Entrevista: Vitor Ramil e a incansável busca pela música perfeita

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
Por Márcio Grings

Numa visão romantizada, o tocador de violão é um cavaleiro solitário, um trovador, um encantador de serpentes, uma espécie de vagabundo mítico farpado de surpresas e truques. Sob as luzes, um ator: chapéu na cabeça, uma trouxa às costas, um bordão, a brisa refrescante e a lua cheia. Vejo Vitor Ramil como um representante desses antigos bardos que povoam nosso imaginário. Um poeta esculpidor de sons. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
Conversei por telefone com o músico gaúcho por cerca de 20 minutos. Vitor estava arranhando o violão em casa, na sua amada Pelotas, cidade natal da família Ramil, onde voltou a morar em 1992, depois de seis anos no Rio de Janeiro. Ainda em pleno tour do CD “Foi no mês que vem”, show homônimo que passa por Santa Maria no próximo sábado (12), ele já pensa num futuro trabalho: “Antes da tua ligação estava tocando as músicas que estarão no próximo disco e pensando. No que se refere aos arranjos, tenho dúvidas de como fazer esse novo álbum. Minha abordagem no violão está tão particular, com afinações preparadas, não convencionais, e assim o som soa muito cheio. E quando sobreponho outros instrumentos ele muitas vezes deixa de soar legal. E assim fico dividido, pois gosto muito de tocar voz e violão com um tempo próprio, nas minhas flutuações e dinâmicas”, disse Vitor. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
UM ARTISTA E SUAS FIXAÇÕES

Em seu atual show, o formato acústico e reduzido dialoga com os arranjos de “Foi no mês que vem”, retrospectiva cercada de releituras de vários temas compostos por ele ao longo dos anos: “Eu tenho muitas obsessões. Algumas músicas eu nunca fico convencido do resultado final do arranjo ou a interpretação, e daí quando surge alguma oportunidade que eu julgue apropriada de outro enquadramento, seja num novo trabalho ou noutro momento específico, acabo registrando-as novamente”. E Vitor ainda foi mais elucidativo: “’Deixando o pago’ de ‘Ramilonga’, por exemplo, tem o andamento muito rápido. Quando gravei pela primeira vez, era um tema recente, não acho que a cantei bem nesse disco. Já ao registrá-la em ‘Délibáb’ acredito que o andamento ficou arrastado. Pra mim a melhor gravação está em ‘Foi no mês que vem’ quando possivelmente eu ‘cheguei’ na canção”. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
Ramil credita essa prática (ou necessidade) de revisitação a algumas peculiaridades de sua trajetória: “Eu não toco em rádio, raramente vou a programas de TV, de certa forma eu sou a minha própria rádio. Existem pessoas que nunca ouviram a gravação de ‘Estrela, Estrela’ do primeiro disco e só descobriram essa música em gravações recentes”. Ele relembra que artistas como Egberto Gismonti, um de seus ídolos, também se utilizaram dessa via. No entanto, a inquietude do artista se manifesta logo em seguida: “Atualmente estou com tantas músicas novas, então sinceramente não sei se vou continuar nesse caminho. De outro modo, penso em fazer algo diferente para o próximo disco. Também gosto de instrumentação mais pesada, com bateria, baixo e guitarra”. A provável direção desse álbum poderá brilhar num encontro com um antigo colaborador, o músico e produtor argentino Santiago Vazquez: “Estou indo a Buenos Aires e vou apresentar as canções pro Santiago, e assim, discutir novos arranjos e possíveis caminhos a serem percorridos nesse futuro CD”. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
Sempre pensando em dar um passo adiante na carreira, Vitor quer fugir de mesmices e soluções fáceis: “Ouço alguns trabalhos de artistas atuais e acho grande parte das obras oferecendo apenas um pouco mais do mesmo. Muitas vezes essas direções musicais me soam como forçação de barra”. E deixa evidente seu perfeccionismo: ”Cada disco é uma nova história, por isso, gostaria de ver o sucessor de “Foi no mês que vem” como algo diferente não só num contexto pessoal, mas também num âmbito maior”. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
RELENDO BOB DYLAN 

Entre as novas músicas que possivelmente estejam nesse CD está “Ana”, tema dedicado à esposa Ana Ruth. Trata-se de uma releitura de “Sara”, quarta versão para o português que ele faz de Bob Dylan. Antes já havia relido “Joey” (que inspirou “Joquin”, de “Tango”), “You a big girl now” (Só você manda em você), e “Got serve somebody” (Um dia você vai servir a alguém), as duas faixas incluídas em “Tambong”. Para um artista muitas vezes arraigado ao vernáculo da música regionalista e as cercanias platinas do RS, o autor de “Like a Rolling Stone” é curiosamente o único músico norte-americano diluído explicitamente em sua discografia: “Minha relação com a obra de Dylan é curiosa, misteriosamente ela é mais musical que poética. Apesar da força das letras, o que eu mais admiro nele é capacidade de síntese musical, temas longos que retornam ao ponto inicial. A repetição melódica, a forma como altera a melodia e muda coisas. Invariavelmente canta diferente e muitas vezes, assim, torna as canções irreconhecíveis”. Porém, deixa bem claro que essa ‘influência’ é mais intuitiva do que obsessiva: “Por exemplo, eu adoro Piazzolla e Miles Davis, mas não me preocupo em ouvir tudo a respeito deles, isso não aconteceu nem mesmo com os Beatles, uma das grandes paixões musicais da minha infância e adolescência. Não esgotei a obra deles”. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
EM SANTA MARIA 

 A última passagem de Vitor Ramil por Santa Maria foi em 2012. Equando perguntado sobre as lembranças que guarda da cidade, primeiramente elogia o Theatro Treze de Maio: “Aquele teatrinho do Centro é super acolhedor”. Também disse que a Boca do Monte mora nas lembranças da família Ramil: “Eu tenho uma atração muito grande por Santa Maria e com esse público esperto, característico de um polo universitário. Acabo viajando pouco para o interior do Rio Grande do Sul e eis um dos lugares que retorno com certa frequência. Minha mulher tem familiares na cidade, minha mãe, quando menina, estudou em um colégio interno daí”, conclui, lembrando que a cada nova passagem pelo centro do estado, sua mãe faz perguntas sobre o lugar onde um dia morou. 

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo
O reencontro do músico com o público local terá como palco o Salão de Eventos do Colégio Santa Maria. Sempre achei que o artista que tem essa incrível capacidade de sintetizar suas canções apenas com um violão, olhos nos olhos com a plateia é um xamã, uma espécie de viajante das estrelas, um astronauta lírico. Um ilusionista que logo após nos seduzir com seus truques, desaparece tão rápido quanto surgiu, nos deixando na memória fragmentos desse encantamento. Possivelmente um morador de lugares fictícios, inventados por acordes e poemas musicados, um tocador de mantras, um milongueiro caminhando pelos Satoleps da imaginação. Seja bem-vindo, Vitor Ramil. Já estamos ansiosos. 

Com fotos de Dartanham Baldez Figueiredo, atualização (13/09): Leia resenha da apresentação em Santa Maria

Fotos: Dartanham Baldez Figueiredo

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