20 anos de Bob Dylan no Opinião: "Time Out of Mind", álbum em evidência no tour de 1998

TOoM. Arquivo pessoal
Por Márcio Grings

Nessa semana, o Memorabilia publica matérias especiais sobre a segunda passagem de Bob Dylan por Porto Alegre, apresentação ocorrida em 7 de abril de 1998, e que teve como palco o Opinião Bar (José do Patrocínio, 834). Conversamos com testemunhas oculares do evento, nomes como Eduardo Bueno, Cagê Lisboa, Marcelo Nova e diversos fãs que presenciaram o show e revelam suas lembranças.

Setlist em áudio
Ouça depoimento de Cagê Lisboa
Leia entrevista com Marcelo Nova
Leia entrevista com Alexandre Lopes
Leia review da apresentação de Bob Dylan no Opinião

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O disco que Bob Dylan colocou debaixo do braço na edição de 1998 do "Never Ending Tour" era "Time Out of Mind”. Apenas sete meses antes do dia 7 de abril, noite em que o músico faria sua segunda apresentação na Capital gaúcha, o álbum rendera três prêmios Grammy, incluindo o de Melhor Álbum. Do trabalho em evidência, Dylan tocou dois temas no show do Opinião — "Love Sick" e "Cold Irons Bound". 

"Ele queria que o disco pudesse ser 'mais sentido do que pensado', que fosse 'uma performance em vez de uma mera sacada literária'. Inspirado em parte por sua própria mortalidade, em outro viés baseado por sua própria mitologia e, principalmente, evocado pelo o que se passa dentro da sua cabeça de poeta, 'Time Out of Mind' é um marco em uma carreira que teve muitos épicos discográficos ao longo das últimas décadas", diz o trecho extraído do review do álbum postado no site S&Y.

Numa breve retrospectiva, voltando aos anos 1990, “Under the Red Sky" abriu a década num álbum que oscila bons e maus momentos. Dois títulos de transição prepararam o terreno para a segunda metade daquele período — ”Good As I Been to You" e "World Gone Wrong" — trabalhos compostos apenas de canções tradicionais (folk/blues) rearranjadas por Dylan, espécie de combustível que ele  utilizaria para armar suas futuras canções em TOoM. 

Com isso, no início de 1997, ele novamente chama Daniel Lanois para produzí-lo, além de se enfurnar com um punhado de veteranos no Criteria Studos em Miami, onde burila aproximadamente 15 músicas, das quais 11 acabaram em "Time Out of Mind" (os outtakes podem ser encontrado em “ The Bootleg Series Vol. 8 Tell Tale Signs: Rare and Unreleased" (1989-2006 ).

Antes do lançamento de TOoM, ainda em 1997, Dylan acabou num hospital com Pericardite, um problema cardíaco sério. Quando o álbum finalmente saiu, em 30 de setembro daquele ano, canções como ”Not Dark Yet e “I Can’t Wait” pareciam ácidas reflexões sobre a experiência de quase-morte, mesmo embora as músicas fossem escritas e gravadas antes de adoecer. Ainda hoje, quando ouvimos esse esse conjunto de canções, dá pra perceber uma aura nebulosa, um som pastoso que parece evocar fantasmas adormecidos.     

As letras são geniais. “Standing In A Doorway”, por exemplo, poderia ter tocado naquela noite em Porto Alegre: Dont know if I saw you / If I would kiss you or kill you / It probably wouldnt matter to you anyhow / You left me standin in the doorway cryin / I got nothing to go back to now (Se eu encontrar você / Não sei se vou beijá-la ou matá-la / Provavelmente isso não lhe importaria / Você me deixaria na porta lamentando / E eu não tenho mais para onde ir)."E nesse trabalho Dylan veste a tradição com roupas contemporâneas, no que pode ser visto como um dos discos que marcam o fim do século XX", como também nos evidencia a já citada publicação do S&Y.

"Love Sick" esteve no set do Opinião. O orgão de Auggie Meyers que ouvimos na versão original do álbum é substituído pelo riff "furréco” da Fender de Bob que coloca o Opinião em estado de alerta. A música vende perigo e tensão, e tornou-se ao longo dos anos um de seus temas favoritos na estrada. Dylan e seu guitarrista na época, Larry Campbell, dividem os solos e trocam olhares como se fossem comparsas preparando uma emboscada. Basta a primeira frase de “Love Sick” — e o modo como o intérprete a canta — para sabermos que estamos diante de uma obra-prima: “I’m walking… Through streets that are dead (caminho pelas ruas mortas)”. Ele fala de amor, mas de um tipo amor cascudo onde as flores murcham, onde os buquês nunca são entregues e acabam sendo jogados em latas do lixo. 

Outra faixa de TOoM que caiu no repertório do Opinião foi "Cold Irons Bound", momento em que apresenta sua encarnação gato vadio encurralado a rosnar num beco escuro. Sim, por que tanto "Time Out of Mind" quanto o tour que ele deflagrou, gritam o ressurgimento de Dylan como vocalista, promovido tanto pelo foco dos novos temas, e até mesmo pelo desgaste natural de sua voz.

E de certa forma, o som rouco que surge da garganta de Bob, uma voz ancestral e catarrenta, é o símbolo quase perfeito para esse álbum quase perfeito, refletindo nas lembranças de um show praticamente perfeito. Torci para ouvir faixas como "Not Dark Yet", assim como apenas em sonho ouviria a longa "Highlands" e seus ecos de Charlie Patton. Nenhuma delas deu o ar da graça. Quando o tour passou por aqui, o LP/CD já era aclamado por críticos e fãs, batendo no Top 10 das paradas americanas. E a turnê desse ano, na grande maioria dos shows que correram nos dois lados do Atlântico, se equiparou a qualidade do álbum.


Depois de TOoM Dylan resolve que apenas ele próprio produzirá seus novos trabalhos. Assim nasceu Jack Frost, alter-ego do artista que assina a produção de seus álbuns. E novos frutos vieram, "Love and Theft" (2001), "Modern Times" (2006), "Together Through Life" (2009) e “Tempest (2012).

Ouça o álbum na íntegra. 

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