FILME: “LOVE & MERCY", A HISTÓRIA DE BRIAN WILSON, LÍDER DOS BEACH BOYS

Cartaz norte-americano. Divulgação Sony
Em primeiro lugar, vamos falar de “Love & Mercy” (2014), como “Love & Mercy”, e não com o título desnecessário e oportunista de “The Beach Boys – uma história de sucesso”, como foi renomeado no Brasil. Até por que essa cinebiografia não fala exatamente da trajetória dos Beach Boys, um dos mais importantes grupos norte-americanos dos anos 1960. O título por aqui é simplesmente uma tentativa sórdida da Sony em aumentar o interesse pelo filme. A nomeação gringa advém da canção homônima de Brian Wilson, líder do grupo, e lançada em 1988, anunciando o ressurgimento do astro em seu primeiro disco solo.

Capa do DVD nacional. Divulgação
Com isso, como já sabíamos, é justamente na figura do músico mais talentoso dos Beach Boys que encontramos o eixo central da história. Trata-se de uma narrativa sobre suas paranoias, isolamento, abuso de drogas, esquizofrenia, relação complicada com o pai e claro - um retrato da genialidade de Wilson, grande mentor intelectual do grupo californiano, quinteto original formado por ele com ajuda de seus irmãos, Carl e Dennis, do primo Mike Love, além do amigo Al Jardine.

O longa começa na faixa de tempo em que a banda já é sucesso absoluto nas paradas norte-americanas. Porém, "Love & Mercy" focaliza a virada da chave de Brian em não apenas refinar a discografia da banda, como também obsessivamente aproximá-la do conceito de arte. O resultado desse esforço é “Pet Sounds” (1966), um dos mais respeitados e amados álbuns lançados no universo do rock and roll em todos os tempos.

E dois atores foram escalados para reviver a história do músico. Paul Dano (Os Suspeitos, Cowboys & Alliens), nome que compõe o jovem Brian nos anos 1960, é sem dúvida o maior acerto do filme. Contudo, a escolha de John Cusack (Alta Fidelidade, 2012) focalizando o ídolo em seu período mais crítico, durante os anos 1980, vem gerando uma série de avaliações negativas. Já o sempre ótimo Paul Giamatti (12 Anos de Escravidão, Sideways) é Eugene Landy, um doente mental com registro profissional de psicólogo que controla a vida do músico em tempo integral, além de mantê-lo dopado 24h por dia.

Paulo Dano, o Brian Wilson dos anos Divulgação Sony
Outro destaque é a aparição de Melinda Ledbetter (Elizabeth Banks), um dos pivôs na reabilitação pessoal e artística de Brian. Com direção de Bill Pohlad, mais conhecido como produtor de filmes do calibra de "Na Natureza Selvagem" e "The Runnaways", o roteiro é do jornalista Alan Michael Lerner (Débi & Lóide) e do cineasta e roteirista Oren Moverman (Não Estou Lá).

Em grande parte pela atuação de Dano, o enfoque em "Pet Sounds” é uma das melhores reconstituições da história. Muita gente não sabe, mas não foram os Beach Boys a banda base a ser utilizada nas gravações do álbum. Brian chamou o The Wrecking Crew, time formado por experientes músicos residentes na Costa Oeste americana (entre eles nomes de peso como do tecladista Larry Knechtel e do baterista Hal Blame) que gravavam com meio mundo - independente do gênero musical do contratante. Com gravações realizadas no estúdio da Capitol, em Hollywood, e direção de Brian, as sessões ocorreram durante o tour dos Beach Boys no Japão, quando o músico foi substituído na estrada por Bruce Johnston. 


Elizabeth Banks. Divulgação Sony
Quando Carl, Dennis, Al e Mike voltaram do Oriente, o disco estava praticamente gravado, faltando apenas os vocais. E a história no filme joga luz no surgimento de canções como “God Only Knows” e “Wouldn’t It Be Nice”, expõe (uma pequena parte) das loucuras, esquisitices e genialidades de Brian regendo sua obsessão pelo take perfeito. Fatos como esses nos colocam dentro do estúdio para apreciarmos a construção de um clássico. Outro detalhe que empresta legitimidade a essa recriação de época: grande parte do desenho de som foi feito a partir de faixas isoladas - e originais - das sessões de gravação de "Pet Sounds" e "Smile", fragmentos completos já conhecidos em algumas em edições piratas. E ainda temos um Paul Dano inspirado - construindo o personagem mais proeminente do elenco. Dano não apenas nos convence, como também emociona numa representação fidedigna do mentor intelectual dos Beach Boys, revelando a dicotomia maior de muitos artistas - a alternância entre o estado de graça, e o tormento de conviver com demônios e fantasmas.

uJohn Cusack, o Brian Wilson dos anos 1980
Já no recorte dos anos 1980, quando Brian vive o maior hiato existencial e artístico da sua carreira, John Cusack nos deixa com a sensação de não fazer sombra a atuação de Dano. Mesmo que o período mais emboletado e gerenciado da vida do músico tenha o signo da inatividade, Cusack muitas vezes é tão expressivo quanto um boneco de cera. Afinal, não apenas de caras e bocas se constrói um papel. Nesse momento, brilha Paul Giamatti, vilão maior da trama, além do talento da quarentona Elizabeth Banks (Homem-Aranha, Prenda-me Se For Capaz), uma atriz pouco aproveitada no cinema atual e perfeita na representação do grande amor da vida de Brian.

Brian Wilson entre os Beach Boys de "Love & Mercy"

Para o célebre maestro e compositor Leonard Bernstein, Wilson é um dos maiores compositores do século XX. Segundo Paul McCartney, “Pet Sounds” foi a principal influência e uma das inspirações para a construção de outro baluarte do rock “Sgt. Pepper`s Lonely Hearts Club Band”, histórico álbum dos Beatles, de 1967. Quanto ao filme, o saldo final é positivo. Principalmente, se assim como eu, você for fã de Beach Boys. Faz tempo Brian Wilson merecia uma cinebiografia que resgatasse sua importância dentro da cultura pop mundial. E “Love & Mercy” cumpre perfeitamente essa função. 

Em tempo: outro de seus irmãos, Dennis Wilson, também merecia um filme. Dennis morreu afogado em 1983. 


Cotação: *** 1\2

Veja o trailer.

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