sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Os Melhores Álbuns de 2016

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Por Márcio Grings

E chegamos ao mês de dezembro, período em que tradicionalmente revelo minha lista dos melhores álbuns de cada ano. Um ano marcado pelo desaparecimento de grandes nomes da música, um ano em que outros veteranos (e sobreviventes continuam mostrando sua força criativa), ano em que o rock de Santa Maria reascendeu sua chama, ano em que novos nomes surgem e nos acordam que a fila continua andando. Nunca esquecendo que mesmo em meio a catástrofe musical dos dias atuais, ainda temos lampejos de boa música tremeluzindo e retumbando em nossos corações.

Clique no TÍTULO de cada álbum e ouça-o na íntegra. 

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Em 2016 nada pode ser comparado a “Blackstar”. Poucos artistas conseguiram promover uma despedida semelhante a de David Bowie: uma das saídas de cena mais classudas da história da música pop. “Blackstar” foi lançado no dia de seu aniversário, em 8 de janeiro. Dois dias depois ele estava morto. Frente à estupefação do desaparecimento de um dos maiores ícones do rock, “Blackstar” é a síntese de seu testamento artístico. A perturbadora faixa título, “Lazarus” que ganhou um arrepiante videoclipe, “Sue (or in a season of crime)” e “I Can’t Give Everything” estão entre os melhores momentos. O sax bruxuleante de Donny McGaslin, a guitarra de Ben Monder dão o tom jazzístico ao percurso da audição, resultando numa última e reluzente obra de arte de um dos gênios do nosso tempo.

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Falando mais sobre despedidas, se Bowie nos deixou a sombra de um grande álbum, coincidentemente o canadense Leonard Cohen fez algo muito parecido. Ainda em questão de paridades, as duas obras versam sobre o ocaso da existência, dois tratados que escolhem o preto como paleta de cor. Lançado no dia 21 de outubro, “You Want It Darker” é um senhor canto do cisne, já que pouco mais de duas semanas depois, sua morte foi anunciada. A faixa título já abre no clima fúnebre de um coro gregoriano. “Leaving on a Table” e “Travelling Light” dialogam com o tom ecumêmico e narrativo de um escritor/cantor que ainda tinha muito a dizer. No entanto, nada se emparelha a “Treaty”, apague as luzes quando ele disser: “It's over now, the water and the wine / We were broken then but now we're borderline”.

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“Rain Crow” é mais um disco sinistro de Tony Joe White. "Tell Me a Swamp Story" não é apenas o título da faixa de encerramento do 17º álbum de estúdio do veterano músico norte-americano, a música encapsula sua carreira inteira em cinco palavras. O fato de ser residente em Nashville não o aproxima do country, seu olhar na verdade se debruça sobre o mofo e acordes rastejantes do blues no norte do Mississippi.  Nas suas letras ele pode falar de assassinatos, bruxaria e a culinária sulista. “The Middle of Nowhere” foi escrita em parceria com o ator/diretor Billy Bob Thorton.  Se eu fosse escolher apenas um som pra convencer alguém sobre o talento do velho Tony, ouça “Right Back in The Fire”. No todo, um conjunto de canções de arrepiar.

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Aos 71 anos, “Keep Me Singing” é a 36º marca na discografia de Van Morrison. A exceção do blues “Going Down to Bangor”, da instrumental “Caledonia Swing” e de “The is Mightier Than The Sword”, o disco enfileira uma balada atrás da outra. “Memory Lane”, “Let It Rhime”, “Out The Vold Again”, estão embedidas em sutis arranjos de cordas que dão um colorido bonito aos temas; “Share Your Love With  Me” é a regravação de um sucesso de Aretha Franklin; “In Tiburion” é uma bonita homenagem a cena artística de São Francisco, com citações aos escritores beats e ainda relembra um mestre do jazz: “Chet Baker would play down at ‘The Trident’ / With his horn, he blew everybody away”... E um solo de trompete nos lembra do quanto Van ainda tem lenha pra queimar.

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Há legitimidade nessa nova empreitada de Mick, Keith, Ronnie e Charlie. Afinal, os Stones nasceram como uma banda de blues. Gravado numa JAM - e em apenas três dias-, “Blue and Lonesome” soa como se os Rolling Stones estivessem num boteco. Repare nas guitarras nervosas, ciscando pelos temas como galos de rinha. Além de arrasar nas vozes, ouça a harmônica encardida de Jagger captada a moda antiga. Ele sempre foi um dos meus gaitistas favoritos, em “Little Rain”, ele tira onda! Entre as regravações, cavalos de batalha de Little Walter, Willie Dixon, Jimmy Reed e vários capangas daquela turma da pesada do Chicago Blues. “Everybody Knows About My Good Thing” e “I Can’t Quit You Baby” contam com canja de Eric Clapton e “Ride ‘En On Down” ganhou clipe com a atriz Kristen Stewart. Uma aula de blues.

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Se David Crosby acabou de vez com qualquer chance de retorno do Crosby, Stills, Nash & Young, “Lighthouse” pelo menos apaga parte desse incêndio. Após quebrar os pratos com Neil Young e o velho parceiro Grahan Nash, e apenas dois anos depois de “Croz”, ele está de volta. Em mais de 50 anos de carreira, “Lighthouse” é apenas seu quinto álbum solo (fora Byrds, CSN, CSNY e trabalhos em dupla com Nash). Produzido por Michael League, do Snarky Puppy, temos o velho bigodudo fazendo aquilo que sempre soube fazer de melhor. Vocais cristalinos na linha de frente, violões de aço retumbando pelos espaços vazios e canções que nos colocam pra pensar. “Things We Do For Love”, “Drive Out To The Desert” e “By The City of Common Day” ficariam bem em qualquer um de seus álbuns.

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“Cleopatra” é apenas o segundo álbum de estúdio dessa banda formada em New Jersey, no entanto, mostra que os Lumminers não estão pra brincadeira. Uma boa banda pode soar grandiosa apostando no minimalismo dos arranjos? Sempre buscando sustentação nas canções (que são são boas demais), eles provam que sim.  As melodias respiram entre pianos sombrios, guitarras punks com roupas de música folk, violões despretensiosos e o silêncio fazendo parte do conjunto da obra. “Long Way From Home” soa como um improviso em um churrasco, “In The Light” é uma canção de ninar sobre desapego, “Gun Song” se sustenta apenas com violão e piano, e o resultado final soa como se uma orquestra os estivesse acompanhando. “Cleopatra” aponta para uma direção onde as canções sobrevivem.

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Com quase 20 anos de trajetória, “Everything Once” não é o melhor disco do Travis. Ainda mais que esses escoceses já fizeram álbuns fantásticos como “The Man Who”. O novo trabalho não passa de uma colcha de retalhos de singles onde não há amarração alguma. Aos 43 anos e sem a mínima pinta de rock star, o vocalista Fran Healy aparece envelhecido no estranho e divertido clipe de “3 Miles High”. No entanto, mesmo não sendo uma obra-prima, o Travis possui as canções perfeitas para tocarem em qualquer boa FM do mundo. Prova disso são faixas como “What It come”, “Animal”, “Magnificent Time” e “Radio Song”. Apesar disso, a banda continua batendo longe das listas de lembranças nos rankings de melhores do ano. Não por aqui.

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Sem dúvidas, uma das bandas mais bacanas pra quem curte o rock sulista dos anos 1960/70 chama-se Blackberry Smoke. Fácil reconhecer traços de grupos como Lynyrd Skynyrd , Allman Brothers ou The Black Crowes. É o caso de “Like An Arrow”, novo disco dessa rapaziada da Georgia. “Waiting For a Thunder” é um tema que dá o tom dos Blackberry: vocal seguro do vocalista/guitarrista Charlie Starr e riffs de guitarra que ficam martelando na memória. “Let It Burn” incide com sucesso pela capirice do country. Baladas como “The Good Life”, ”Ain’t Gonna Wait” e “Running Through Time” são temas que o afirma o quinteto como operários na construção de boas canções. Além disso, o álbum fecha com chave-de-ouro – “Free On the Wing” conta com a participação de Gregg Allman.

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10#Pylla C14 “Lá de Volta Outra Vez”


Se Santa Maria fosse uma cidade de milhões de habitantes e bem localizada estrategicamente no ponto de vista do mainstream, tipo Los Angeles, Londres ou São Paulo, Pylla Kroth seria maior do que já é. Com todas as contradições que sua figura nos evoca, aqui no Centro do RS, há mais de trinta anos Pylla é a grande expressão do rock local. “Lá de Volta Outra Vez”, seu quarto CD solo com o acompanhamento da Carbono 14, é um dos melhores discos já lançados nessas plagas. As nove canções não deixam a peteca cair em momento algum da audição. Ouça “Visão Turva”, “Na Real”, “Fuligem”, “Já Era” e “Passará” e sinta a ferroada batendo no ouvido. Além do mais, Pylla virou novamente hitmaker local com a balada “Novo Romântico”, um dos grandes sucessos do ano em um FM local. 

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