quarta-feira, 3 de junho de 2015

SENDO ESMAGADO PELO DEDO MINDINHO DO CRIADOR


Inspirada em "Crush", música da Jack of Hearts


Olhou pra fora. Nenhum fiapo de algodão faz menção ou insinua-se sobre sua cabeça. Não chove há meses. As nuvens foram extintas do céu. Tem quase certeza disso. Devem estar dando uma banda em outro planeta mais confiável. Não vê uma sombra humana por perto. Sem problemas. Sempre se deu melhor com os bichos. Os gatos e cães circulam próximos aos olhos. Tudo certo. Ser humano tem a marca da inconfiabilidade. Cansou da raça. Ainda bem que eles também parecem ter desistido dele.

Toma um gole de água no bico da botija. O último. Precisa ir até o riacho e prover a cambona. Até o gargalo. Sempre sente muita sede. Ele deve beber uns três litros por dia. Caminha até a fonte e na cruzada bate com a mão no pequeno sino pendurado numa árvore seca.

BLEINNNN!

Gosta de ouvir o barulho reverberando. Chega próximo ao manancial, e então atira uma pedra na água. Um som abafado é produzido simultaneamente ao momento que o objeto some nas profundezas.  Engraçado, o rio parece não sofrer com a falta de chuvas. O nível continua estabilizado, pelo menos mediante sua marcação.

Perdido naquele buraco no meio do deserto, em seu oásis, é como se estivesse com os braços quebrados e as pernas acorrentadas. Há imobilidade em sair dali. Na verdade, a intuição lhe avisa que aquela posição estratégica precisasse ser guarnecida. Olha para o relógio de pulso. É incrível! Ainda funciona perfeitamente. 16h30. Daqui a meia hora o sol deve se pôr. Deve não, vai. Depois que o velho mundo foi pro saco, o astro rei ficou mais preguiçoso. Pode apostar que a bola de fogo cansou desse planetinha sem perspectivas. Aquele homem também já jogou a toalha. Eis que lá está ele, apenas esperando sabe lá o quê.

Noite passada sonhou que tinha morrido. Lembra-se de protagonizar a história como capitão de um navio fantasma. Vestido de palhaço assombrava almas penadas presas numa espécie de purgatório.  O barômetro apontava para o Sul. E para esse extremo ele navegava. Nunca gostou de discutir com objetos ou qualquer um. Nem em sonho. E naquele mesmo devaneio, enquanto olhava pro céu, via uma invasão de nuvens sobrevoando a nau. E eis que o dedo gigantesco do Criador surgiu do nada e esmagou a embarcação. Tudo desapareceu. Inclusive ele. Um ser impiedoso feito um gigante esmagando uma pulga com o dedo mindinho. “Nada de olhar para as nuvens”, uma voz poderosa e gutural bradou em alto e bom português.

Adeus.

Acordou... Daí tomou um gole d´água e puxou o gato pra cima da rede. “Deve estar uns 45 graus”, pensou ao mesmo tempo em que enxuga o suor da testa e fecha os olhos. “Merda”, disse em voz alta.

Até nos sonhos está muito claro quem é o Patrão nessa história. Isso foi noite passada. Hoje, enquanto retorna a porta da cabana, de repente para. Coloca as mãos na cintura e fica por vários minutos olhando o sol desaparecer pelo horizonte.


Por enquanto, nada de nuvens, vozes ou dedos esmagadores.      

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