sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A CURVA DO RIO


Acorda com aquela sensação estranha de não pertencimento. Como se fosse um monstro horroroso precisando se esconder do mundo. Peixe fora d’água, um estrangeiro, um marciano tentando se adaptar ao Planeta Terra. Levanta da cama se esquivando dos espelhos da casa. Lembra-se de um sonho estranho sonhado ainda há pouco.

Estava dirigindo seu carro pelas ruas de Santa Maria, no entanto, completamente perdido não tinha a mínima ideia de onde estava. Parou o automóvel e colocou as mãos na cabeça, consternado pela inabilidade de chegar até destino algum. Mas pra onde ir? Como chegar lá? E qual seria esse caminho? Um amigo, de carona com ele, ria da sua consternação. Ele também riu.

Ao lavar o rosto no banheiro, o correr da água da torneira refresca uma memória vívida da infância. Lembra-se daquela curva do Rio Ibicuí. No caminho para São Sepé. Era sempre nesse lugar que pescava lambaris com o pai, isso quando tinha uns 12 ou 13 anos. Ainda é possível sentir o cheiro da água doce repleta de confetes vegetais alçados pelas árvores ribeirinhas. O anzol dançando nas profundezas e a linha da vara de pescar atravancando o caminho. Folhas desencarnadas da planta original. A gosma das minhocas semimortas impregnando os polegares.

A sensação de fisgar um daqueles bichos gerava no menino um misto de dor e complacência com o pai. Tinha pena de acabar com a vida dos peixes, no entanto, era um daqueles raros momentos em que havia um diálogo natural entre o velho e seu filho. E assim, dezenas daqueles bichinhos iam sendo lançados no balde. Logo mais virariam uma frugal refeição de sábado à noite. Lambaris fritos com polenta. Sabor de infância e confraternização em família.

Ainda acompanhado de um humor cadavérico, vai até a frente do pátio e abre a caixa do correio. Há um pacote lá. Abre. Um livro do Leminski. “Catatau”. Lê um bilhete fixado junto à embalagem. Escrito a lápis. Tem um trecho bem no início que diz:

“Sempre gostei de escrever a lápis, bem pontiagudo após ser apontado. Talvez por que aprecie a coceirinha e os ruídos evocados por esse movimento de rabiscar tão arcaico e peculiar”.

E no fim, a coisa termina assim: 

“Elmo... Élders, Thoreaus, largos e profundos! Boa leitura”.


É. Nada como um fato novo pra alterar a ordem das coisas. Os lambaris da memória, ainda aprisionados naquela curva de rio, profetizaram algo inusitado. Pelo menos isso, mesmo que igual ao sonho de estar perdido dentro de si na cidade onde mora é uma gotejante sensação viva como carne crua, tecidos recém-extraídos de algum bicho morto.

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