David Crosby e Joni Mitchell".  Pedro segue: "Eu to completamente fora de órbita hoje, piloto automático (risos). 'Just a song before I go' foi demais. Ele contando que essa musica foi uma aposta com um amigo traficante. Nash tinha um voo em 50 minutos e esse trafi apostou USD500: 'I bet you can't write a song Just before you go'. Nash deu risada e disse: 'você me deu o titulo, o tema e meus USD500'". 

E sobre voltar ao trabalho depois de uma noite dessas: "Tô tonto, todo errado", confessa Pedro Bajotto. Foi um barato ter compartilhado com meu amigo parte dessa experiência. Só a música pode promover um encontro desses. É como se eu estivesse lá no Dosey Doe Big Barn, sentado na mesma mesa do meu amigo. Sensacional, Pedro!

Veja um trechinho do início da noite. "Wasted on a  way".    


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